Dobermann (por Rogério Skylab)

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Eu sinto Madame Bijou.

Não a compreendo porque não me foi dada a capacidade de compreender.

Encosto o focinho nas suas costas e adormeço.

Sonho com seu cheiro (é tudo que me cabe).

Posso senti-lo a léguas – é através dele que eu existo.

Cheiro, logo, existo.

Num canto do quarto, esparramado no chão, está o meu karma: o dobermann.

Tem os olhos fundos e impenetráveis.

Seu cheiro não me agrada. Faria tudo pra vê-lo longe.

Está amanhecendo.

Em breve, Madame Bijou vai acordar e tomar banho: são velhos hábitos.

Aproveito então esses últimos momentos e ficamos de conchinha. Madame Bijou é meu mundo.

Quando acorda, pisa no dobermann. Ambos se assustam e ela entra no banheiro.

Mantenho uma distância regular desse cachorro nazista. Não queiram ter um dobermann no seu pé. Desde que aqui chegou, me sinto espreitado.

Sobre a cama, olho pra baixo. Lá está ele.

Luto pelo espaço, mas ele vai se esparramando cada vez mais. Receio que em pouco tempo não terei mais lugar.

Ouço o barulho do chuveiro.

Novas pulgas a me picar.

Coço minhas orelhas. Ele também.

Madame Bijou está agora se enxugando.

Como vocês podem ver, vivo no presente. Acompanho seu movimento contínuo. Às vezes, ele acelera e vislumbro o futuro. Outras vezes, retarda, e vejo o passado.

O dobermann continua no meu pé.

Agora balanço o rabinho e rolo na cama de Madame Bijou. Sinto o cheiro do seu travesseiro. Daqui a pouco, ela vai sair do banheiro e vai me pedir para lambê-la.

Insistiram tanto que esse dobermann era dócil.

Faz tempos que moro aqui. Conheço todos os cantos da casa. Tenho minhas regalias. Sou tratado com carinho e me afeiçoei por minha dona. Só não entendo esse dobermann, olhando fixo nos meus córneos.

O sol entra pela fresta e deixa no quarto um tom dourado. Será isso o que os humanos chamam de eternidade?

Madame Bijou acaba de sair do banheiro e está completamente nua. O dobermann cheira suas pernas e ela o repele. Ele late.

Então, Madame Bijou deita de pernas abertas. A sua pele é dourada. Faz um sinal e pede que me aproxime. Estou já completamente acostumado ao ritual.

Passo a lamber suas pernas.

Ela se estremece de cócegas. O dobermann late e ameaça subir na cama, mas ela o afasta com os pés.

Passo minha língua por sua virilha. Depois esfrego para cima e para baixo e ela fecha os olhos. Há um silêncio, que é apenas interrompido pelo barulho da língua.

O dobermann permanece deitado ao chão, agora conformado.

Eu chupo como sempre. Não existem diferenças nesse ofício. É uma questão de rotina e todos da minha raça se afeiçoam ao hábito.

Daqui alguns minutos, Madame Bijou se levantará. Vai se mirar no espelho, se vestir, e comer alguma coisa. Vou me contentar com alguma migalha e depois passar, longas horas, devidamente acompanhado por esse estrupício, até que ao final do dia ela retorne.

A certa altura, ela estremece e geme. Sei que dentro em breve vai se levantar. Quando o faz, eu pulo da cama e vou de encontro ao dobermann (esse espantalho está sempre em lugares indevidos).

Ele late, eu lato, ela grita.

Somos expulsos do quarto.

Desde que aqui chegou, venho reparando que minha ração diminui a olhos vistos. Ele come a sua e a minha.

Quando Madame Bijou senta à mesa, rodeamos suas pernas. Ela me tem mais simpatia, mas faz questão de jogar migalhas pra ambos os lados.

Não gosto de ficar só com esse paspalho. Devo admitir que é mais forte e, em breve, se fará impor. Ainda assim, gozo de alguns privilégios: sou mais antigo.

Quando Madame Bijou bate a porta e vai embora, não tem mais ninguém a não ser nós dois. Olhamo-nos fixo e pressinto alguma coisa diferente em seu olhar. Ele mostra os dentes e seus longos caninos parecem duas facas afiadas. Ponho-me em posição de defesa. Não existem mais subterfúgios. Madame Bijou está longe e a hora é essa.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @rogerioskylab

Imagem: rs/pra

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2 Comments

  1. Nessa história confesso que estou em dúvida quem é o heroi: o autor, o dobermann ou a Madame Bijou. Sensacional! HAHaHa

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