Cotidiano (por Mauro Jácome)


Rolou a bola para o primeiro tempo. Ei! Esqueceu-se de chamar o Fluminense para o campo. Pode isso? O juiz deu a saída de bola com um só time em campo. Caramba! Agora que eu vi, só o Cavalieri entrou. O Botafogo joga com 11 contra 1.

Lá vêm eles. Chutam. CAVALIERI! Sensacional. Chamem o time! Cadê o Fred, o Deco, o Gum? Onde estão Edinho, Carlinhos, Bruno, Jean?

Lá vêm eles. Chutam. CAVALIERI! Sensacional novamente. O time não aparece na boca do túnel. Mas o Abel está na beira do campo. Será que só eu vejo que o time está jogando com um, apenas. Abel, coloque o time em campo!

Lá vêm eles. Chutam. CAVALIERI! Sensacional, Cavalieri. Sensacional pela terceira vez. Impossível jogar assim. Mais impossível ainda, o placar estar em branco. Um massacre e o Botafogo não marcou. Cavalieri não deixou.

Pois é, tricolores. Parece um daqueles sonhos em que a gente fica agoniado, remexendo-se na cama. Há quem grite e acorde a esposa, a namorada, o filho, a sogra, o cachorro, o vizinho. De repente, levanta de supetão e, encharcado de suor, percebe que não passava de um pesadelo. Olha a TV e os vinte e dois estão lá. Era tudo real.

Pois é, tricolores. Assim foi o começo do jogo. Um massacre. Pressão total dos alvinegros. O Fluminense não via a bola, batia, voltava e Cavalieri fazia milagres para manter o 0 x 0. Andrezinho, Fellype Gabriel, Seedorf e Elkenson marcavam na intermediária e pressionavam a saída de bola. Recuperavam e colocavam dois, três em cima do Carlinhos que não conseguia marcar. Lucas e Andrezinho chegaram várias vezes ao lado da área.

Após os vinte minutos, o Fluminense conseguiu segurar mais a bola. Não sei se porque o Botafogo diminuiu a pressão ou se Jean, Edinho, Deco e Thiago Neves apareceram mais para o jogo e fizeram a bola rolar. Fred e Wellington Nem jogaram na última linha da defesa do Botafogo.

Depois dos vinte e cinco minutos, o jogo entrou num lenga-lenga chato. Era jogador reclamando, catimbando, todos tentando levar o jogo no grito. De interessante, vi uma postura que, esporadicamente, o Fluminense se utiliza: ao recuperar a bola, Edinho recua e ocupa a zaga central no lugar de Gum, que abre na lateral direita, empurrando o Bruno para a ponta. Wellington Nem fecha para o meio e se alinha ao Fred. Isso confunde o outro time, que dá alguns espaços para o tricolor jogar nas costas do lateral esquerdo adversário.

No final do primeiro tempo, lembrei-me do comentário preciso do Léo Prazeres no Programa Panorama Tricolor/ FluNews 22, quando afirmou que o Wellington Nem fica o tempo todo pela direita e isso já está manjado. Ele tem toda a razão. No jogo de hoje, Nem prendeu o Marcio Azevedo, evitando que o lateral botafoguense avançasse, mas, por outro lado, ficou perdido no meio de dois, três jogadores e pouco produziu.

Intervalo. Foram, ouviram as orientações do professor, voltaram e nada mudou. Mais 15 minutos de pressão total do Botafogo. Uma coisa me chamou a atenção: a força que os jogadores do Fluminense faziam para não dar chutões. Gum recuperava a bola, olhava e tocava para o Bruno, para o Edinho. Digão, rolava para o Gum. Tentavam achar o Deco para dar vazão, mas o Botafogo adiantava a marcação e dificultava. Por fim, alguém despachava a bola. Fred lá na frente tentava matar a bola e lançar o Wellington Nem ou Thiago Neves.

