Do Boca à boca grande (por João Marcelo Garcez)

– O Boca Juniors não é mais o mesmo.

– Não dá para aceitar o regulamento.

– Quero de volta meu direito de encarnar.

Lgo Carioca

Não, estimado leitor, as frases acima não foram proferidas por populares ou torcedores comuns no Largo da Carioca, sob o sol escaldante de meio-dia, durante uma rápida e improvisada refeição, entre um gole no suco de caju e uma mordida no cachorro-quente de salsicha vegetal.

Foram jornalistas, sim, jornalistas (ou ao menos pessoas sem o diploma mas designadas para exercer tal função pelo respectivo veículo contratante) os autores de tais blasfêmias, o que dá a dimensão da crise pela qual atravessa o jornalismo brasileiro nos tempos atuais.

Peço licença ao escritor Rubem Fonseca, vencedor em 2003 da mais prestigiada distinção literária para a língua portuguesa – o Prêmio Camões –, para fazer um breve adendo numa costumeira colocação sua de que toda pessoa, para ser escritor, tem de ser um pouco maluca.

Fiz novo juízo sobre as características que distinguem um jornalista a partir do que vai acima. Para mim, mesmo eu sendo um, também este profissional não possui suas faculdades mentais organizadas. Noto um pequeno (ok, é grande mesmo) desvio entre o que deveriam ser as suas atribulações e o modo como de fato conduzem seu ofício.

A primeira da tríade que abre esta crônica foi dita nos minutos finais de uma vitória arrebatadora do Fluminense no caldeirão da Bombonera em 7 de março de 2012. Descontada a dor de cotovelo, seria apenas uma opinião, não fosse pelo fato de o mesmo comentarista ter dito horas antes da partida, num programa do canal a cabo, que o time tricolor teria muitas dificuldades de suportar a pressão do Boca e da torcida xeneize. Ah, sim, a equipe argentina estava invicta havia “só” 36 partidas e ainda foi finalista da citada edição da Libertadores.

Jornal argentinoOs leitores me perdoem por não citar nominalmente as pessoas que emitiram tais opiniões. Mesmo que lhes falte juízo, por uma questão de respeito. Destaco suas frases, repito, apenas como forma de chamar atenção para a discrepância de conduta entre o que deveria ser e como de fato vem sendo o comportamento de um jornalista, sem generalizações, evidentemente.

As duas últimas, bem atuais, dizem respeito ao Caso Héverton, que tomou conta do noticiário esportivo durante as férias da bola e que até a divulgação da tabela da Série A do Campeonato Brasileiro seguirá a fomentar páginas, sites, rádios e TV (e, se duvidar, até depois disso, enquanto ações estiverem tramitando pelos corredores do Judiciário).

Pois destrinchemo-las: o que haverá de ter passado pela cabeça do jornalista ao dizer que não dá para aceitar um regulamento, sendo que este foi assinado de comum acordo por todos os participantes? Não seria o caso de os envolvidos no campeonato, estes sim, discutirem se os capítulos que o regem são ou não aceitáveis? Ora, o que o comentarista disse, na verdade, nas entrelinhas, foi: eu não DESEJO que o Fluminense jogue a Série A, mesmo estando o clube legalmente amparado para fazê-lo.

Não surpreende que coisas assim sejam ditas nos dias de hoje, em que são parcos os analistas de quem gostamos ou nos sentimos confortáveis para ler/ouvir, confiando em sua lisura, transparência e idoneidade. Reflete diretamente o que vemos e vivemos no cotidiano, ocupado por uma sociedade torta, de valores nada nobres, em que se é difícil até de transitar.

Se eu não tivesse lido a terceira e última das frases, duvidaria até de que ela foi, de fato, escrita por um profissional de imprensa. Ora, desnecessário dizer que tudo o que ele não pode fazer em serviço (nem fora, preferencialmente) é joguetes ou pilhérias. É algo que vai contra todas as normas, cartilhas ou manuais do bom jornalismo, aprendido ainda no abecê das faculdades da área.

Qualquer busca em sites de pesquisa mostra o quão é distante da realidade a reivindicação do jornalista supracitado. Veja, por exemplo, o que diz o Wikipédia: “Jornalismo é a atividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. Também define-se o Jornalismo como a prática de coletar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos atuais.”

Direito de encarnar? Não encontrei. Lamento.

Lamento mesmo, sem ironia.

Sobretudo por quem gosta de ler – e se instruir.

O slogan de um grande veículo carioca – “Quem lê jornal sabe mais” – nunca esteve tão defasado como agora.

***

CpAo lado de Paulo-Roberto Andel, mestre de cerimônias desta casa, espero você nesta terça (28), a partir das 19h, no lançamento de “Pagar o quê – Respostas à maior bravata da história do futebol brasileiro”, livro-manifesto escrito a seis mãos, em coautoria com Marcelo Janot, Valterson Botelho, Luiz Alberto Couceiro e Cézar Santa Ana.

Histórias nunca contadas direito antes, por razões vis, estão nesta obra, pelo fim do apartheid tricolor na imprensa brasileira.

É na Blooks Livraria, dentro do Espaço Itaú de Cinema (Praia de Botafogo, 316).

Até lá!

João Marcelo Garcez (joaogarcez@yahoo.com.br) é jornalista, publicitário e escritor. Autor de quatro livros, já trabalhou em empresas como TV Globo, Jornal dos Sports, Globoesporte.com e DM9DDB. Atualmente na Editora 5W, Garcez escreve mensalmente ao site Panorama Tricolor.

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