Divagação sentimental sobre Laranjeiras (por Paulo-Roberto Andel)

Coluna publicada originalmente em 16 de fevereiro de 2017

Agora que a Copa do Brasil decolou e estamos felicíssimos com inteira justiça, andei espiando algumas partidas da competição, principalmente as dos estádios mais acanhados. Uma delas, obviamente, envolvendo o nosso Fluzão na bela goleada sobre o Globo. E a outra, entre Brusque e Remo, com a vitória do time catarinense.

Estádios acolhedores, do futebol de antigamente, humildes. Melhor dizendo, humílimos à enésima potência. Divertidos demais para quem gosta do esporte, diferentes demais das arenas estilo trambolhão que pululam em Pindorama, incluindo o nosso arrasado ex-Maracanã.

E também o campeonato carioca, onde o Flu já fez duas partidas no simpático – e acanhadíssimo – Los Larios. Ano passado fizemos de Edson Passos a nossa casa vintage, charmosa e… humílima. No retrasado, quem se lembra da casa do Boavista em Bacaxá?

Numa fase tão bacana quanto o do início deste 2017, é uma pena que o Fluminense não tenha a disponibilidade de Laranjeiras para jogar. Quem assistiu muitos jogos no mitológico estádio que é o berço da Seleção Brasileira sabe da emoção que era torcer ali. Dia desses mesmo, numa visita ao amigo e ídolo Heitor D’Alincourt, em certo momento fitei nossa casa gramada – em troca – enquanto uma jovem solitária treinava dando voltas. Por alguns segundos mergulhei em tempo profundo: as lembranças, os gols, as festas, as figuras marcantes da nossa arquibancada. Vivi muito aqueles degraus íngremes, onde estreei ao lado de senhores que já não estão mais aqui, mas que caminhavam tranquilamente pelo local como se fossem crianças serelepes em busca do amor ao time de coração.

É sabido que hoje o Flu não teria condições de receber jogos por vários motivos técnicos e de segurança também. Da mesma forma, é sabido que nenhum dos motivos é absolutamente incontornável, havendo razoável vontade política e recursos. Sem desmerecer nenhuma das casas mencionadas nos parágrafos anteriores, se o Fluminense pode jogar em estádios de simplicidade comovente, também poderia atuar em Laranjeiras com segurança, reforço estrutural, obras de baixo impacto, uma tubular atrás do gol e as saídas independentes para as torcidas. Ou ao menos se estudar e analisar a questão.

Foi o caso quando apoiei entusiasticamente nosso vice-presidente Cacá Cardoso, à época em campanha como candidato à presidência do clube. Cacá, uma figura ímpar e respeitadíssima por todos os grupos políticos do clube que se prezem, é cria da arquibancada e constava de sua campanha a revitalização do Estádio das Laranjeiras. Hoje estamos num novo cenário, há muita coisa a ser arrumada em todos os aspectos e também prioridades pontuais, mas eu ficaria muito feliz como torcedor se Álvaro Chaves fosse incluído de vez numa futura pauta consistente do nosso clube. Por quê?

Porque é um palco de respeito internacional. Não há um ser humano vivo na Terra que, apaixonado pelo futebol brasileiro, não queira saber de suas raízes.

Porque tem o cheiro das três cores. Você pisa nas sociais ou do outro lado e invariavelmente olha para o campo, enxergando ecos de Preguinho, Castilho, Telê, Rivellino, Assis, Renato Gaúcho e mais um milhão de heróis tricolores.

Porque fica num terreno sagrado, com farta condução, estações do metrô, suportes viários importantes – não me convidem para discutir “ah, o trânsito”, “ah, o entorno”: qualquer um que já foi a São Januário, Arena da Baixada e Independência sabe o que quero dizer. Aguardo relatos da turba que esteve no Globão anteontem.

Porque os nossos torcedores mais jovens merecem saber que AC41 não é apenas uma lenda do futebol, e os mais velhos merecem a chance de experimentar novamente o âmbar do Fluminense.

