Entre o coração e a (in)gerência (por Eric Costa)

cruz hospitalar

Os corredores das Laranjeiras estiveram bastante agitados nos últimos dias: não bastasse a mudança repentina de comando, o clube apresentou uma baixa importante em seu Departamento Médico. Sérgio Galvão, vice-presidente médico do clube, anunciou sua saída após a conturbada contratação do lateral Breno Lopes. O ex-médico do Fluminense diagnosticou nos exames admissionais uma das condições clínicas mais perigosas à vida e carreira de um atleta: a miocardiopatia hipertrófica, cuja constatação contraindica formalmente a realização de atividade física competitiva.

O tema de miocardiopatias, curiosamente, é um dos quais, dentro da Medicina, mais me chama atenção. Daqui a dois anos, terei a honra de me formar médico e, nos quatro anos em que já me debrucei sobre os livros nas bibliotecas da minha querida Universidade Federal do Maranhão, poucos temas me instigaram tanto à leitura quanto as miocardiopatias. A raiz de tal interesse vem de muitos anos atrás e, por este exemplo, leitor, você perceberá a gravidade de um diagnóstico neste sentido: foi quando Serginho, em 2004, faleceu após uma parada cardiorrespiratória súbita dentro de campo que meu interesse pela área da saúde surgiu. Curiosamente, os anos me trouxeram este tema a frente diversas vezes na faculdade e, agora, quem diria, sendo a raiz de uma gigante polêmica no Fluminense.

A citação ao caso de Serginho não foi à toa: o zagueiro era portador de miocardiopatia hipertrófica(MCH), possível diagnóstico de nosso atleta Breno e a principal causa de morte súbita e inesperada em atletas jovens durante atividade física no mundo. A MCH consiste em uma das várias doenças do grupo das chamadas miocardiopatias ou cardiomiopatias, definidas pela American Heart Association resumidamente como doenças do músculo cardíaco com disfunção mecânica e/ou elétrica exibindo dilatação ou hipertrofia das cavidades do coração e suas paredes. As causas para essas doenças são diversas, mas no que se diz respeito à MCH há uma bem definida: a causa genética. Existe um grupo de genes já conhecidos cujas mutações predispõem indivíduos ao desenvolvimento deste aumento assimétrico do músculo cardíaco que a MCH traz ao paciente portador.

O dano causado pela doença vai além: não se trata de um simples ganho de massa muscular na parede do coração. Juntamente à hipertrofia, tem-se um desarranjo do músculo cardíaco, que ganha tecido fibroso(não funcional, pois não realiza contração). O paciente com MCH torna-se altamente predisposto a arritmias cardíacas, incluindo algumas que potencialmente levam a parada cardiorrespiratória. Não bastasse isso, em MCH, há um componente obstrutivo a nível cardíaco: a contração vigorosa do coração, que ocorre pelo ventrículo esquerdo aumentado altera as condições de pressão dentro da própria cavidade e faz com que, logo após o início da contração, uma das válvulas cardíacas seja tracionada a obstruir parcialmente a saída do volume de sangue neste movimento.  Quando o atleta realiza esforço físico, essa obstrução, pela vasodilatação periférica, torna-se ainda mais importante. Por isto também, o atleta pode vir a desmaiar e até mesmo a ter uma parada, levando possivelmente a morte súbita.

Um atleta com coração tão grande não teria, então, sintomas muito chamativos? Nem sempre. E daí começa a dificuldade do diagnóstico: parte importante dos portadores de MCH não apresentam sintomas evidentes(alguns tem história de desmaios após esforço intenso), sendo, muitas vezes, a própria morte súbita a primeira manifestação da doença, assim como foi no caso de Serginho em 2004 e no de Miklos Feher, do Benfica, no mesmo ano. Diagosticar esta doença passa por investigar a história familiar do indivíduo, que ocasionalmente apresenta casos de morte súbita em pessoas jovens, um exame físico detalhado, em que sinais de contração vigorosa do coração podem vir à tona, mas depende essencialmente de exames dinâmicos da função cardíaca, como o ecocardiograma. É a partir do ecocardiograma e das medidas que ele traz da dimensão cardíaca, bem como da “visão” do funcionamento cardíaco que se pode fundamentar um diagnóstico desta doença. Nosso médico Sérgio Galvão provavelmente lançou mão de todos esses exames, pois tem conhecimento vasto em medicina do esporte. Porém, as miocardiopatias são, por natureza, temas polêmicos dentro da medicina: primeiro, ainda há dúvidas em chamá-las de miocardiopatias ou cardiomiopatias. Somado a isso, órgãos eurpoeus e norteamericanos constantemente divergem acerca do conceito da doença, bem como, nas últimas décadas, mudaram os critérios e os protocolos para este diagnóstico. E talvez na divergência dos critérios usados pelo departamento médico tricolor em relação aos dos demais centros encontre-se o cerne desta questão. O que garante que nosso departamento tenha utilizado, de fato, os critérios mais atuais para diagnóstico da MCH?

