Fluminense, 115 anos: feliz aniversário! (por Paulo-Roberto Andel)

Parafraseando um dos nossos maiores orgulhos, Gilberto Gil, o Fluminense vive do que tece. E assim tem sido nestes 115 anos, num país onde as pessoas mal se lembram do que aconteceu nas últimas cinco ou dez primaveras, belas ou sombrias. 

E o Fluminense, tal como uma aranha sagaz, ao tecer pacientemente sua gloriosa história, tem sido protagonista do esporte que praticamente inventou no Brasil. Se não foi o primeiro time do football nacional, foi o bandeirante, o desbravador, o escalador. A ele devemos a gênese de uma paixão infinita que se espalhou pelo país continental. O Fluminense inventou o clássico, o campeonato carioca, a torcida, o jogador gallant, o ídolo, a Seleção Brasileira, a excelência olímpica e a dramaturgia no futebol: “só” isso já teria assegurado o lugar do Tricolor no pantheon da eternidade. Mas foi e vai muito além disso. 

Com 50 anos de vida, já tinha desafiado todos os paradigmas e conquistado o mundo, mas nem pensou em se aposentar. Havia um Maracanã a ser colonizado, um Brasil a ser cativado, muitas vitórias a serem alcançadas e também a superação de obstáculos que talvez fossem intransponíveis para outros coirmãos. 

Pense em Castilho, Píndaro e Pinheiro, em Didi, em Jair Marinho e Altair. Muito antes deles, Marcos Carneiro de Mendonça, Welfare, Romeu, Pedro Amorim, Preguinho, Mano. Depois, Samarone, Lula, Mickey, Félix, Silveira, Marco Antônio. E a Máquina, cujo nome simboliza a mais emblemática, admirada e vista equipe que já vestiu a camisa do clube, uma orquestra sinfônica do futebol? Contudo, ela não foi a primeira: tivemos as de 1917-19 e a demolidora do fim dos anos 1930. E outra viria, nos anos 1980, mais outros times maravilhosos. Ah, Assis! Ah, Renato!

Quando falhamos, houve quem quisesse o nosso sangue no asfalto e o nosso corpo linchado. Não precisamos ter nenhuma vergonha de momentos esportivamente ruins. Vergonha não é cair, mas pagar para não fazê-lo. Ficar nove anos sem titulos, lutando, sendo prejudicado em finais, não é motivo de vergonha alguma. Não devemos nada a ninguém, exceto financeiramente. Logo, pagar o quê?

Uma pergunta sincera: que outro time do futebol brasileiro sobreviveu a dois linchamentos promovidos por quase toda a imprensa esportiva do Brasil 24 horas por dia, durante meses? Nenhum. O mesmo Fluminense odiado em redações e estúdios é o mesmo que, desacreditado, saiu de modesto participante para campeão da Copa do Brasil, vice-campeão da Copa Libertadores e tetracampeão brasileiro, e o mesmo que desafiou milhões de incrédulos nos anos de 2008 e 2009. O velho pioneiro que marcou seu nome no berço natal da Primeira Liga em 2016. 

O Fluminense das artes, que lá atrás impulsionou a carreira de ninguém menos do que Pixinguinha, inundou o teatro maravilhoso de Nelson Rodrigues e, em campo, ofereceu arte nos pés de Telê, de Deley, de Deco, dentre muitos nomes. Os gols furiosos de Welfare foram sucedidos dignamente por Russo, Orlando Pingo de Ouro, Waldo, Washington, Ézio, Magno Alves, Fred, e agora prometem mais na humildade esforçada de Henrique Dourado. Marcos Carneiro de Mendonça, Batatais, Castilho – sempre!, Félix, Paulo Victor, heróis da meta. 

Não é possível resumir 115 anos numa página, nem num livro. Os gols vão continuar, novos títulos são uma certeza, as dificuldades serão superadas pelo caminho. O Fluminense é um rio interminável num solo de David Gilmour. Agora, se me perguntassem o motivo pelo qual continuo apaixonado pelo Fluminense depois de 40 anos de arquibancadas, o que eu poderia dizer? Simples: embora ainda espere muitas, mas muitas coisas boas para o meu time nessa longa jornada rumo à eternidade – e elas virão aos montes -, eu não vou mais aos jogos ou os vejo na TV exclusivamente por causa do gol, da vitória, da festa ou de uma grande jogada. O que me faz sentir tricolor é a sensação de, a casa quarta e domingo, contar as horas para rever o primeiro amor, o grande amor – e aqui, parafraseando outro orgulho nosso, Chico Buarque, concluo: é desconcertante rever o Fluminense. 

Nós somos Cartola, Hermeto Pascoal, Belchior, Noca da Portela, João Donato. Nós somos Renato Russo, João Barone, Paulo Ricardo, Fausto Fawcett, Dado Villa-Lobos e Toni Platão. Nós somos Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Bibi Ferreira. Nós somos Maria Bethânia, Ivan Lins, Fagner. Nós somos Paulo Cézar Saraceni: uma ideia na cabeça, uma câmera na mão. Nós somos o cinema, o drama, a glória, a força avassaladora da natureza, a paixão, o triunfo. Nós somos a sétima arte. 

Feliz aniversário para todos os tricolores, nos quatro cantos do Brasil. O Fluminense vive do que tece. 

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel 

Imagem: rap/curvelo

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