Porque estamos há quase uma década como nômades, homeless, sem identidade com o chão que temos pisado. Isso não nos impediu de ganhar grandes títulos, mas fez muita falta noutras situações.

OK, aí estão a nova grama a ser plantada, o uso para as divisões de base, a cessão para o futebol americano. Tudo louvável mesmo, já é um começo importante sem dúvida, ainda mais numa época de pouca grana, mas dá para mais se pensarmos à frente, não? Por exemplo, no Carioca 2018. Repito: aí estão Los Larios e Bacaxá que não me deixam mentir.

Muita gente defende um novo estádio na Barra, Jacarepaguá ou aquelas bandas, por motivos justos. É um fato. Mas todos sabemos que, numa situação de absoluta aridez econômica, este sonho precisará ser adiado. No futuro será ótimo ter um campo de grande porte para 30 ou 40 mil torcedores do outro lado da cidade, mas enquanto o presente é de contas cerradas – e ainda com o CT a ser concluído -, porque não pensar numa alternativa bem mais barata e palpável? Ah, e uma coisa não anula a outra. Mesmo quando o ex-Maracanã voltar – e é preciso que volte -, a mesma questão de custos fará com que o Fluminense lá esteja em menos compromissos do que de costume.

Que tal pelo menos pensar na chance de trazer o torcedor tricolor ao seu habitat natural, para jogos de pequeno porte? Um rascunho, um pensamento, algo que faça do mais emblemático estádio de um clube de futebol do Brasil uma realidade, mesmo que modesta e pontual. Imaginem se os jogos no respeitoso – mas minúsculo – Los Larios tivessem sido em Laranjeiras com boas condições? Quem tiver dúvidas sobre o que falo, procure na internet as imagens de Brusque x Remo.

Que ninguém perca tempo em usar estas linhas com finalidades politiqueiras ou para alimentar as cóleras insalubres que, infelizmente, esbarramos por aí. Trata-se abertamente de um sonho, um devaneio, uma prosa simples de um torcedor apaixonado pelo estádio, que o vê como palco de alguns dos momentos mais divertidos de sua vida. E que por isso sonha em, um dia, voltar a gritar e torcer no mesmo palco em que seu pai o puxava pela mão e, mais tarde, dialogava como um irmão mais velho.

Simplesmente uma breve divagação sentimental e só.

Conselheiros, beneméritos e dirigentes, eu vos peço três minutos de reflexão sobre o tema. O estádio das Laranjeiras é importante demais para ser deixado de lado, subestimado, ignorado, subutilizado ou até mesmo derrubado para outra finalidade. O tema é bastante complexo, mas merece no mínimo um diálogo sincero a respeito.

Em Laranjeiras, nasceu o futebol brasileiro tal como o conhecemos em sua melhor acepção. Haja o que houver, o estádio não pode ser desprezado. Ele vive, ele ruge, ele precisa de atenção e carinho, de convivência. A pátria da nossa história não pode significar apenas um alfarrábio.

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Poucas coisas podem ser piores do que a hipocrisia de quem não honra o que diz ou escreve. Mas se engana redondamente quem sucede aquela mesma hipocrisia com dissimulação, tratando os interlocutores como idiotas. No fim, o único idiota de verdade é o hipócrita.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: Curvelo/Laranjeiras

3 Comments

  1. Belíssimo texto, Paulo. O Estádio das Laranjeiras é um patrimônio do futebol mundial, é preciso, primeiramente, que nós, tricolores, saibamos do seu valor e o utilizemos da melhor forma.

  2. Ah, Andel, viajei no banco do carona! Mesmo sabendo de todas as dificuldades financeiras, um projeto de revitalização e reabertura do estádio, para jogos de menor porte, não pode ser descartado. Pelo contrário, deveria estar elencado como prioridade.

  3. O não aproveitamento das Laranjeiras para jogos oficiais é insano. É um estádio superior a muitos que são utilizados por aí. E vou além: em jogos de menor expressão, a média de público certamente seria maior do que jogos em Los Larios, Moça Bonita…

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