Sem medo nem esperança (por Paulo-Roberto Andel)

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Estava voltando de um passeio pelo Porto – é maravilhoso ver os armazéns pintados de grená e dourado – quando encontrei o Adaury na Renner da Sete de Setembro – as respectivas esposas espiavam a loja. Era a primeira vez que nos víamos pessoalmente. Em tempos de ódio entre tricolores, ele foi de uma generosidade enorme falando a meu respeito, o que é gratificante demais.

Sabe o cara educado, ponderado, gente boa? Pois é: o paradigma do torcedor tricolor em tempos idos. Renovou minha energia neste fim de um ano tão ruim para muitos e também para o Fluzão. Trocamos abraços, votos de feliz 2018 mas lembrei do que ouvi a maravilhosa Gal cantar outro dia: “Sem medo nem esperança”, versos que traduzem exatamente o que tenho sentido hoje, a respeito de um Fluminense apagado, sem viço, sem ambição e cada vez mais cercado por uma ilha de ódio por causa dessa politicagem de merda.

Sem medo nem esperança, torço para que a simpatia do Adaury seja a tônica, em vez da cólera oportunista – não confundi-la com a raiva justa de muitos tricolores pela péssima campanha de 2017 e pelas nuvens carregadas que já cercam 2018.

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Às vezes, o jeito de fazer é pior do que o fato em si.

Ok, dinheiro é problema, mas por que a saída de quem marcou seu nome na história do clube precisa sempre ser algo tenso, mal resolvido, insípido?

Frangando, Cavalieri era disparado o melhor goleiro do clube. Demorou muito a voltar. Custa caro, bem caro, mas jamais poderia sair neste clima de porta dos fundos, para não dizer coisa pior.

Mais uma vez – e isso é uma longa história, de décadas – o Flu não oferece apreço a quem lhe defendeu com glória. Foi assim com Rivellino, Edinho, Assis, Romerito, Deco, Fred, Cavalieri e outros trocentos jogadores.

Não deveria ser assim. Nunca.

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Ou retomamos a essência tricolor ou a coisa vai para o buraco de vez.

Isso vale para Abad, seu staff, Flusocio, Mario Bittencourt e seus seguidores, Celso Barros e seguidores, todos os grupos políticos, boa parte da torcida e essa meia dúzia de trouxas que espalha ódio travestido de opinião.

Ou retomamos a essência tricolor ou a coisa vai para o buraco de vez.

Ou o Fluminense é o da excelência e fidalguia ou é o da mediocridade disputada a tapa em likes e compartilhamentos.

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E não adianta depois pedir para o torcedor “fazer a sua parte”. Salvo os santos que aguentam tudo, o resto está com o saco muito cheio geral.

Quando o melhor lugar para se ver o Fluminense no Maracanã é na grade da Leste, ao lado da torcida adversária, é porque a coisa vai muito mal.

É melhor ouvir os rivais raiz, autênticos, do que os infiltrados na própria torcida.

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Antigamente, chamavam de “década perdida” o período compreendido entre 1986 e 1994, marcado por times baratos, guerreiros e sem títulos – quem comemora Taça Guanabara e Taça Rio é flamenguista.

Vivi aquele tempo intensamente e posso assegurar: nenhuma daquelas temporadas terminou como essa de 2017, nenhuma, em termos de indiferença.

É louvável o esforço do clube na recuperação do rombo financeiro à “Bittensem”, é inegável. Mas o Fluminense não é uma empresa: tem alma, amor, brio, desejo. Paixão não é balanço contábil, por mais que este seja importante.

No final deste 2017, perigando com a sétima luta contra o rebaixamento em 17 anos, a torcida mal completou 15 mil torcedores nos jogos decisivos.

O saco cheio prevalece.

As perspectivas para o time são assustadoras por ora.

A internet tricolor é um mar de ódio que afugenta a maioria boa em detrimento de oportunistas sem currículo, ávidos por uma boquinha.

A direção mantém seu silêncio quase soviético, não se comunica com o torcedor e, pela omissão, colabora com a proliferação de fake news e orelhadas.

Um clube cheio de bilionários não consegue trabalhar politicamente para a presença de um grande patrocinador.

Os líderes das arquibancadas são desprezados em nome de uma “New Order” idiota e pueril, para se viver num Maracanã que não é sombra do que já se viu. Mosaico é melhor do que pó de arroz, cumbia é melhor do que samba…

A coisa anda tão feia que nem a Flapress se incomoda conosco. Ela já percebeu que alguns tricolores já fazem o papel dela com “louvor” (trash).

Dia 29 de dezembro de 2017. Tomara que eu quebre a cara já, mas o ano que se avizinha não me tira da cabeça os versos de Caetano Veloso na voz da inigualável Gal Costa: “Sem medo nem esperança”.

Quero quebrar a cara, pelamordedeus!

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Há uma única boa notícia, que não é de jogador, mas que é de fazer chorar se confirmada. No momento certo, falo.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

Imagem: rap

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