Disco arranhado (por Mauro Jácome)

Será que a falta de luz antes de começar o jogo era um prenúncio? Parece. Ou então, o Thiago Neves emprestou seu brilho para acender os refletores, porque ficou sem nenhum e errou tudo.

Aliás, o Fluminense é o time do contrário. Quando as coisas estão difíceis, quase impossíveis, surpreende. Quando é “mamão-com-açúcar”…

Mal começou o jogo e a defesa mostrou que não reviu sua atuação lá no Canindé. Bateu cabeça, erro daqui, furada dali. Aos cinco minutos, o Atlético teve a chance de abrir o placar por duas vezes. E dominou nos primeiros minutos sem tomar conhecimento do Fluminense, de seu status de líder e, mais, dentro da nossa casa.

Todo time tem características que, entra jogador, sai jogador, entra técnico, sai técnico, não mudam. No caso do Fluminense, uma de suas marcas registradas há muitos anos é começar o jogo frouxo. Mesmo jogando em casa, contra um time muito inferior, não parte para cima tentando fazer o placar logo. Foi assim em Volta Redonda. Ficou com a bola no pé, mas jogando longe da área de Márcio. Tocava a bola, virava da esquerda para direita e vice-versa, mas sem nenhum ímpeto. Vez por outra, o Wellington Nem tentava partir para cima do marcador, mas logo desistia e tocava para trás.

O Atlético se fechava, esperava um passe errado, um cruzamento mal feito, para partir em contra-ataque e pegar a defesa tricolor aberta. Patric corria com passadas largas e deixava os zagueiros em desespero.

Somente a partir dos 12 minutos, o Fluminense descobriu que podia atacar. Pressionou, levantou a torcida. “Vamos, pra cima Fluzão…”, cantavam as arquibancadas. No entanto, logo o time voltou a cadenciar o jogo. O Atlético, pelo contrário, impunha velocidade na transição da defesa para o ataque. O rubro-negro goiano tinha espaços, o Fluminense, não, e abusava do jogo aéreo.

– “O jogo não é fácil como o Fluminense imaginava…” – solta o comentarista da rádio.

De onde ele tirou isso?

O Thiago Neves parecia ter incorporado o espírito de quarta-feira do Diguinho: errava um passe atrás do outro. Com isso, matava a saída rápida e criativa, além de proporcionar contra-ataque ao Atlético. Foi assim que saiu o primeiro gol: TN10 erra um passe, o Atlético parte em velocidade, TN10 volta tentando recuperar a bola, mas comete falta perto da área. Para piorar, a barreira não se movimenta para impedir a jogada ensaiada.

– “Agora é drama…” – prevê o comentarista da rádio.

– “O Atlético ainda não ganhou fora de casa.” – começa a ladainha do narrador da TV.

Thiago Neves erra um passe. Passa dos 20’ e o Fluminense tenta a bola aérea, mas não encontra ninguém. Cadê o Samuel? Thiago Neves fura, Nem passa errado, Jean lança errado, TN erra um passe. O narrador da TV fala mais uma de suas oportunas estatísticas.

O Fluminense tentava montar uma blitz, mas estava difícil porque o Atlético marcava muito forte. O time goiano colocava todos seus jogadores atrás da bola em três linhas de marcação. O Fluminense dava um, dois, três passes e cruzava. Sem Fred, essa jogada é, praticamente, inútil.

O tempo passava e o Fluminense não conseguia nada. O Atlético estava com a faca nos dentes, o Fluminense estava com carne nos dentes. Tinha vindo de um farto almoço numa churrascaria. Patric continuava dando trabalho com suas correrias em direção ao gol. Numa dessas, depois de mais um passe errado do TN10, o centroavante entrou pela meia-direita e, cara-a-cara com o Cavallieri, chutou no peito do goleiro. No escanteio, gol. Podem escolher: falha do Cavallieri ou azar.

Quando o tricolor tentava chutes da intermediária ou mesmo da entrada da área, tinha umas vinte pernas na frente. A bola nunca chegava ao Márcio. Chutavam, a bola batia num, noutro, voltava, chutavam, batia num, noutro.

Por que o Nem fica ao lado de todas as cobranças de falta ou escanteios? Querem enganar quem?

TN10 catastrófico, Sóbis desaparecido, Samuel perdido, Nem não conseguindo levar vantagem, Carlinhos cruzando para o nada, Bruno nem marcando, nem atacando. Com tanta gente mal, como um time conseguiria produzir algo? Não havia alternativa para o primeiro tempo. Juiz apita final e a torcida vaia. Alguns tentavam incentivar.

Resumo do primeiro tempo: Atlético colocando todos atrás da bola e, quando a recuperava, partia em velocidade com vários jogadores espalhados, dificultando a marcação. O Fluminense sentia falta de Fred. Errava muitos passes e jogava pouco pelos lados. Insistia com a bola aérea, sem ter um bom cabeceador.

