Fred e a autofagia tricolor (por Sergio Trigo)

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Prezados amigos, saudações tricolores.

Da última vez em que dispus a escrever algo sobre o Fluminense, em abril deste ano, tratei de um tema que há tempos me incomoda: a autofagia que assombra as Laranjeiras nos últimos tempos.

Naquela ocasião, escrevi: “Episódios de autofagia, aliás, acumulam-se atualmente nas Laranjeiras do mesmo modo em que se acumulavam taças e troféus, em nossos melhores momentos. Somos parte de um todo, ou deveríamos ser, mas as vaidades e os interesses difusos não nos têm permitido manter a unidade.

O diretor ataca o funcionário. O funcionário ataca um autor. Autores atacam-se entre si. O ex-diretor ataca todo mundo. A antiga patrocinadora ataca a diretoria. A situação ataca a oposição. A oposição ataca a situação. Opositores atacam-se entre si. O ídolo ataca a hierarquia. A torcida ataca o ídolo. A diretoria ataca o bom senso. O treinador ataca a tradição.

E assim vamos…”

Pois bem. Na noite de ontem, fomos surpreendidos (ou nem tanto) pela notícia do fim do ciclo da atacante Fred no Fluminense. E o que o Fluminense ganha com isso?

Iniciemos a análise pela parte financeira, vez que os direitos federativos do jogador são um ativo do clube, e, como tal, devem ser tratados com a máxima responsabilidade.

A se confirmar o (sempre obscuro) valor da transação, estamos falando em R$ 5 milhões. Ou seja, cerca de meio Henrique ou meio Richarlison, se considerarmos os valores (sempre obscuros) noticiados pela imprensa quando da chegada dos “craques” citados. Fala-se, ainda, na economia anual de cerca de R$ 10 milhões, até 2018. Ou na conversão do valor da venda em tijolos para as obras do CT.

Se as notícias estiverem corretas, deveria ser caso de impeachment por crime de responsabilidade. Dizia-se, quando daquele espetáculo insosso ocorrido em abril, que a multa rescisória do jogador estava na casa do R$ 20 milhões. Liberá-lo por um quarto desse valor é fazer sangrar os cofres de uma instituição que, apesar do propalado superávit, não me parece estar com as suas finanças equilibradas a ponto de se permitir tal descalabro.

O alardeado superávit, no entanto, parece aparenta ter sido um mero golpe de sorte, ocasionado pelas vendas a valores galácticos, dos irregulares Gérson e Kenedy. Sabe-se lá quando o Fluminense voltará a dar tanta sorte assim. A venda de Gustavo Scarpa, jogador que atua em nível bastante acima dos que saíram no ano passado, é iminente. Já se ouve falar aqui e acolá em R$ 11 milhões, já que o Tricolor não possui nem a metade dos direitos federativos do atleta (45%). A comparação entre os valores de uma eventual negociação do Scarpa com os valores das vendas de Gérson e Kenedy ajuda a explicar o tal “golpe de sorte” a que me refiro…

É preciso, ainda, avaliar com calma o tal alívio da folha salarial. Venho dizendo há algum tempo que o Fluminense vem aplicando pessimamente os recursos de que dispõe para contratações e pagamento de salários. Nesse momento, a parte financeira e a parte técnica se juntam, formando o que convencionou chamar de “planejamento”, palavra que há muito parece não frequentar as Laranjeiras…

Fazendo um pequeno exercício de memória, dá para montar uma extensa lista de contratações que confirmar a hipótese. Algumas muito caras, outras nem tanto. Todas, porém, sem que tenham rendido qualquer retorno desportivo ou financeiro para o clube.

Vamos lá: Victor Oliveira, João Filipe, Artur, Breno Lopes, Guilherme Santos, Wellington Paulista, Ronaldinho Gaúcho, Henrique 1, Antônio Carlos, Walter, Felipe (goleiro), Osvaldo, Diego Souza, Felipe Amorim e certamente mais algum ou outro que eu possa ter esquecido. Isso sem contar os valores pagos pela aquisição dos direitos federativos de Henrique 2, Richarlison e Renato Chaves, um tanto quanto superfaturados se considerarmos o desempenho demonstrado até agora… Some-se a isso alguns dos salários (sempre obscuros) pagos nas Laranjeiras a jogadores do atual elenco, que pouco ou nada fazem para justificar as cifras divulgadas pela imprensa, e temos um retrato bastante fiel do que vem sendo feito no clube.

