Camisa 21 (por Paulo-Roberto Andel)

ANDEL RED NEW

SAINDO de casa rumo ao trabalho, sem tempo para um misto quente, desço a rua e, perto da lateral do prédio da Cruz Vermelha – uma importante entidade tão surrada pelos vis interesses -, avisto um tricolor.

Um autêntico tricolor.

Chinelos de dedo, bermuda batida, olho no celular e uma camisa do Fluminense, padrão 2011, branca, Unimed, com o nome de SOUZA.

Belas garotas à espera da aula de enfermagem. O mafuá da turma da rua perto da esquina.

Vire à direita e comece a caminhada rumo à Central do Brasil.

Em frente ao Souza Aguiar tem sempre uma quadrilha de plantão em busca de smarphones, carteiras e cordões – dão até bom dia para os transeuntes mais conhecidos.

O rapaz à frente, coisa de dois metros adiante. É um tricolor.

Oito da manhã, caminhando sem lenço nem documento – o Whatsapp já diz tudo, com toda a tranquilidade da terra, não estando nem aí para politicagens, casuísmos, sede de poder, divisionismo.

Nem aí para marionetes de redes sociais, militância virtual, dívidas, cetê, estádio, Fred, o diabo. Um flâneur, pois.

Num instante, o chamo: “E aí, tricolor? Hoje vamos ganhar do Corinthians?”

“Amigo, eu sou sempre Fluminense. Não importa jogo, divisão, não tem caô. Dois a zero molinho”.

“E essa camisa aí do Souza?” (UM DESGRAÇADO!)

“Pô, ganhei dum parceiro que conhece um cara lá do clube e me fortaleceu. Souza tinha raça, perdeu aquele pênalti, mas tinha raça”.

Valeu, um abraço, outro. Saudações tricolores.

Dobro à esquerda e chego ao escritório. O rapaz seguiu em frente rumo ao seu caminho tranquilo, sem pressa, na elegância.

Alguém pode dizer que é um alienado. Pode mesmo. E daí? A alienação é sempre melhor do que a escrotidão, por exemplo.

Um sujeito que sai com a camisa do Souza na rua é um tricolor muito apaixonado, sem precisar de capacete. Nem de blogs, sites, tuíter, pagar de subcelebridade, formadô de opinião, formadô de aberração, daqueles que buscam espaço às custas de ofender os outros.

É só um tricolor a caminho da gare, do trem, do subúrbio, talvez de férias, talvez desempregado, talvez tranquilão.

Em suma, gente.

O Fluminense tem muita coisa e precisa de muita coisa também, mas o essencial está em cinco letras: gente. O que é bem diferente de meros seres humanos.

O primeiro passo para deixar de ser gigante e tornar-se o maior de todos.

Misturar as joias com os batidões. Aplaudir empresários de sucesso e esforçados camelôs. Estacionar grandes carros importados e velharias humílimas.

Uma só torcida, nenhum feudo ou capitania hereditária.

Falando em gente, acabo de morrer de rir com uma conversa de telefone: o Fagner, nosso camarada, estava muito elegante na ESPN ontem. Paradigma tricolor dos nossos orgulhos. Depois falamos de Commodores, Kool and the Gang e aí virou outra história.

Aquele rapaz de chinelos, sendo um escudo popular do clube à rua, parece um bom presságio para logo mais.

Precisamos vencer. O Vieira Souto promete.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

imagem: rep

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