Se não é a espanholização, é algo igualmente mal intencionado (por Marcelo Savioli)

Amigos, amigas, dia desses estava revendo alguns debates da mídia tradicional sobre espanholização do futebol brasileiro, sempre lembrando que está em curso, desde, se não me engano, 2016, um projeto de desesepanholização do futebol espanhol. Lembrando, ainda, que a espanholização do futebol espanhol só foi possível com a intervenção da TV, desequilibrando as cotas de televisão.

Parece que por lá o objetivo era ter dois clubes espanhóis, Real e Barça, capazes de confrontar as maiores potências europeias. Em compensação, os outros clubes entraram num degradante círculo vicioso de se endividar para competir no campeonato nacional e não morrer enquanto marca futebolística. Afinal, não tem graça nenhuma torcer para um time que aparece na TV mundialmente como saco de pancada de Messi e Cia.

O objetivo da Globo é muito simples. Desde sempre, tentou vender o Flamengo como um mito. Antes, era o time do povo, o redentor dos pobres e oprimidos, o único motivo de alegria na vida dessa gente sofrida. Se os mais novos estão pensando que é brincadeira ou exagero, perguntem aos mais velhos. Foi-se o tempo em que as torcidas dividiam o Maracanã com a molambada. Foi tanta propaganda, que as outras torcidas minguaram, mesmo quando ganhavam títulos, e a deles cresceu.

Essa torcida, que a própria mídia produziu, serviu de argumento raso para a tentativa de criar uma nova hierarquia no futebol brasileiro, que teria Flamengo e Corinthians como grandes protagonistas. Eles dizem que o atual momento do Flamengo é fruto de uma gestão maravilhosa, com o que eu não descordo de todo, só 99%. A gestão financeira de Bandeira de Mello foi a cereja do bolo. Quem salvou o Flamengo da falência e o colocou como maior potência econômica foi o dinheiro da Globo, somado ao dinheiro público da Caixa Econômica.

Eu comecei a denunciar a manobra já em 2012, mas muita gente dava de ombros, dizia que eu estava vendo fantasmas onde não existe. Hoje, sete anos depois, são várias as provas concretas e irrefutáveis de que se não temos uma espanholização, temos algo parecido e igualmente mal intencionado. É só atentar para o fato de que nos últimos quatro anos tivemos uma dobradinha entre Palmeiras e Corinthians. O Corinthians foi campeão em 2015 e 2017, o Palmeiras em 2016 e 2018. Ah, mas não era para ser Flamengo e Corinthians? Sim, era, mas está só começando e ninguém contava que o Palmeiras fosse conseguir um patrocinador de 100 milhões por ano, fora o espetacular projeto que alinhou arena e sócio torcedor. O Palmeiras será capaz de continuar protagonista até com a metade da atual verba de patrocínio. Mesmo assim, é só olhar para a tabela dos últimos três anos e o Flamengo está sempre nas primeiras colocações. Diz a lei da bola que de tanto chutar uma hora a bola entra.

Então, dizem meus fanáticos comentaristas, mesmo contra os fatos, que não há espanholização no Brasil. É quase uma conclusão unânime. Talvez devessem começar a estudar o fato de o Corinthians, ao longo do ano de 2018, ter ido buscar três reforços no elenco do Fluminense. Isso só é possível graças à diferença econômica produzida entre os clubes, embora a crise financeira do Fluminense também tenha contribuído para isso.

A questão é que isso tende a se aprofundar. Os clubes desfavorecidos pela dindinha não vão aceitar ficar para trás. É só ver a corrida por reforços esse ano. Afinal, já em 2020, as receitas da TV aberta serão divididas levando em conta alguns critérios meritocráticos, dentre os quais a colocação no Campeonato Brasileiro. O problema é que essa corrida por reforços tende a endividar esses clubes tradicionais, como aconteceu com o Fluminense, no pós-Unimed, que passou a fazer investimentos fora de sua realidade e saiu de uma boa posição financeira para uma das cinco maiores dívidas do Brasil.

Como estamos no Brasil, vai ter gente fazendo de tudo. Vai ter clube se profissionalizando para ser competitivo, vai ter gente gastando o que não tem para tentar ganhar campeonatos e não depreciar a marca, como vem fazendo o Cruzeiro, e outros que vão tentar se enganar, como o Grêmio, que tem um match day rentável e achou um estilo de jogo superior. Dizem os analistas que o Grêmio é uma das cinco grandes forças do futebol brasileiro. Não é uma força, mas um acidente de percurso, porque o Corinthians tem uma dívida pelo Itaquerão que engole todas as suas receitas com bilheteria e o Flamengo planeja mal a sua temporada, porque já até andou jogando o melhor futebol do Brasil em determinado momento de 2018. Que continuem assim.

