Dois anos de liberdade (por João Leonardo Medeiros)

ANDRÉ SANTOS LANCENET 07 12 2013

A programação de minha última coluna do ano de 2015 calhou de cair no dia 08 de dezembro, uma data muito conhecida de todos os tricolores. Trata-se do dia seguinte à partida entre Cruzeiro e Flamengo, pelo Brasileiro de 2013, ou, se preferirem, do dia da partida entre Portuguesa e Grêmio. O Fluminense também jogou aquele mesmo dia 08 de dezembro e todos os tricolores tiveram o dissabor de experimentar mais um rebaixamento, ao menos por algum tempo.

O que nós não sabíamos então, mas certamente toda a imprensa brasileira tinha conhecimento, é que o Flamengo havia decretado seu rebaixamento no dia 07 de dezembro ao escalar um jogador sem condições de jogo, o lateral-esquerdo André Santos. Também sabemos que a Portuguesa é ré confessa de ter vendido a escalação irregular do jogador Héverton, ainda estando sob inquérito o lado ativo da corrupção, embora a lógica e todos os indícios apontem para o Flamengo.

Para os tricolores, como disse, trata-se de um contexto inesquecível. Pela primeira vez na história, muitos dos nossos torcedores tiveram a verdadeira dimensão do clube. O Fluminense foi alvo de uma sórdida campanha difamatória promovida por figuraços da mídia esportiva brasileira, campanha essa que tornou, por alguns dias, perigoso trajar a camisa tricolor pelas ruas. Um torcedor quase foi agredido fisicamente, tendo sido desqualificado verbalmente diante de sua pequena filhota. Vejam o tom morno da matéria que “informa” esse caso estapafúrdio e outros:

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Digo que muitos tricolores sentiram pela primeira vez a verdadeira dimensão do clube por duas razões. Primeiro, porque ninguém orquestraria uma campanha difamatória tão absurda para desqualificar um clube sem qualquer expressão. Em outras duas ocasiões, o Fluminense foi alvo de uma injustíssima desqualificação pública, cujo propósito, como em 2013, era ocultar aqueles que haviam praticado um crime não apenas contra o futebol, mas também na esfera policial.

O que poderia ser mais conveniente, num ambiente sujo, do que a desqualificação de um clube que tinha e tem por regra a prática desportiva limpa e a fraternidade com os co-irmãos do esporte? O Fluminense já foi à terceira divisão, praticamente jogou seu nome na lama, mas nunca pegou bem no clube o emprego de práticas antidesportivas para benefício próprio. Em mais de 100 anos de história, há deslizes, que estão longe de constituir a regra. Certamente, tratava-se e trata-se de um mau exemplo no mafioso mundo da bola.

O segundo motivo da tomada de consciência da grandeza do clube foi a capacidade de reação da sua torcida diante da injustiça. Em 1996 e 2000 tínhamos vontade, mas faltavam as armas para lutar contra uma campanha difamatória que, ademais, contava com a criação midiática do conto de fadas chamado futebol brasileiro dos anos 1980 a 2000, a era dos nouveaux riches Flamengo, São Paulo, Corinthians e Vasco. Munidos de blogs, mídias sociais e emails, fizemos o que o clube não fez: lutamos para defender sua honra. Se hoje o Fluminense consegue opor os argumentos que tentaram, pela terceira vez, culpá-lo pela falta alheia, isso se deve à briosa reação de sua torcida.

Eu devo muito ao episódio. Foi por causa dele que fui parar aqui no Panorama. Foi por causa dele que cancelei minha assinatura de O Globo, embora já tivesse nojo de suas páginas políticas e esportivas faz tempo. Por causa dele, parei de me “informar” também no campo dos esportes com a mídia empresarial e passei a venerar meus novos ídolos, todos da mídia tricolor. Hoje só confio na mídia tricolor da qual, orgulhosamente, creio fazer parte. Os tricolores que conheço também se informam pelo Panorama, pelo Netflu, pelo Explosão Tricolor, pelo Observatório, pelo Blog da Flusócio, pelo Canal Fluminense e por aí vai. Seguimos nós Raul Seixas: “Eu não preciso ler jornais, Mentir sozinho eu sou capaz”.

Olhando por essa ótica, o episódio de 2013 foi uma redenção. Pafraseando agora Bob Marley, ali nós nos emancipamos da escravidão mental, ao menos no que se refere ao noticiário esportivo. Comemoremos hoje, portanto, nossa liberdade. Para celebrar, a história nos deu um presentaço. No último 02 de dezembro, o poderosíssimo Real Madrid da Espanha venceu o modesto Cádiz, da terceira divisão espanhola pela Copa del Rey. E daí? Daí que o Real escalou um jogador irregular, exatamente como o Flamengo (e a Portuguesa), o russo Denis Cheryshev. O mais interessante do episódio não é a punição com a eliminação da Copa del Rey mais aplicação de multa. O interessante é a reação da imprensa ao caso.

Aqui no Brasil, nossa mídia preguiçosa não fez mais do que reproduzir os textos divulgados pelas agências internacionais de notícia, de maneira que todas as matérias sobre o tema tiveram a cara burocrática de sumário executivo. Na Espanha mesmo, a mídia massacrou… o Real. Os jornais esportivos de Madri (Marca e As, por exemplo) ainda pegaram leve no início, mas a própria reação da torcida do Real, que passou a cobrar a renúncia do presidente do clube, os fez subir o tom. A mim chamou a atenção essa pesquisa no site do As:

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A pergunta da pesquisa é: o que foi mais ridícula, a eliminação do Real para o time da terceirona Alcorcón em 1979 (episódio conhecido como Alcorconazo) ou a eliminação para o Cádiz pela escalação irregular? Até onde acompanhei, quase 80% do público votou no episódio da eliminação pela escalação irregular contra o Cádiz.

A imprensa de Barcelona (Sport e Mundo Deportivo), por sua vez, foi impiedosa, divulgando todas as gozações com o Real e a sentença na qual o juiz desqualificava publicamente os argumentos do Real (todos semelhantes aos argumentos empregados na defesa da Portuguesa aqui):

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Enfim, a imprensa de lá agiu como imprensa, mesmo diante de um clube que tem infinitamente mais recursos financeiros que o Flamengo. Ela agiu como deve agir: deu publicidade aos fatos e adotou uma atitude crítica diante de uma situação absurda, inqualificável. Aqui, todos sabem o que aconteceu.

De minha parte, posso dizer aos senhores Antero Greco, Juca Kfouri, Renato Maurício Prado, Mauro Cézar Pereira, André Rizek, Ricardo Boechat, Márcio Guedes, entre outros tantos: não importa o que vocês pensam de si, eu (e creio que a maior parte dos tricolores) os julgo jornalistas desqualificados, sem um pingo de ética, imparcialidade ou lisura, capachos das grandes corporações que oligopolizam a comunicação no Brasil e de seus interesses. Não tenho como provar que são isso mesmo, mas ninguém pode me tirar o direito de julgá-los assim. Sou livre para isso.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: flapress

capa o fluminense que eu vivi para livraria

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3 Comments

  1. Sensacional. Também comecei a me informar melhor depois do episódio.
    ST

  2. Perfeito. Mas o que esperar de uma organização que chegou à liderança de audiência pelas mãos da ditadura militar?

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