Botafogo 2 x 3 Fluminense (por Walace Cestari)

Quando abri a porta de casa, já passava das nove e meia da noite. Cansado de mais um dia de trabalho, joguei-me no sofá – não dava para ir ao Engenhão essa noite – e liguei a tevê. Ah, esse time… O vovô estava ali, pronto para começar.

Mas não começou. Pelo menos, não para o Fluminense. Nos primeiros minutos, só o Botafogo jogava e assustava. O time parecia tão cansado quanto eu naquele sofá e tão perdido quanto o governo estadual em busca de uma saída para a crise. Esse meu time, que preguiça.

Não deu outra: com dez minutos, sofremos um gol em uma jogada que nem pode ser chamada de contra-ataque, mas que surgiu de um lançamento que pegou a zaga mal posicionada, lenta e observando a entrada de Roger, ex-Flu, fazer valer a lei do ex.

E aí, o que não vinha bem, desandou. O Botafogo impôs o ritmo, alugou meio campo e levou perigo a nossa meta. Veio a parada técnica (ufa!)e Abel demonstrou alguma irritação quanto ao posicionamento do time, especialmente o da defesa.

A gente tenta acreditar que existe vida sem Orejuela, porém ali a coisa parecia impossível. Mesmo assim, Flu tentou equilibrar o jogo, acalmar-se com a bola nos pés e conseguir volume de jogo. Esse era o time esforçado.

Mas foi punido enquanto atacava. Uma disputa de bola que sobra no meio campo para um contra-ataque rápido do Bota, em cima de uma defesa cuja especialidade de bater cabeça nos levou à lembrança os piores momentos de 2016. Roger ganhou na velocidade, tentou uma, duas vezes e deu o placar do primeiro tempo.

Depois disso, o time reagiu e conseguiu criar oportunidades e teve maior volume. Mas a análise deve levar em conta que o Botafogo se retraiu e resolveu esperar o contra-ataque. Sornoza passou a chamar mais o jogo e o time conseguiu chegar com mais perigo, parando nas mãos estreante Saulo. O apito do fim do primeiro tempo soou como alívio. Esse time não vira, dizia a voz pessimista.

O petisco e a cerveja pareciam o alívio para um jogo que se encaminhava mal. Mas Abel é sempre Abel e fez do intervalo o tempo das mudanças: sacou o inoperante Luis Fernando para a entrada de Wendel e colocou o jovem Pedro na vaga do enrolado Henrique Dourado. Esse time promete.

As mexidas liberaram a equipe no gramado. Wellington e Richarlisson corriam como loucos pelos lados do campo e mostravam que o Flu vinha com vontade para o segundo tempo. E foi coisa de engasgar com os salgadinhos. Em velocidade enlouquecedora, Wellington encara a marcação até ser derrubado. Pênalti cobrado com força por Richarlisson, que fez a bola encontrar o fundo das redes.

Contudo isso não bastava. O Flu estava elétrico e não demorou a Wellington achar Richarlisson e, de um lado para outro, o chute cruzado de do camisa 70 tem endereço certo: tudo igual. Salgadinhos pelo ar, espalham-se por toda a sala. No Engenhão, Abel vibra. “Esse é meu time, esse é meu time”, diz à beira do campo.

E o Flu decidiu não parar mais. Richarlisson, incansável, salva a bola perdida, limpa o marcador e cruza para Renato Chaves – que passou o primeiro tempo entregando paçocas na defesa – se redime e vira a partida. O Flu toma o jogo nas mãos. “Esse é meu time”. A frase já não me sai da cabeça.

E o menino Richarlisson corre. Corre. Lança, marca, chuta. Desdobra-se. Richarlisson é a imagem do time de Abel, é o time dos guerreiros. 3 x 2 no placar, o time decide administrar e controlar o jogo. Menos Richarlisson, que se joga, se doa e se entrega de uma forma que redefine a palavra respeito pelo escudo que leva ao peito.

Mas, mesmo menino, seu corpo lhe disse “não”. As cãimbras fazem o garoto do jogo dar lugar a Marquinhos, que entrou para distribuir o jogo e fazer o tempo passar. E o tempo passou. Um ou outro susto com algumas falhas da zaga, mas nada que deixasse qualquer dúvida sobre o placar final.

Esse é o time de Abel. Esse é o nosso time. Esse é o Fluminense.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri 

Imagem: cw

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