Entre os 15 minutos do segundo tempo, quando o Botafogo diminuiu a pressão, e os 27, o alvinegro relaxou a marcação no meio, mas os jogadores de meio-campo do Fluminense não souberam aproveitar e organizar o contra-ataque. Mas quem tem Fred tem tudo. Já que o meio-campo não fazia, o artilheiro recuou até a linha central, dominou uma bola e fez um primoroso lançamento para o Wellington Nem. O baixinho conseguiu se desgarrar de Márcio Azevedo e, quando chegou na área, deu um tapa na bola para a marca do pênalti. Fred, Fred, Fred. Ora, ora, ora. De frente para o gol, sem marcação, não tem para ninguém. Gol, claro!

Nesse momento, pensei: “lá vem mais sufoco”. Imaginei o time com os onze dentro da área. O Botafogo foi para frente, mas diferentemente de domingo passado, o jogo ficou aberto. Lá e cá. Não dava tempo nem para fazer as anotações para escrever essa coluna. E foi assim até o fim.

Cavalieri. O que falar dele? Mais uma vez foi sensacional. Três defesas espetaculares. Já virou rotina.

Fred. O que falar dele? Mais uma vez decisivo. Voltou, lançou, marcou, defendeu, gritou, orientou. Gol, artilheiro, líder. Só isso…

Os demais jogadores tiveram atuações discretas. Gum e Jean tiveram muito trabalho com o Botafogo, mas se saíram bem. Bruno foi mal mais uma vez. Thiago Neves, um lance aqui, outro ali. Deco deixou a desejar. Nem só acertou no gol, no restante, errou muito. Digão deu alguns sustos, principalmente, no exagero de uma categoria que não existe. Nessa avaliação sobre as atuações dos jogadores, há que se ressaltar a partida catastrófica do Carlinhos. Além de ter sido envolvido por diversas vezes, o lateral da Seleção do Mano desperdiçou todos os contra-ataques que tentou. Os três que entraram cumpriram bem o seu papel para manter o resultado. Dessa vez, Abel não deu sopa para o azar e colocou o Valência para reforçar o meio-campo. Diguinho só apareceu na hora da comemoração do gol de Fred. Mas, de qualquer forma, o Cavalieri estaria lá para espantar qualquer susto.

Faltou falar de um: Edinho. Uma bela partida do ex-pior, ex-mais-irritante, ex-entregador-de-ouro. Jogou uma enormidade hoje. Já vem melhorando muito, mas hoje foi, simplesmente, excelente. Defendeu muito bem, ajudou os zagueiros, saiu para o jogo, puxou contra-ataques. Tudo que se espera de um bom cabeça-de-área.

Todo dia, ela faz tudo sempre igual…” – Trecho da música Cotidiano do gênio e tricolor Chico Buarque.

O jogo do Fluminense no Campeonato Brasileiro está muito bem representado pela letra da música. Se alguém quiser saber como o tricolor joga, é só ouvi-la.

Sufoco…

Sufoco, três pontos…

Sufoco, três pontos, liderança…

Tudo sempre igual…

Mauro Jácome

Panorama Tricolor/ FluNews

@PanoramaTri

Contato: Vitor Franklin

7 Comments

  1. ST*** *
    Essa do Edinho não ser volante ajudou o rapaz e o time.
    Refrescar o ataque substituindo o Nem pelo Marcos Júnio finalmente foi uma dentro do Abel.
    Assim como deixar o Diguinho no banco e chamar o Valência.

    “ela (…) me beija com a boca de hortelã”

  2. É a linda história do Flu e a vitória:

    “Seis da tarde, como era de se esperar,
    Ela pega e me espera no portão
    Diz que está muito louca pra beijar
    E me beija com a boca de paixão.”

    1. Os jogos da última rodada começam às 4 e terminam…
      Combina com esse trecho da música.

  3. Só discordo do Digão. Toda bola que chega nele ele dá cabeçada e chutão sem direção. Não sabe cabecear ou rebater para o lugar certo e nem matar a bola e passar com categoria. deu uns passes muito perigosos dentro da área.
    Sobre o time, já nem sei o que falar. Parece que as balizas do Flu estão “fechadas” para obras e o ataque só precisa de um única jogada. Ninguém consegue fazer gol no Flu, apesar da defesa estar há muito escancarada, dando espaço para que chegar. Ontem deitaram e rolaram pelo lado do Carlinhos. Já estamos no meio da tempestade e não estamos nem sacolejando. É, estamos caminhando com determinação para o título. Haja sofrimento.

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