A verdade, no entanto, é que teremos o abismo se aprofundando cada vez mais. Isso já está acontecendo. É só ver o Palmeiras atropelando Inter e São Paulo na reta final como se fossem cavalos paraguaios. É só olhar para o elenco do Grêmio e veremos como a tendência é de que o clube gaúcho se afaste dos demais.

Vão tentar iludir a opinião pública de que é só uma questão de gestão. Trata-se de uma mentira deslavada. Se fosse só gestão, o Fluminense não teria sido campeão brasileiro duas vezes em 2010 e 2012. O Fluminense foi campeão porque tinha muito mais dinheiro que os demais. Se tivesse boa gestão, tinha sido tricampeão (2010-2011-2012), teria sido campeão da Libertadores e Mundial.

Se clubes como Fluminense, Vasco, Botafogo, Atlético MG, Cruzeiro, Internacional, Grêmio, Santos, Atlético PR, Bahia, Sport, Ceará, Fortaleza e até São Paulo querem sobreviver como marca futebolística, o único caminho é derrubar a Globo. A Globo criou um critério falacioso para beneficiar quem queria beneficiar. Pergunta lá nos Estados Unidos se alguém leva em consideração o tamanho da torcida na hora de dividir receitas de televisão. É tudo igual, tanto que parece que os direitos internacionais do Campeonato Brasileiro foram adquiridos por um grupo estadunidense e a divisão vai ser justa. O que determina o modelo é a intenção. Na Espanha era daquele jeito porque queriam ter duas potências europeias, na Premier League, foi o governo quem interveio e criou a atual divisão, que é meritocrática e, ao mesmo tempo, competitiva. Nos Estados Unidos, as ligas dividem tudo igual, porque eles querem imprevisibilidade. No Brasil, a divisão é o que é porque a Globo é flamenguista, porque tem um enorme ressentimento pelo Fluminense, porque o Flamengo nunca conseguiu ser sombra do que é o Prêmio Nobel do Esporte.

Não adianta erguer milhões de mitos para tentar explicar de forma diferente a realidade implacável. O que veremos até 2024 é o aprofundamento da desigualdade econômica e esportiva, salvo raras exceções, como esse ano, em que o Fluminense será campeão brasileiro. O problema é que a diferença é acumulativa. Se você ganha R$ 100 milhões a mais por ano, daqui a cinco anos terão sido R$ 500 milhões a mais, que serão usados em investimentos, que tornarão o privilegiado mais forte e o prejudicado mais endividado.

Não há saída individual. Ela tem que ser coletiva. Dois clubes não são mais forte que outros trinta e oito. A Globo só faz o que faz porque tem uma máquina de convencimento e porque as pessoas não estão acostumadas a raciocinar sobre as verdades processadas nos gabinetes que se escondem por trás das redações. Falta desconfiômetro na humanidade.

Saudações Tricolores e chega logo, sábado!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

6 Comments

  1. Parabéns pelo texto. A sua opinião é exatamente igual a minha. Essa “espanholizacao” é um projeto bem antigo . Percebemos na narração e nos comentários que acaba influenciando a opinião pública e até a arbitragem num lance supostamente duvidoso. Concordo com tudo.

  2. Parabéns! Não é só você que enxerga isso. Eu também como Tricolor vejo isso a muito tempo, pois como a maioria dos Brasileiros, sou mais um zé ninguém que pode mudar algo. Sonho que um dia essa Globo saia de vez do Futebol com essas propagandas sobre os 2 times. Onde moro em Campos-RJ, a propaganda na TV aberta e Fechada dessa mesma emissora, só vive passando comerciais e falando desse mesmo clube. Aquele Mauro da Fox, a cada time que ele comenta na TV, no final de cada palavra ele tem que…

  3. Savioli, você não sabe a alegria que é abrir o panorama e ter texto teu!

    Já vão fazer anos que digo: obrigado!!

    ST

  4. Ah! Uma ideia: que tal um texto explicando a relação da Globo com o Flu e o Fla? Poderia desenhar a cronologia da relação desde Mario Filho e Nelson Rodrigues até a atual diretoria esportiva da Globo que é toda flamenguista, etc. Você deve conhecer histórias e tanto! abs

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