De Chico Guanabara a Antonio Gonzalez, a história dos heróis de arquibancada (por Felipe Duque)

A historiografia até a década de 1920 tinha como principal método de análise as grandes narrativas dos que “mandavam”. Histórias de exaltação de reis, rainhas, cavalheiros da nobreza, depois presidentes, governadores, ou seja, a exaltação da turma do “andar de cima”, daqueles que apenas assinavam o papel, “os grandes homens”. Essa corrente ainda está muito presente, inclusive, nos circuitos fora da profissão do historiador: ela se chama positivismo (foi muito comum no século XIX). Em seu método não cabe a crítica às fontes históricas, mas sim reproduzi-las in loco, sem contestá-las, desde que dissertem apreciadamente do objeto em estudo. Esse método, inclusive, é sempre encomendado por personalidades que desejam construir sua “biografia” sem danos, como alguém “puro”, um ser humano “sem contradições”.

Porém, a partir da década de 1920, um grupo de historiadores franceses desenvolveram e registraram numa revista acadêmica um método que impunha nova abordagem na relação com as fontes históricas, diversificando-as, buscando uma análise crítica e propiciando o reconhecimento de novos atores sociais, além da turma que apenas usa a caneta, dos “homens invisíveis ou coadjuvantes”. O grupo em questão se convencionou nominalmente como Escola dos Annales e viria se tornar décadas depois leitura obrigatória para qualquer graduando de História das centenas de universidades no mundo.

Na historiografia do futebol até os anos 2000 ainda era comum se limitar a primeira corrente historiográfica, o positivismo. Os centros de memória dos clubes tinham como objeto os grandes personagens dentro de campo, artilheiros, grandes jogadores, títulos de futebol. A escola do comentarista da SporTV, PVC, a qual se deve saber a escalação inteira de um time há cinco décadas atrás era lugar comum, mas pouco se falava sobre o que motivava aquele time, os bastidores daquele espetáculo, o modo de vida do clube, a essência do futebol, que não se iniciava e nem terminava dentro das quatro linhas. E quando falamos de Fluminense, todos recordam de Waldo, Rivelino, Assis e Washington, Ézio e, mais recentemente, Fred, dentre tantos outros jogadores que fizeram história nesse clube.

Porém, há pouca biografia daqueles que faziam a festa acontecer, desses feiticeiros de arquibancada que produziam magia. Se um time pulsa, o crédito são a esses heróis que são roteiristas, sonoplastas, editores, contra-regras, ou seja, todas a produção do espetáculo que não influencia apenas as arquibancadas, mas constrói um modo de vida de uma torcida, sua identidade, a forma como olha para o escudo do seu clube.

O primeiro desses heróis, bastante citado pelo intelectual tricolor Coelho Netto, foi Chico Guanabara. Podemos caracterizá-lo como o primeiro torcedor apaixonado da história do futebol brasileiro. Mário Filho o descreveu como um “valentão de chapéu de aba cortada, do alto da cabeça, lenço no pescoço, navalha no cinto, tamanco saindo do pé”. Ninguém ousava falar mal do Fluminense perto dele: como bom capoeirista, “passava a rasteira”.

Morava no Retiro Guanabara, nos fundos da sede do Fluminense, atual Rua Álvaro Chaves. Ocupava a geral. Seus gritos de apoio ao time destoavam do “hip-hip-hurra” ou das madames que torciam lenços. Os juízes se inibiam com seus gritos e os adversários tremiam. Chegou a ser preso em 1915 após uma briga com um torcedor do América por discordar do resultado de uma partida. Coelho Netto enaltecia o espírito de Chico Guanabara, pois contagiava os outros torcedores que perdiam a timidez para gritos mais competitivos, a incorporação de um Fluminense que era mais do que um clube pra piquenique. Um ator fundamental na construção do ethos tricolor nas décadas seguintes.

Medida que seria levado a cabo décadas depois por outro herói das arquibancadas, Antonio Gonzalez. Se há resquícios de competição na torcida do Fluminense em 2020, é porque há sua brasa queimando na exigência desses tricolores. Sua história simples e uma breve pesquisada na hemeroteca da Biblioteca Nacional, em destaque, o Jornal dos Sports, se percebe o quão gigante foi sua participação de um Fluminense vitorioso nos anos 1980. Mas, como dissemos, não nos interessa o dentro de campo, mas o fora dele e a constituição de um modo de vida tricolor naquele período a partir da figura de Gonzalez.

