Cegos, surdos e loucos!* (por Walace Cestari)

Deve existir uma universidade de loucos. E nesta escola superior de sandices certamente formaram-se os dirigentes de futebol. Só esta explicação é possível diante do absurdo regulamento do Carioquinha. Uma sucessão de ideias que devem ter surgido como geniais, que a realidade tratou de demonstrá-las imbecis. Lamentável.

O Carioquinha já um campeonato sem atrativos há tempos. Desde a “organização” do Campeonato Brasileiro – isto é, a adoção dos pontos corridos e de um calendário planejado – os estaduais passaram a segundo plano e sofreram com o esvaziamento e acúmulo de jogos deficitários.

Aqueles formados nas universidades de loucuras propuseram fórmulas loucas para tentar salvar um paciente terminal, doido para descansar em paz. Já que era para manter vivo o Carioquinha, que ele fosse pelo menos um campeonato rápido, enxuto e divertido. Mas, obviamente, os doutores da demência futebolística enxergaram o oposto: inflar ainda mais o campeonato e aumentar o número de jogos deficitários.

Como se isso não fosse o suficiente, a cada ano uma esdrúxula forma de disputa transforma o monstro em um campeonato ainda mais feio e, sobretudo, mais complicado. Assim, temos jogos desimportantes disputados em estádios sem condições, nos dias e horários mais absurdos e inacessíveis, tudo para afastar o torcedor. A cereja do bolo é agora complicar o regulamento para que o torcedor, que já não conseguia ir ao estádio, também não entenda o que se está disputando.

A (i)lógica destes mentecaptos cogitou ser boa ideia aumentar o número de clássicos – eles imaginam que, como são os jogos de mais apelo, vão conseguir boas rendas – até fazer com que mesmo estes jogos se tornem desinteressantes. Até a segunda semana de abril, o Fluminense já terá enfrentado o Botafogo por três vezes, o Flamengo por duas e o Vasco uma vez. Dependendo dos resultados dos dois próximos finais de semana, apenas no carioca, podemos enfrentar por 4 vezes o mesmo rival!

Da forma como foi planejada (?)  a disputa, Taça Guanabara e Taça Rio não valeram rigorosamente nada, sendo, o próximo final de semana, por exemplo, um trainning playoff  de luxo para as equipes. Depois de semifinais e final que nada valem, vêm as mesmas semifinais e final que valem alguma coisa. Não é concebível que alguém que trabalhe com futebol tenha achado esta uma boa ideia.

Tem pior? Claro que tem! Não bastou que um idiota parisse uma ideia imbecil que tenha virado regulamento, houve uma reunião em que os dirigentes dos clubes concordaram com esse regulamento e o aprovaram, como se fosse uma boa ideia. Sério, tudo isso é surreal.

Obrigar os clubes a colocar seus jogadores – patrimônios caríssimos – para jogar em estádios e campos sem condições – não há estádios aptos para as disputas do campeonato! As partidas do Carioca são disputadas em outros estados! – e a acumular prejuízos em jogos deficitários é um desserviço ao futebol carioca. O pior é que a manutenção dos estaduais vem com a desculpa de manter os pequenos em atividade.

Pois bem, a atividade dos clubes pequenos da série A do Carioquinha acabou no final de março. Menos para as equipes que ainda disputam um “semidescenso”, o grupo X do campeonato, que indicará os dois rebaixados à série B1. Da série B1 virão as duas equipes que formarão um grupo com seis equipes pequenas que disputarão duas vagas para compor os grupos com os grandes da série A do ano que vem. Simples, não é?

Não é possível que nossos dirigentes ainda se curvem diante desses absurdos. Que não se assine o regulamento do campeonato, que se inviabilize aquilo que representa apenas o prejuízo à imagem e aos cofres do clube. Se é necessário um campeonato carioca, que seja curto, disputado por oito equipes apenas em um mês e meio, com fórmula simples e atrativa.

Às vezes, menos é mais. Só mesmo estando cego para não ver isso, surdo para não ouvir tantas vozes protestando ou louco, para continuar acreditando no absurdo como solução.

* Este título faz reverência (e referência também) a um clássico filme dos gênios da comédia Gene Wilder e Richard Pryor, na esperança de que as risadas das situações ridículas possam restringirem-se apenas à ficção.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: cw2

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