Desliguei o rádio. Estava dando azar…

O time voltou do intervalo com duas alterações: Carlinhos saiu para a entrada do Wallace e Higor entrou no lugar do Samuel. Não gostei. Achava que tinham que sair Bruno e Sóbis. Para o lugar de Samuel, teria que ser o Michael. Logo no início do segundo tempo, o destino consertou ao colocar o Michael no lugar do Sóbis, que saiu machucado.

– “Grande resultado para o Atlético Mineiro…” – repete o narrador da TV.

– “O Atlético ainda não ganhou fora…” – repete a TV.

– “O Fluminense não perdeu em casa…” – mais uma vez.

Lá pelos 8’, Thiago Neves quase marca de cabeça. Márcio salva. A torcida acorda. Experiente, o goleiro atleticano sabe que não pode deixar o Fluminense crescer, então, começa a comandar a cera.

Nos primeiros quinze minutos, o Atlético ficou bem recuado, fechadinho. No entanto, numa outra saída rápida, quase marcou. A bola bateu na trave de Cavallieri.

Thiago Neves erra mais um passe, “O Fluminense só perdeu um jogo até agora. Foi para o Grêmio no Olímpico” diz a TV, Márcio faz cera. Bola aérea do Flu, contra-ataque do Atlético. O jogo fica repetitivo.

Aos 19’, Michael marca. A partir daí, o Fluminense revezou momentos de pressão, com algumas boas chances numa cabeçada do Gum e numa falta ensaiada, com momentos de desânimo, de falta de confiança numa virada.

Por que o TN10 não bateu faltas laterais? É sua especialidade. Hoje, ele estava abaixo de zero, incrivelmente fora de sintonia. Higor tentou várias cobranças de falta, mas não teve sorte.

– “O Atlético vai conhecendo sua primeira vitória fora de casa”

Wallace isola. Márcio faz cera. Leandro Euzébio arruma confusão. Márcio faz cera. Wallace isola outra. Márcio…

O Fluminense desistiu do jogo a partir dos 35 minutos. O Atlético tocava a bola e seus jogadores procuravam os espaços vazios, que eram muitos. O Fluminense estava na roda. Não fosse a bela bicicleta do Michael, o Atlético ficaria com a bola nos últimos quinze minutos. Fim de jogo e, nas arquibancadas, ninguém acreditava no que via. 

– “O Atlético ganha a primeira fora de casa”

– “Bom resultado para o Atlético Mineiro…”

– “O Fluminense sofre sua primeira derrota em casa”

– “Por ironia, o Thiago Neves tem um Dragão tatuado no braço. Vamos mostrar de novo?” – para fechar a noite.

 

Mauro Jácome

Panorama Tricolor/ FluNews

@PanoramaTri

Revisão: Rosa Jácome

Contato: Vitor Franklin

6 Comments

  1. Caro amigo, cansei desse time com esse futebol horroroso. Sinceramente, perder para o time quase reserva do lanterninha (sim, eram diversos desfalques) em casa foi demais pra mim. Vejo os jogos do galo e, por mais que falem que há favorecimento da arbitragem, percebo um time extremamente raçudo, com gana de ganhar. Enquanto nos jogos do Flu, vejo thiago neves, bruno, carlinhos andando em campo..parece um episódio do seriado “walking dead”, tamanha a lerdeza desses “mortos-vivos”..lamentável…

  2. Estranhei, também, a postura do TN. Nem falta bate mais. Bruno já desisti. Na coluna de amanhã falo sobre isso: o baixo rendimento de peças chaves.

  3. A sorte de novo nos ajudou. O time está jogando muito mal e não é de hoje. Estamos arriscando muito

    1. Houve uma repentina queda de rendimento de peças importantes: Gum, Carlinhos e TN. Além da perda de Wagner, que cresceu muito e se tornou fundamental na marcação e na transição da defesa para o ataque.

  4. Também não consigo entender, como uma jogada quase mortal do Flu, de TN batendo as faltas, estarem sendo feitas agora pelo Jean, e no jogo de sábado, pelo Higor, algo me soa estranho, e sinto que TN também está com dificuldades de correr, o que será ?

    1. Pode ser que esteja jogando no sacrifício. Muricy dizia uma coisa interessante: existem dois mundos do futebol. O da imprensa e o verdadeiro. O que entendo disso é que há coisas acontecendo que não temos a menor ideia. Às vezes, o técnico faz uma coisa, todo mundo critica, mas não sabemos que ele tinha um motivo para fazer aquilo. Tendemos a ver futebol da mesma forma que aprendemos economia: ceteris paribus. Ou seja, ao analisar um fator, os demais ficam inalterados, constantes. E as coisas não são assim. Pode ser que haja algum motivo para o TN não ter jogado bem os dois últimos jogos. Para conhecer tudo que acontece no mundo real do futebol, só estando lá.

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