Feliz 1984! (por Rafael Rigaud)

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Caros amigos, retorno ao nosso Panorama Tricolor em 2014 e reinicio os trabalhos novamente decidido a continuar fazendo o link entre Fluminense e Sociologia. Infelizmente, o momento se tornou mais propício do que eu jamais poderia imaginar para tal em virtude de todas as injustiças e ataques aos quais estamos sendo submetidos.

Não sei se os tricolores assíduos ao nosso site estão lembrados, mas aqui nessa mesma coluna falei sobre as identidades de pessoas, grupos, países e de como que elas são construídas e reconstruídas através dos tempos e de como a nossa identidade tricolor também foi construída e reconstruída recentemente, passamos do time que ganhava taças fazendo o “mínimo do mínimo” e por isso era chamado de “timinho” (o precursor do jogo “com regulamento debaixo do braço”) ao time que ganha e é campeão sem grandes sobressaltos sendo “o time blasé nariz em pé” aos olhos dos adversários e disso ao visceral e caloroso “time de guerreiros” que joga com vibração, espírito de luta e de entrega incondicional.

A grande questão, no meu entender, é que a mudança é válida e salutar quando é auto-atribuída, ou seja, quando parte do próprio sujeito a mudança de sua identidade a partir da alteração de determinados aspectos seus perante os outros e (principalmente) perante si próprio. A adoção do apelido “porco” no Palmeiras e da alcunha “urubu” no Flamengo, a recepção do pó-de-arroz por parte dos tricolores, a adoção do apelido “carbonero” pelo Peñarol (que foi fundado por funcionários da rede ferroviária do Uruguai – por isso as cores são amarelo e preto, cores da sinalização ferroviária – e, como estes se sujavam de carvão ao trabalhar, os outros os chamavam de “carboneros” – carvoeiros – como ofensa e eles adotaram pra si a alcunha), e por aí vai. No nosso caso atual, entendo que está acontecendo a forma mais maléfica e perigosa de reconstrução da imagem: quando esta parte de fora pra dentro e é feita por terceiros.

Estamos sendo sistematicamente achincalhados e atingidos por todos os lados de todas as formas e por algo que nunca fizemos (nosso histórico mostra que fomos, sim, beneficiados com terceiros por decisões extra-campo em algumas ocasiões, mas mostra também que jamais fomos partícipes de nenhuma falcatrua, diferente de alguns que, de forma oportunista, apontam o dedo pra nós e nos acusam de “tapetão”, ”virada de mesa”, golpe e afins). Nossa imagem corre o risco de ser determinada por outros que não nós mesmos e diante da força da máquina de informação que está alterando a percepção sobre nós e nossa imagem perante a opinião pública, temo seriamente pela forma que vamos ser encarados daqui pra frente.

Independente de qual seja o desempenho do Flu na temporada que se inicia, o estrago já está feito; joguemos nós a série A, a série B, a série Z, nosso nome já está associado a coisas e valores absolutamente negativos e cada vez está mais e mais difícil provar o contrário. Discutir e expor os fatos como eles são está se tornando tarefa cansativa, estressante, infrutífera e até mesmo perigosa (nunca se sabe quando alguém vai se sentir no direito – baseado sabe-se lá em quê – de nos agredir com palavras e/ou com ações por entender que estamos defendendo o indefensável e que, por isso, merecemos uma resposta à altura). Resta saber o quão grande é esse estrago e por quanto tempo ele vai nos prejudicar. Essa resposta só o tempo e o desenrolar dos fatos vai dizer (uma reviravolta com uma eventual revelação de fatos hoje escondidos poderia mudar tal conjuntura, por exemplo).

Num dos inúmeros momentos de indignação com tudo que estão fazendo deliberadamente contra nosso Fluzão, troquei figurinhas com o Paulo-Roberto Andel e ao reverberamos a insatisfação com tudo que estava acontecendo (e que gerou o ato de repúdio realizado diante da nossa sede, na Álvaro Chaves), chegamos à conclusão que de hoje está se passando algo muito próximo do que previu o grande escritor George Orwell em sua obra-prima “1984” (ao menos, escolheu pra título um ano em que fomos campeões). Orwell, num exercício de futurologia surpreendentemente certeiro, descreve um mundo onde a opinião dos cidadãos é guiada por forças autoritárias que escrevem, reescrevem e manipulam a história de acordo com sua conveniência chegando até a reescrever fatos passados de forma retroativa. Esse ato tem como objetivo fazer parecer que aqueles que detêm o monopólio da informação estão sempre corretos e que quem se opõe a eles ou se posiciona de forma diferente está invariavelmente equivocado.

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A sofisticação é tanta que Orwell descreve, na sua ficção, a existência de um “Ministério da Verdade”, que é um órgão que é responsável pela informação pública do governo e que, naturalmente, mais constrói uma suposta verdade do que realmente a revela. Há também um fato curioso no livro: todos são diariamente conclamados a difamar por dois minutos um determinado personagem por ele ser considerado traidor e foragido e todos o fazem sem discutir, durante dois minutos, sem nem saber por que razão, os cidadãos “bem-informados “(SIC) pelo “Ministério da Verdade” xingam histérica e histrionicamente uma pessoa que não sabem quem é por causa de um motivo que também desconhecem. Pensar e refletir não se faz importante, repetir já é mais do que suficiente.

Fiquei profundamente espantado ao relacionar a ficção com a realidade e enxergar que muito do que deveria ser algo risível e pra não se levar a sério está muito menos distante do nosso atual momento do que era pra ser. Indivíduos amparados por aparatos de mídia (sim, jogam nas onze, com TV, blog/site, rádio, mídia impressa, são onipresentes em nosso dia-a-dia) sem qualquer “compromisso com a realidade” e com a “apuração dos fatos” e “posicionamento imparcial” (pseudo-pilares do jornalismo esportivo nacional) ensinam aos incautos o que querem, do jeito que querem e doutrinam os que os seguem apontando o que pensar, o que querer, e quem amar e odiar. Ah,ensinam também a quem xingar. E por muito mais que dois minutos.

Sei que muitos devem ter estranhado o título e a foto incluída no post de hoje. Juro que tentei aproveitar a coluna para desejar a todos nós, tricolores, um “Feliz 2014”,mas confesso que não consegui, achei mais justo desejar um “Feliz 1984”.

Rafael Rigaud

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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PAGAR FINAL

2 Comments

  1. É de se lamentar, mas a imprensa a muito já age dessa forma, basta buscarmos na história que foram raros os momentos onde ela agiu como deveria agir, digo agiu da forma que nasceu. A tempos a imprensa não faz o que dela é dever, informar de forma clara e sem posição favorável a qualquer grupo. Hoje são atendidos apenas os interesses comerciais da mesma, entendo que ela é uma instituição privada e visa o lucro, mas olhar para o lucro somente e ignorando a sua própria ética é no minimo vergonhoso.

  2. Boa Rafael!!!

    Muito bom o texto, precisamos trabalhar mais esse lado no Flu, da defesa institucional.

    Abcs!

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