Aos que chegaram por último, darei o benefício da dúvida, mas receio que muito em breve a lista acima se tornará mais extensa, em função das contratações recentes. A conferir.

Assim como a lista acima, o momento da saída de Fred revela a inexistência de qualquer planejamento minimamente consistente nas Laranjeiras quando se fala da formação de elenco. O valor gasto nas transações e nos salários dos muitos jogadores acima não seria suficiente para trazer ou manter alguns jogadores capazes de alcançar resultados melhores do que os que temos obtido atualmente? Se era para liberar o Fred, porque fazê-lo agora, com dois campeonatos nacionais em andamento?

Chegamos, então, à parte técnica da questão. Fred é um jogador de qualidades técnicas inquestionáveis, com grande visão de jogo, inteligência e faro de gol. Trata-se do melhor atacante brasileiro desde o esgotamento de Ronaldo e Romário, anos-luz à frente de qualquer outro. Logo, não deve ter sido dispensado por deficiência técnica. Se foi, que os responsáveis sejam presos e julgados por crime de responsabilidade, sem querer ser repetitivo.

Sua trajetória em seus sete anos de clube foi cheia de altos e baixos, é verdade, mas o saldo é extremamente positivo e extrapola o limite das quatro linhas. Jogador que enxerga a partida como poucos, que tem excelente relação com a bola e um poder de conclusão fantástico, Fred se transformou, com méritos, no maior ídolo da história recente do clube. Grifem a palavra “recente”, por favor, para que não cometamos a heresia de desconsiderar o vasto panteão de ídolos que envergaram a camisa do Fluminense ao longo dos nossos 114 anos de existência. Não sejamos reducionistas a esse ponto.

Fred foi vaiado e festejado, amado e odiado, mas se fez ídolo da torcida tricolor por seus próprios méritos. Não gosto de manifestações orquestradas, mas nada tenho contra aqueles que o vaiaram, registre-se. Futebol é, sobretudo, emoção e cada um lida com as suas emoções como pode, ou como sabe. Eu, particularmente, não comungo da ideia de que o simples fato de um profissional remunerado se apresentar com a camisa do Fluminense seja o suficiente para blindá-lo contra apupos, ou para nos obrigar a aplaudi-lo. Pelo contrário. Para envergar a camisa tricolor, é preciso estar à altura do Fluminense. Fred esteve.

Seu nome estará para sempre imortalizado na memória da torcida tricolor e figura como o terceiro maior goleador da história do clube. Se extrapolou em alguns momentos, e acho mesmo que o fez, credite-se a fraqueza dos dirigentes do clube, que permitiram ao jogador ocupar o imenso vácuo de poder deixado à sua disposição. Mesmo assim, houve momentos em que a voz de Fred foi a única voz ouvida na defesa institucional do clube, em alguns desses muitos momentos em que fomos e somos sacaneados por quem quer que seja.

Nada disso, no entanto, foi suficiente para que o jogador quisesse continuar no clube ou para que os dirigentes do clube quisessem continuar com o jogador. Que se vá, então, e que seja feliz. E que a torcida tricolor saiba entender o fim desse ciclo como um processo natural, que não precisa chegar acompanhado de altas doses de iconoclastia.

Costumo dizer que não torço para jogadores. Torço para o Fluminense, somente. Não torço sequer para a seleção da CBF. Jogadores vem e vão, treinadores idem. O Fluminense fica.

E aí que reside a minha maior preocupação. O que está sendo feito do Fluminense? Qual é o plano? O que precisamos entender que ainda não entendemos?

Com a palavra, os responsáveis.

Panorama Tricolor

@Panorama Tri @S_Trigo

Imagem: st

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Saudações Tricolores.

Se preferir, entre em contato através do endereço eletrônico strigo@globo.com, twitter ou facebook.

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P.S.: Se você, assim como eu, tem o hábito de guardar os ingressos de partidas do Fluminense, entre em contato comigo. Possuo uma coleção de ingressos de mais de mil partidas do nosso Tricolor e tenho interesse em trocar ou adquirir aqueles que não figuram na minha coleção.

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