Nelson, perdoa-me por te falar (por Marcus Vinicius Caldeira)

Aqui, na China ou em Tegucigalpa, ninguém precisa enumerar as quase infinitas qualidades do genial tricolor Nelson Rodrigues. Uma delas já nos bastaria: foi o maior tricolor de todos os tempos. Dramaturgo, teatrólogo, romancista, cronista, jornalista, entre outro ofícios, tudo em Nelson era feito com uma grandeza espetacular, uma inteligência ímpar, um humor requintado e muita paixão.

Foi sempre um crítico da sordidez e da hipocrisia de nossa sociedade. Indomável, o excesso sempre esteve presente em suas obras. Era melodramaticamente exagerado. Tanto que até hoje há os que amam e os que odeiam. Mas, até os que odeiam têm de sucumbir à genialidade de Nelson Rodrigues.

“Ao idiota, não basta a discrição e o anonimato: é preciso desfraldar a sua bandeira na arquibancada lotada da estupidez. O verdadeiro idiota precisa da notoriedade. Você sabe com quem está falando?”

Politicamente conservador e reacionário, conviveu com muito amor com seu filho Nelsinho Rodrigues, tendo um posicionamento político diferente ao seu. Acirradamente anticomunista, teve de tirar seu filho da cadeia levado pela ditadura militar que Nelson tanto apoiou.

Nelsinho contou à imprensa que quando foi foi preso, seu pai avisara os militares: “Olha, o Nelsinho tem o peito afundado.” Que tentou “de tudo o que é jeito” intervir e logo que o deixaram foi ver Nelsinho. “Me perguntou: ‘Você foi torturado?’ Eu disse: ‘Barbaramente.’ A cara do velho. Aí caiu a ficha. A partir do momento em que soube, não deixou de escrever a favor da ditadura, não podia ‘chutar o balde’, até para me proteger, mas mudou em ênfase.”

Nelson Rodrigues era absolutamente genial.

“Ah, o pústula, este ser diferenciado, especialista em ciências da hipocrisia e prepotências sem viço. Por exemplo, um vagabundo profissional, que sempre se escorou nas posses familiares, sempre verá nos outros os vícios que carrega em si. O pústula carrega o DNA da hipocrisia, ela é o sangue que corre em suas veias funestas e em seu olhar perdido, derrotado”.

Pois bem. Este final de semana fomos surpreendidos com um dos seus netos, “o ilustre desconhecido”, exceto para uma “meia dúzia de três ou quatro”, Mario Vitor Rodrigues (que tive o desprazer de frequentar a mesma escola que ele, onde o dito cujo tinha a alcunha de “Feio”, o que deve ter ferido de morte a sua alma) escrever (muito mal e porcamente, como diria minha mãe) uma coluna para a revista (ou panfleto da direita fascistoide brasileira) com o título “Lula deve morrer”, que começa da seguinte forma:

“Pelo bem do País, Lula deve morrer. Eis uma verdade incontestável. Digo, se Luiz Inácio ainda é encarado por boa parte da sociedade como o prócer a ser seguido, se continua sendo capaz de liderar pesquisas e inspirar militantes Brasil afora, então Lula precisa morrer”.

E depois tergiversa no texto, até bostejar que não queria dizer nada disso, que os leitores não entenderam nada e blá, blá, blá… Balela, hipocrisia e frouxidão. Deveria no mínimo ter hombridade para assumir seus atos.

E por favor, esqueçam se é o Lula, Aécio, o Trump ou Putin. Quando uma revista e um colunista pregam a morte de uma liderança política, quer goste-se ou não, e isso fica impune, é porque estamos à beira da barbárie e que a onda nazifascistoide avança.

“Todo fascista é o exercício de seus próprios recalques. Pode ser a escassez de dinheiro, a incapacidade da vida sexual, a feiura física que lhe dói e entorpece à primeira vista no espelho. A solidão que desnuda a infelicidade. O fascista, acima de tudo, é a maior testemunha da própria mediocridade. É virgem da alma, sem força para a chamada primeira vez”.

O texto é ruim; o discurso é pobre; a prática, pior ainda.

Como disse o amigo Rubem Gonzalez: “O Nelson Rodrigues era fenomenal, fama de reacionário, por ser um cara moralista ao extremo no particular mas um libertino nas letras. Ouso dizer que esse neto dele é um dos primeiros bebês de proveta do planeta e talvez o primeiro fecundado só com material genético; no caso foi usada a merda, fruto de uma diarreia do grande Nelson: se fosse fruto de merda comum do dia-a-dia, ele jamais seria ruim do jeito que é”.

Por aí.

Acredito que o neto do homem, no auge da sua mediocridade, que é ainda maior por carregar o DNA de um gênio (tipo neto de peixe, peixinho não é), sem conseguir produzir nada decente como escritor – seus livros são uma bosta – e como publicitário, talvez quisesse ter dado sua cartada final rumo aos holofotes.

Talvez. Ou talvez tenha recebido vantagens para tal. Vá saber.

“Você pode carregar um sobrenome, um brasão, uma tradição familiar, mas se não tiver talento, sua desimportância no álbum de família será a mesma do castiçal num canto de uma velha fotografia. Um objeto do figurino, e é só.”

A verdade é que o tiro saiu pela culatra. Passou de um imbecil desconhecido para um débil mental que conseguiu colocar sua imbecilidade à vista, comprovando a visão de futuro de Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. Seu mau herdeiro tenta seguir essa frase à risca.

Nelson, perdoa-me por te falar: este seu neto é medíocre.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @mvinicaldeira

Imagem: mvc

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