Fluminense 3 x 3 (4 x 2) Flamengo (por Paulo-Roberto Andel)

I

Vinte minutos eletrizantes, estilo jazz rock: dois gols em oito minutos, bola no peito-braço-trave, bobeira dos goleiros, das defesas, arrancadas, faltas, reclamações, vibração, gols perdidos, balãozinho. Um começo de Fla x Flu para lavar a alma do combalido futebol carioca, palácio de um Estado à deriva. O Flamengo tentando ficar mais tempo com a bola, o Fluminense ensandecido nos botes.

Logo depois do intervalo da água, o rival virou o jogo numa cabeçada. A defesa tricolor deu bobeira de novo e, sem crucificações, Júlio César deu uma de Fernando Henrique. Bola pra frente.

Tomando a rédea das ações ofensivas, o Flu pressionou, perdeu gols e Guerrero bancou o goleiro. Mão na bola, pênalti, Dourado na bola e estopa no canto direito, sem chance: dois a dois. Trinta e três minutos. Que Fla x Flu!

Mais gols perdidos e o grande lance: passe de Wellington para Lucas livre, um chutaço no alto, a revirada e o eterno placar de 3 a 2. O jogo poderia terminar ali.

A preocupar, Sornoza mancando. É bom demais vê-lo em passes e chutes. Seu conterrâneo Orejuela – de barbicha loura e tudo – é uma máquina de categoria. Richarlisson e Wellington correram demais. A defesa começou trôpega mas foi acertando aos poucos.

O primeiro tempo foi do Flu.

II

Num ritmo de jogo menos alucinante do que o da etapa inicial, coube ao Fluminense organizar as ações e controlar a posse de bola, sendo parado com faltas. Nos primeiros vinte minutos, as defesas não correram risco extremo. Mesmo depois da aguinha, o cenário não mudou.

Aos 28, Abel trocou o cansadaço – e lutador – Dourado pelo Resolve, tentando reanimar o ataque. O jogo então continuava morno. Wellington deu ótimo passe e Resolve poderia ter matado o jogo, mas finalizou à direita de Muralha.

Calazans em campo, nada de retranca. Marquinho em lugar de Sornoza, heróico e batalhador.

Quem não faz, leva. Esmaecido em campo, o Flamengo ressuscitou num golaço de Guerrero, cobrando falta perto dos 40 minutos.

Foi chato ver a vitória escapando por entre os dedos, mas não se pode esquecer: foi um jogaço, cujo clima de festa foi proporcionado pela luta árdua do Fluminense. Eles eram os favoritos, nós fomos melhores.

Pênaltis.

III

Desfalcado de seus principais cobradores de penais – Scarpa, Dourado e Sornoza -, lá foi o Fluminense em busca da Taça Guanabara de 2017.

Júlio César, irregular na partida, brilhou na hora decisiva. Muralha, mais preocupado em dançar, mal saiu nas fotos. Nossas cobranças foram sóbrias demais, categorizadas demais.

No fim, o pacote era deveras pesado: “Ame o Rio” na camisa, gorro de Romeu Pelicciari na cabeça de Richarlisson, e boa parte do tempo com 3 a 2 no placar. O rival sentiu. Não deu nem para o cheirinho.

IV

O charme da Taça Guanabara é nosso. Estamos fazendo o melhor começo de temporada dos últimos anos.

Atrás desse time guerreiro e incansável, só não vai quem já morreu.

Não, esgano meu: os mortos estão gritando em meio a uma nuvem de pó de arroz, redivivos como nunca.

Abel não chorou à toa. Ele sabe quem somos.

V

O Fluminense respira a eternidade do poema que é.

VI

Ao futebol carioca, as belas palavras que o escritor Norman Mailer dedicou ao monstro Jack Kerouac:

“Foi um sopro de ar fresco… uma força, uma tragédia, um triunfo e uma influência duradoura, e essa influência ainda está entre nós.”

VII

Tenho pena de quem torceu contra.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: curvelo

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