Estamos em período eleitoral? (por Zeh Augusto Catalano)

Voltei, depois de um longo e tenebroso inverno.

Nos aproximamos do meio do Campeonato Brasileiro e o que vejo é um técnico dedicado, consciente do grupo que tem em mãos, comandando uma reformulação – forçada! – durante uma competição em andamento. O Fluminense é mais um dentre cerca de 15 times que oscilam pelo meio e o topo da tabela. Os maiores reforços do elenco já estavam nele. Henrique Dourado e Henrique são gratas surpresas. Scarpa ainda não conseguiu voltar às suas atuações de antes da grave contusão que teve. Talvez graças a isso não tenha ido embora na maldita janela de transferências.

Na Copa Sul-Americana, o Fluminense pegou uma improvável moleza. Mas a próxima fase deve mexer com sentimentos e memórias insepultas. O adversário será Bolivar, da Bolívia, que venceu o primeiro jogo em casa por magro 1 a 0, ou a eterna adversária LDU. A definição ocorre na quarta que vem, dia 2/8, em Quito. É quase impossível acreditar que o foco será o mesmo se o adversário for o time boliviano. Sendo, como se espera, a LDU, vêm ai dias tensos, com a imprensa dando o costumeiro foco negativo a dias de glória.

Lá pros lados de São Januário, o clima eleitoral ferve com a aproximação das eleições, no final do ano. Mas por que dizer isso? Porque aparentemente o clima eleitoral não acabou pelos lados das Laranjeiras. Muitas das cobranças que vejo acontecerem não são críticas construtivas, não visam o bem do clube e do time. São dedos eleitoreiros apontados, são arrivistas que não se conformaram com não terem conseguido suas boquinhas para mamar nas tetas do clube. Infelizmente somos todos iguais. Com uma nuancezinha ou outra, troca-se as camisas e os escudos, atravessa-se (ou não) o túnel e as mesmas figuras estão todas lá.

Lançamos esse site, Andel, eu e outros fanáticos por futebol, em 2012. Vejo em todos eles e em mim uma saudade do futebol como diversão, na torcida como uma reunião de pessoas torcendo juntas pela mesma coisa, por um mesmo fim. Cada vez mais é claro que isso se tornou uma utopia no meio dos milhões de reais que giram em qualquer clube de futebol. Mas isso não significa que devamos perder essa paixão, esse brilho e dobrar os joelhos ao dinheiro, ao poder e à inveja. O futebol, o Fluminense, o Vasco, só voltarão a ser o que eram no coração dos torcedores se conseguirem, de alguma forma, resgatar algo da pureza que foi se perdendo nessas últimas décadas.

Ingênuo? Pode ser. Acho que tenho um exemplo que ilustra bem o que quero dizer.

Estou de saco cheio da ditadura do sócio torcedor. Escrevi sobre isso há algumas semanas no Panorama Vascaíno e posso dizer que a metade das pessoas não conseguiu entender o que eu quis dizer. Vai aqui outra tentativa:

Acho muito louvável que você queira se associar ao seu clube de coração e o faça para ajudar financeiramente a instituição. Para que com aquele dinheiro se comprem e paguem jogadores, se melhore a infraestrutura física da associação e por ai vai. Mas acho um completo desrespeito e me enfureço quando vejo discussões nas quais se use como argumento a pergunta: “Mas você é sócio?” como se o não-sócio fosse uma espécie de segunda classe, uma plebe que não pode dar palpite no que se passa no seu clube de coração porque não paga uma mensalidade.

Estamos vivendo a pior crise da história desse país, com milhões de pessoas desempregadas e passando fome. Não há horizonte para essa crise. Para muitos de nós, cem pratas por mês não é nada. Para outros, é uma fortuna que infelizmente não pode ser gasta com o clube de futebol. E isso não diminui em nada o amor dessa pessoa pelo clube. Muito pelo contrário, num momento desses, de recessão, de dificuldades, talvez uma das únicas diversões autênticas que esse torcedor tenha na vida seja ver seu time jogar. Xingá-lo e protestar contra aquilo que acha errado. Pagar um boleto não torna um melhor do que o outro.

“Não é sócio? Então tem mais é que se foder!”. Foi isso que um cidadão vascaíno respondeu ao meu texto quando eu falei que o clube precisava respeitar e cuidar do seu torcedor independente de ser sócio ou não, de sua classe social ou não. O Fluminense é a paixão dele. Ele quer torcer. Assistir aos jogos no estádio. Ele tem esse direito.

Então, enquanto nossos clubes não forem como o Boston Red Sox, por exemplo, que vende todos os carnês de ingressos para a temporada inteira antes de ela começar, é melhor que nós, torcedores, e as entidades, clubes e suas diretorias, voltem a tratar bem do torcedor. Ele é um potencial consumidor.

Como se faz pra ir a um jogo do Boston? Você, dono de um carnê, libera para venda os assentos nos dias em que não estará presente. Você ganha um caraminguá, o clube outro. O torcedor que ocupa sua cadeira paga por isso e consegue assistir seu jogo feliz. Enquanto isso, nossos estádios seguem às moscas – com horários tenebrosos, violência, jogos longe demais etc – mas certamente um dos fatores de diminuição de público está no inacreditável retrocesso na venda de ingressos. Em 1980, 100 mil pessoas compravam ingresso numa tarde e entravam no estádio. Confusões aconteciam, mas eram raras. Hoje, um público de 20 mil pessoas é suficiente para um pequeno caos.

O que nos levou a isso? Será que é ser ingênuo desejar que esses problemas sejam resolvidos a contento? Será que é sonho comprar um ingresso na internet e entrar no estádio sem ter de encarar duas filas? Você que é sócio acha que isso lhe deveria dar o direito de ter esse conforto e o torcedor comum que se lixe?

Fica a reflexão.

Existem outros assuntos, mas eles ficarão para o próximo.

É bom estar de volta.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: zac

2 Comments

  1. Sabem qual o grupo político do Fluminense que criou essa cultura de transformar o torcedor comum em “cidadão de segunda classe”?

    Pois é… O nome do grupo já é uma pista…

  2. Prezado Catalano,

    Grande prazer reencontra-lo nesta Casa.

    Apesr de todos os pesares, platinados, e dos tempos temerosos, lutemos por nossas paixoes – abaixo a assepsia e viva a utopia!

    Abracos fraternos

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