Dr. Otho, tricolor de corações (por Eric Costa)

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“E então, senhor, o que o trouxe até aqui?”

Poeticamente, um paciente responderia: “Tosse, tosse, tosse. A vida inteira que poderia ter sido e não foi”.

“Diga trinta e três”, disse o médico.

“Trinta e três”.

“O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo”, anunciaria o Doutor com seus já seus grisalhos cabelos.

“E então, doutor? É possível tentar o pneumotórax?”, diria, aflito, o enfermo.

A clássica cena do poema de Manuel Bandeira, caso ocorresse nas alas de algum hospital do Ceará lá pelos anos 60 ou 70, certamente não terminaria citando um tango argentino, como na obra.

“Para que time você torce? Não é flamenguista não, né?”, perguntaria Dr. Otho.

“Que rubro-negro o quê, doutor. Eu sou é tricolor.”, responderia o emagrecido paciente

“Bem”, finalizaria Dr. Otho. “Neste caso, as únicas coisas a fazer são tocar o hino tricolor ao violino e hastear nosso pavilhão a meio mastro”.

Não há nos livros de Medicina nenhum protocolo que nos peça para abordar os afazeres futebolísticos dos pacientes. Mas são justamente os grandes mestres aqueles capazes de, com sua sensibilidade, transpor a estática das engessadas diretrizes e exercer as artes médicas com o coração.

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Nos corredores do Hospital Universitário Walter Cantídio, da Universidade Federal do Ceará, habita Dr. Otho. O verbo “habitar” poucas vezes foi tão bem utilizado: ilustre tricolor, Dr. Otho tem em sua história 49 anos de docência dos quase 77 vividos. Nos últimos sete anos, vem ensinando por puro e simples amor à profissão, na mais bela acepção da palavra “fidalguia”, tão característica dos que pintam a alma de verde, branco e grená.

O amor pelo Fluminense é uma característica impossível de ser dissociada do simpático senhor de fala tranquila que conduz belíssimas discussões de caso com os médicos residentes e acadêmicos do Hospital. Não bastasse querer saber qual o time de cada paciente, basta haver um objeto com o escudo tricolor em um ambiente para que Dr. Otho abra um hiato de três segundos em suas tarefas e vá beijar o escudo tricolor, que, para todos e, especialmente para ele, sorri. Se nem a morte nos exime de nossos deveres futebolísticos, como já diria Nelson Rodrigues, que dizer de abdica-los no pequeno dia-a-dia? Não. Torcer deve ser exercido com obtusa pertinácia.

O Fluminense passou ser chamado como “Time de Guerreiros” em 2009.

Dr. Otho, porém, é uma prova viva de que esta alcunha nos pertence há muito mais tempo. Há tricolores cuja história de vida apenas grava ainda mais o rótulo de vigor nos batalhas que o Fluminense sempre possuiu.

Pois se o país passou a nos chamar de “guerreiros” por uma arrancada maravilhosa, demolidora da lógica, da razão e dos matemáticos, trazendo sete improváveis vitórias em sete difíceis jogos, que podemos dizer do simpático Doutor de cabelos grisalhos, que vive há sete décadas em uma inestimável arrancada pelo conhecimento, por transmiti-lo com didática e por cuidar do ser humano?

Este texto, meus amigos, pode não parecer ter uma função específica para muitos dos que o leem. Mas para mim há um propósito imenso: reconhecer. Dizer a todos que é possível.

Que é possível viver, acreditar no trabalho, na dedicação a ele e ser, assim, feliz.

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Que vale a pena entregar-se ao próximo sem deixar de ser quem é. E sem, muito menos, deixar de tremular em seu coração a bandeira tricolor e a sensibilidade de se emocionar a cada partida de seu clube do coração.

A você, Dr. Otho Leal Nogueira, a minha imensa admiração por sua dedicação, didática e história de vida e por ter sido escolhido pelo Fluminense como um de seus torcedores.

Se contassem a sua trajetória em um conto de Nelson Rodrigues, meu caro amigo, de tão bonita, pareceria inverossímil: talvez muitos nem acreditassem em tamanha beleza.

Muita paz, esperança e vigor na sua luta pela vida, que todos os dias exerce.

Saudações tricolores.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: eric

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