Atribuir a um atleta o diagnóstico de MCH é difícil em diversas faces: sendo confirmado, contraindica formalmente atividade competitiva e encerra a carreira deste paciente. E para ser confirmado, além da discrição dos sintomas e complexidade dos critérios, há a importante ressalva de que as alterações promovidas pela MCH no coração se assemelham e muito às que naturalmente ocorrem no coração de qualquer atleta sadio.  Ora, nosso organismo, submetido a esforço físico, lança meios de se adaptar: o coração de atletas de alto nível geralmente também traz um aumento de dimensão, o que configura uma linha tênue entre o chamado “coração de atleta” e a MCH.  O coração de um atleta, então, pode estar aumentado e isso não significar doença. Nesses corações grandes, porém sadios, as válvulas funcionam normalmente, o aumento não representa risco para parada cardiorrespiratória, o paciente tem eletrocardiograma próximo do normal e, principalmente, o aumento regride após algumas semanas sem atividade física.

São algumas diferenças, mas novamente muito tênues entre “saúde” e “doença”.  Quando se soma esta complexidade e tais detalhismos a um meio de cobrança, que é inerente a trabalhar no futebol, nem sempre se acerta e poucas vezes ocorrem unanimidades. Se Sérgio Galvão acertou ou errou no diagnóstico, não há certeza. Talvez os fatos – que não trágicos, espero – nos evidenciem em futuro próximo.

Se talvez haja um erro a ser apontado com maior facilidade, este seria a postura em deixar o clube perante o fato de o atleta ter buscado, junto a seus representantes, a opinião de outros profissionais e, sobretudo, quando tais profissionais têm parte importante de sua atuação voltada em excelência justamente à cardiologia do esporte, como se trata de Nabil Ghorayeb, que surge no contexto da história como quem bateu o martelo contra o diagnóstico de miocardiopatia hipertrófica. Por mais que possa soar como descrédito ao trabalho de quem está a frente do departamento médico, aprendemos desde nossos primeiros períodos na faculdade que a assistência ao paciente é interdisciplinar, em equipe e sempre no respeito ao direito à informação sobre si que o paciente possui, principalmente quando um possível fim de sua carreira explode a sua frente.

O erro ou o acerto talvez sejam dois lados de uma mesma moeda, que muda de face a cada vez que olhamos o lançar dos dados por um ângulo diferente. Não há afirmação ou negação e nem a nós cabe julgamento definitivo. Cabe trazer o que é científico e dizer, como o faço em meus primeiros passos dentro da Medicina, que é saudável e quiçá essencial a humildade em escutar o próximo e reconhecer os próprios erros.

Porém, meu caro leitor, no nosso Fluminense, em que há mais coisas entre o céu do Rio de Janeiro e o gramado que possa imaginar nossa vã filosofia, o melhor talvez seja, ao se falar de relações pessoais e políticas – mas não de ciência –  discursar indefinidamente no parêntese do subjuntivo. E nesta história, em que não está clara a atuação do departamento de futebol, se se de espera ou de contestação com afinco ao médico, conviria saber: até que ponto vão as atribuições de cada dirigente no nosso clube? A ingerência parece pairar.

Saudações tricolores.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: google

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1 Comments

  1. Um pouco de prudencia não faz mal a ninguém!

    Parabens pelas explicações!

    Abs

    Fábio Pereira

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