Sua maestria enquanto personagem histórico proporcionou um tripé identidade-exigência-política. O primeiro se deu com as festas nas arquibancadas, onde era um dos regentes pela Torcida Organizada Força Flu. O talco revitalizava uma resistência histórica que é o pó-de-arroz (onde muito se especula a origem, mas poucos se debruçam a estudá-la em sua matriz homofóbica), além dos belíssimos bandeirões e faixas que impunham uma representação à altura do clube.

No âmbito das exigências, conforme afirmei, deem uma leve pesquisada nos jornais da época. A Força Flu, em destaque Gonzalez, era figura proeminente na exigência de um time competitivo, não só junto a dirigentes, mas também com os próprios jogadores, contagiados pela grandeza de jogar em um clube que não se limitava e espectadores, mas torcedores organizados em prol de comprometimento.

Por fim, esse sujeito histórico, Gonzalez, era uma figura política, não só dentro do clube, mas fora dele. A relação com um contexto de “Diretas Já” levada para as arquibancadas e inclusive, dentro do clube, determinou o distanciamento dos chamados “indiferentes”. A luta pela hegemonia do “Football” dentro do clube é outra determinação que deixou lastros, pois, muito provavelmente, sua personalidade a partir desse princípio aliviou que tal bandeira não fosse abandonada nos transformando num mero “clubinho de bairro”.

Entrevista de Gonzalez (primeira da esquerda) após o bicampeonato de 1984 ao JS

Concluindo, a personalidade forte e o amor pelo Fluminense definem para a historiografia a importância de Gonzalez como um patrimônio vivo para o clube, a exemplo do que foi Chico Guanabara na década de 1910, portanto, um objeto a ser estudado, se não hoje, mas nas próximas décadas. Talvez Gonzalez não tenha dimensão da sua importância histórica, enquanto fonte para a compreensão de um novo ethos que foi o Fluminense. Logicamente, estamos falando de um país que escolhe errado seus heróis, isso há alguns séculos. Porém, para problematizar esses erros existem os historiadores; nosso papel é lembrar tudo aquilo que teimam deliberadamente esquecer e, nesse sentido, Gonzalez já é memória e estará sempre registrado no hall dos protagonistas que alicerçaram o clube.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @felipeduqueflu

#credibilidade

4 Comments

  1. Ao Felipe Duque, o meu MUITÍSSIMO OBRIGADO!
    Ao Panorama Tricolor, o Wembley dos sites Tricolores, também o meu MUITÍSSIMO OBRIGADO.

    Fiz a minha parte, tenho a consciência tranquila que sempre fui n direção do que fosse o melhor para o Fluminense.

    Quem foi criança em 1969, 1970 e 1971… quem foi adolescente em 1973, 1975 e 1976… só poderia ter como estandarte um FUTEBOL FORTE e CAMPEÃO.

    Assim nasceu 1980 e o Tri 83/84/85 e o Brasileiro de 1984… Mas não posso esquecer de 1995… a…

  2. bom texto, agora pense;
    Chico guanabara um torcedor símbolo, morava como disse o autor nos fundos da nossa sede, torcedor fanático, membro de uma legião popular de torcedores proletário que suava a camisa para juntar os tostões pra assistir sua paixão o fluminense.
    O nosso amigo Antonio Gonzalez figura presente como o autor declara vem de uma família classe média ( burguês), que com certeza não suava tanto para aconpanhar o nosso fluminense.
    passeou pela Europa, com escala em solo…

    1. Prezado

      1) Trabalho desde os 12 anos…

      2) Coloquei MUITÍSSIMO dinheiro do meu bolso na torcida…

      3) Nunca deixei ninguém na pista. Basta perguntar.

      O Chico Guanabara é imenso. Ele tem a história dele. E, humildemente, tenho a minha.

      Abs

  3. Prezado

    1) Trabalho desde os 12 anos…

    2) Coloquei MUITÍSSIMO dinheiro do meu bolso na torcida…

    3) Nunca deixei ninguém na pista. Basta perguntar a quem viveu de frente.

    O Chico Guanabara é imenso. Ele tem a história dele. E, humildemente, tenho a minha.

    Abs

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