Fred precisa se reinventar (por Zeh Augusto Catalano)

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Em 1985, talvez 1986. Roberto Dinamite já era ídolo consagrado do Vasco. Mas a idade já pesava. Não aguentava mais desempenhar o papel chave que tinha executado com maestria nos anos anteriores. Não tinha mais o punch necessário para atuar entre os zagueiros e levar a vantagem que sempre levou. Seu jogo sempre dependeu fortemente do seu físico. Das arquibancadas, começaram a surgir dúvidas e vaias veladas. Parecia que o fim do ídolo se aproximava.

Surpreendentemente, Roberto recuou. Apoiado pelo surgimento de um garoto chamado Romário, passou a atuar como um ponta de lança, usando sua categoria para armar o jogo, enfiando bolas para jogadores velozes que ocupavam o buraco que sua presença recuada causava nas defesas, pois os beques que o marcavam saíam para acompanhá-lo, deixando uma avenida por trás. Zé Sérgio, Mauricinho, Tita e, principalmente, Romário cansaram de fazer gols em passes precisos de Roberto. E o próprio Roberto, vindo de trás, de frente pro lance, era o rei da segunda bola. De tudo o que sobrava desses lances criados por ele próprio. Muito do que o Vasco conseguiu do meio pro final dos anos 80 se deveu a esse “reforço”, de um centroavante clássico que, percebendo suas próprias limitações físicas, teve a coragem de se reinventar. Com isso, conseguiu jogar em alto nível e ser verdadeiramente útil até os quase 40 anos de idade.

Anos depois, o próprio Romário precisou se reinventar. No começo da carreira, sua principal característica era uma arrancada poderosa, que o colocava um metro à frente dos marcadores em três, quatro passos. Anos depois, parecia que sua carreira não se alongaria. Ledo engano. Se fingindo de morto, usava seu talento único para se esconder de todos na grande área, menos da bola. Corner batido, bate rebate, e lá vai a bola pro pé de Romário, sozinho, para ele empurrá-la para o gol vazio. Parecia magnetismo. Cansou de fazer gols assim jogando pelo Fluminense.

Dois grandes nomes. Poderia lembrar de outros mais, como Evair por exemplo.

Tenho lido muitos textos enxugando gelo, ou pior, muita gente queimando o sofá para que o amante não mais ataque a esposa. A meu ver, o problema do Flu não é ter o Fred em campo de forma alguma, mas sim persistir com o Fred desempenhando um papel para o qual ele não tem mais condições físicas. Fred ainda é, disparado, o melhor jogador do Fluminense tecnicamente falando. Pode, portanto, desempenhar outro papel no time. Resolver problemas ao invés de causá-los.

O Fluminense joga do mesmo jeito há anos, e poderia jogar muitos mais se o seu craque ainda desse conta do papel que lhe é reservado. Mas não dá mais. Todo carnaval tem seu fim. Fará gols, será o segundo maior artilheiro do clube, mas a perda física é inevitável.

Não sei se os dois exemplos que citei mais acima foram os mentores intelectuais das suas mudanças de função. Sei que tiveram coragem de se reinventar quando parecia que o adeus tinha chegado ou estava próximo.

Espero que o Fred perceba e queira essa mudança. O Fluminense e o futebol agradecerão.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: zeh/pra

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