Fluminense, 113 anos (por Paulo-Roberto Andel)

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Olhar para trás e ver o sonho, a fantasia, o drama de morte e a felicidade da grande vitória de braços dados. O inusitado. O inesperado. O teatro com desfechos surpreendentes.

Assim tem sido o Fluminense nos últimos quarenta anos de meu testemunho ao vivo – e bem antes destes também.

Forjado para desafiar definições e derrubar mitologias ocas.  Capaz de retorcer o impossível, como se dissesse aos meios de comunicação: “Seus trouxas, só fiz isso para ridicularizar vocês”.

O time que tem o clube – é isso mesmo – mais charmoso do mundo, a torcida mais educada, elegante e crítica – tudo ao mesmo tempo. O Tricolor impera nos salões luxuosos e também nas vielas humílimas; seu escudo brilha em barracos e em luxuosos vitrais estrangeiros.

O Fluminense que recria heróis nos momentos mais improváveis e os lança à eternidade, casos de Assis em 1983, Renato em 1995, Deco em 2012 e o próprio Fred desde 2009.

Ninguém tem em sua história um Marcos Carneiro de Mendonça, um Castilho, um Pinheiro, um Telê ou um Rivellino à toa.

A camisa que cansou de ganhar títulos e títulos com jogadores tidos como comuns, um belo dia teve uma Seleção Brasileira inteira debaixo das três cores, por obra e graça do inigualável gênio de Francisco Horta, maquinista de primeira grandeza.

Oscar Niemeyer traçou curvas em nosso gramado no meio de campo. Preguinho, nosso decatleta e mito. Novamente Castilho, o homem que se submeteu à amputação de um dedo porque não queria demorar a voltar aos gramados.

Defeitos? Aos montes. A perfeição é o ofício do mentiroso, enquanto o Fluminense exala verdades que constituíram muitos erros e muitos acertos. O resto é a edição oca da história.

Quando errou, o Tricolor errou e muito. Foi crucificado, morto e sepultado. Estava tecnicamente extinto? Ledo engano. Mais vivo do que nunca. Que outra equipe do planeta teria um treinador vencedor de Copa do Mundo à beira do gramado nas agruras da terceira divisão? Ou doze mil maníacos debaixo de uma tempestade na geral naquela ocasião funesta?

Quando caiu, o Fluminense causou furor porque dele não se espera a queda, mas a ascensão permanente. Caso de agora, 2015,  e dos recentes títulos brasileiros conquistados com louvor.

Campeão do Mundo em 1952, único clube detentor da Taça Olímpica, arquiteto dos paradigmas do esporte brasileiro, multicampeão carioca, tetracampeão brasileiro, fábrica de campeões mundiais pela Seleção Brasileira. O Flu que fez o futebol brasileiro virar o que é, com cinco estrelas no peito. Berço esplêndido da camisa que, um dia, seria amarela para sempre.

Ah, Fluminense, capaz de forjar gigantes eternos de uma única tarde ou noite ou poucas: André Moritz 2006, Marcelo 2003, Adriano Magrão 2007, Gilcimar 1982, Márcio Rozário em 2011, Amauri também em 1982.

O time que leva os adversários à loucura com seus gols no instante derradeiro: Assis de novo, Washington em 2008, Renato em 1995, Antônio Carlos em 2005 e uma lista telefônica inteira, seja em grandes decisões ou em partidas de ocasião.

Até para cativar os corações das artes, o Fluminense bate no peito e traz o melhor.  Quer o teatro? Traga Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro. E coloque Sérgio Britto, Ítalo Rossi e Fernanda Montenegro na santíssima trindade da ribalta. Fala de música? Elis e Tom, Gil e Bethânia. Chico. Ivan Lins. O samba de Cartola, Délcio Carvalho e Wilson Moreira. O cinema de Saraceni e Mário Carneiro. Muito e muito mais.

Em algum lugar do infinito, Oscar Cox põe a mão no queixo e conversa com um interlocutor. Em certo momento diz: “Os bustos estão ótimos, mas minha preocupação é que vamos precisar de muito mais espaço. São apenas 113 anos, há muito mais por vir”.

Definir o Fluminense num nome, num time ou num ano é francamente impossível. Basta mergulhar em nossos alfarrábios e logo vêm os mais psicodélicos sonhos, as liras do delírio, as imagens fantásticas que cada um dos irmãos de arquibancada viveu nos degraus mágicos de Álvaro Chaves, o velho e querido Maracanã, mais trocentos estádios mundo afora. Quem se lembra das tábuas de madeira da rua Xavier Curado ou do Raulino de Oliveira?

O pó de arroz é nossa nuvem de fascínio e constatação de vida: ela mal ganha o ar ao entrar do time em campo e cada um olha para seu próprio passado. Os deuses eternos e efêmeros, as conquistas que só tinham a nossa crença, as vitórias de além-mar. O pó de arroz de Careca. Os gritos de Seu Armando e Tia Helena. João Carlos com sorriso contido puxando o Luizinho pela mão até a Young Flu. Força, garra, jovem.

Todos os nossos pensamentos viram de alguma forma o gol de Barthô nos 3 a 2 de 1912 ou o grande empate em 2 a 2 na Lagoa em 1941.

Escrever sobre o aniversário do Fluminense exigiria um livro inteiro.

Em breves linhas, tentei falar do amor que me enternece há 40 anos. E sou um calouro diante dos 113 anos que são tatuagem em milhões de corações brasileiros.

Para finalizar, recordo quatro nomes essenciais quando se quer falar da fidalguia, humildade, dedicação e perseverança tricolores: o querido roupeiro Ximbica, o grande volante Marcão, o inesquecível super-herói dos gols, Ézio, mais o indefectível Rubens Galaxe, pau para toda obra. Quem tem a humildade escrita na história não há de se desmembrar da eternidade.

O Fluminense está coberto de amores.

Ontem, hoje, sempre, a cada aniversário.

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Neste aniversário do Tricolor, um grande abraço para meu amigo Caio Cabral, filho da querida Isabela. Caio estava chateado no domingo passado por causa da derrota do Flu no Maracanã. Ao vê-lo, lembrei que um dia eu também fui um garoto triste numa derrota. E disse a ele que o que importa é o próximo jogo, a próxima partida, a próxima inebriante entrada do Fluminense em campo. O passado é uma lição. Esta camisa de três cores imortais revela o eterno presente em que vivemos. Um dia, todos entenderão que o Tricolor é muito, mas muito, mas muito maior do que qualquer um de seus detratores e malfeitores, muito maior do que a vaidade, a empáfia e também outros defeitos que, claro, não podem atingir as Laranjeiras porque ali nasceu a vida das nossas vidas: essa paixão incontrolável chamada futebol.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: eaguiar

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9 Comments

  1. Irretocável, Andel. Com a sabedoria que lhe é peculiar, soube tecer verdadeiros versos sobre a pluralidade cultural que representa o Fluminense, gigante máximo do futebol mundial.

  2. Vc Paulo soube expressar sabiamente o sentimento de cada um de nós tricolores,meus parabéns.

  3. Valeu, Paulo! O Fluminense é gigante e eterno.

    Time de grandes tradições, de histórias fantásticas e de identidade única. Somos diferentes de todos porque nós somos tricolores, das Laranjeiras.

    Saudações Tricolores!

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