Com direito a tréplica! (por Thereza Bulhões)

thereza bulhoes green

E era um domingo de 1971.

Não um domingo qualquer, mas um domingo de futebol, daquele futebol importante. Ele trazia possíveis vitórias e derrotas.

Um domingo de eleição do verdadeiro campeão carioca. Candidatos: Fluminense e Botafogo.

Suspense no ar, conversas nervosas. Na geral, fantasias e boca de urna agitavam seus candidatos. Nas rampas para as arquibancadas, os corações batiam mais forte.

Responsabilidade cidadã. No campo verde, o saudoso e belo Maraca e uma verdade a se travar.

Bandeiras tricolores e bandeiras de solitária branca estrela brincavam com seus cantares.

E cantando no surdo, lá fui para o jogo. Uma Kombi dirigida por seu dono, meu companheiro João Saldanha, repleta de nossa toda família. A única tricolor era eu, rodeada de todas as estrelas botafoguenses: João, pai, e filhos. Verinha, Sonia, Ruthinha, Joãozinho e minha filha Rafaela.

O Botafogo vinha de boa campanha e seu tremendo craque P.C.Caju já declarara:- “O Botafogo já é campeão”. O empate garantia a vitória da chamada Selefogo. Nada menos que Carlos Alberto Torres, Brito. Jairzinho e Paulo César Caju, quatro das feras campeãs do mundo em 1970, antes convocados pelo então técnico João Saldanha.

Nós, os tricolores, tínhamos os também tricampeões mundiais de 1970, Marco Antonio e o grande GOLEIRO Félix, passando por Denilson e Samarone, terminando com Flávio e Lula, time certo e de bons antecedentes. Eu ia me esquecendo: o goleiro do Fogo era o calmo e excelente Ubirajara.

Só para esclarecimentos: acima temos nomes que estarão envolvidos no lance final da partida. São eles: Lula, Marco Antônio e Ubirajara.

Antes do apito glorioso do iniciar, já estávamos sentados nas cadeiras azuis, para evitar a separação de times nas arquibancadas, ordens do nosso técnico que da cabine da rádio nos observava, comentando.

E jogo que começa…

No melhor dos estilos, suspiros, gritos, cigarros que acendem, jogadas que se apagam, batucadas e agudos em si, xinga mãe do juiz de cá e diz que é santa de lá. E cansaço, mais emocional do que físico, nós exaustos de suor. O jogo estava duríssimo.

Ah! O apito avisa um intervalo.

Fila de banheiro, cheiro de urina, coca-cola, os botafoguenses familiares conversando entre eles e eu só no arrepio, o medo de ser campeã e a vontade de não perder o título.

Retorna-se, sem conseguir sentar, vontade que termine tudo logo, querer que dure bastante. Fome de comer a bola, momentos de cada torcedor, de cores alegres, juntas soltar o grito, momentos de cada torcedor do dia e noite, querendo o sim das horas à palavra que as redes soltam.

E luta que segue…….

No ataque o Botafogo forte, no meio de campo distribui aos laterais com sabedoria o Flu.

Nós pobres mortais, olhando em frente, sempre.

São 45 minutos, badalavam mais três.

Um certo escanteio da vida, no último ponteiro, sem pretensão de ser gol olímpico, Lula sobe e faz o gooool do meu Tricolor. O GOOOOOLLLLLL do Campeonato Carioca.

A bola anuncia a vitória tricolor, a verdade é travada, Marco Antônio faz uma falta no goleiro Ubirajara ou não, mas o juiz não viu.

Foi GOOLLL assim errado, mas foi GOOLLL marcado e eu com uma vontade única de pular, gritar que sou campeã; entretanto não podia. Ele, Marco Antônio não me deu naquela hora o direito, mas ao juiz deu. Tive vontade de dizer “MENINOS, EU VI”, mas o juiz não, fazer o quê?

(tricolores, somos os imortais campeões de 1971)

Todos com toda razão!….porém… “Razão demais não pode trazer satisfação”, já dizia um sábio da Idade Média, acho eu.

Caminhos calados até a Kombi da volta. Meu coração batia feliz alto, tinha impressão que ouviam, quando chega João com cara de zero amigos e diz: “Vamos logo entrando no carro”.

Quebrando o silêncio: “Já berrei na rádio o que podia para este juiz desgraçado”.

UM AVISO SOMENTE: “Thereza, infelizmente para tricolor aqui não tem espaço. Sem carona, tá?”

A família botafoguense concordou totalmente – até Rafaela, minha filha botafoguense completa de pai e bomdastro.

– Carona?

Nossa, era tudo que eu queria! Peguei um táxi, por sorte de um chofer tricolor, e fomos cantando nosso hino e festejar em Álvaro Chaves. Amigos para sempre e o dia raiava, quando me deixou na porta de casa.

João estava acordado, mas simplesmente com aquele jeito só seu me disse:

– Parabéns campeã: o juiz roubou, mas eu queria lhe proporcionar esta vitória tricolor. Foi a forma que encontrei de lhe oferecer O DIREITO À TRÉPLICA.

Este é o João Saldanha. Este era o João Saldanha: o companheiro.


Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: teb

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