Arqueiros (por Ernesto Xavier)

castilho-antiga

– Goleiro.

– Tem certeza?

– Sim. Quero de goleiro.

– Está bem.

O garoto não sentiu muita firmeza na voz do pai, mas não sabia exatamente o que ele estaria achando ruim. Ele queria um uniforme de goleiro e não de atacante. Na escola, quando todos os outros meninos eram escolhidos primeiro, ele se orgulhava de ficar por último e ir em direção ao gol. Queria estar no pior time para que o adversário sempre estivesse rondando a área e chutasse várias vezes em sua direção. Ele saltava, caía, rolava, chamava atenção da defesa. Ali era o seu lugar. Ficava entediado vendo seu time atacar. Queria ação.

Tinha pouca habilidade com os pés, mas o reflexo apurado fazia dele uma pessoa diferente. Mesmo aos nove anos, já tinha certeza de que local da quadra ou campo gostaria de ver a partida: entre as balizas.

Colecionava figurinhas do Neuer, Ospina, Casillas, Curtois… Não se empolgava muito com os outros. Amava Castilho mesmo tendo nascido em 2006. A internet e a influência do pai, que também não tinha conhecido Castilho, fizeram com que o garoto admirasse não só ele, mas tantos outros que vestiram a camisa tricolor. Um dia sentou com o filho e falou:

– Tem certeza?

-Sim. Quero de goleiro.

-Está bem. Já que quer a camisa de goleiro tenho que te mostrar quem já a vestiu, combinado?

O garoto mantinha os olhos fixos nele.

– Vamos lá – disse o pai – Você precisa saber quem foi Castilho, o goleiro que amputou parte de um dedo para poder voltar a jogar pelo Fluminense.

– Ele tirou um dedo, pai? E como ele agarrava assim?

– Pelo Fluminense ele era capaz de tudo, Gabriel.

– Não só ele. Aqui jogou também Félix, que foi o goleiro da seleção brasileira em 1970, a melhor equipe que o Brasil já formou.

– Uau!

– Está achando que para por aí? Paulo Vítor foi nosso herói em 1984. Eu tinha a sua idade. Gostava muito dele também.

– Você também queria ser goleiro?

– Não, mas era lindo ver com ele fechava o nosso gol. Também tivemos Batatais, Marcos Carneiro, Velloso… Foram tantos, filho.

– Como você sabe disso tudo, pai?

– Seu avô era goleiro, Biel. Não chegou a se profissionalizar, mas era muito bom. Ele chegava todo ralado em casa aos domingos. Eu ia a alguns jogos com ele. Você deve ter puxado a ele, sabia?

– Engraçado imaginar o vovô, de cabelo branco, agarrando.

– Ele era novo. Você acha que ele já nasceu assim?

Riram.

– Pai, na escola me falaram que o Cavalieri é muito ruim, que ele jogou a bola lá na lua, é verdade?

– E você acreditou? Quando falarem mal dele pra você, diga que ele ajudou seu time a ser campeão brasileiro em 2012, que já jogou na seleção brasileira e que ele errou um dia. Todos erram. No dia que você errar, e isso vai acontecer, levante a cabeça e tente novamente. Ser goleiro não é fácil.

– Eu sei, pai. Quero uma camisa dele mesmo, tá?

– Ok. E luvas também, certo?

– Certo.

O garoto ia saindo em direção ao quarto quando virou o corpo.

– Pai, qual era mesmo o nome do jogador que perdeu o dedo pelo Fluminense?

– Castilho.

– Isso. Ninguém nunca fez uma coisa dessas por outro time, né?

– Nunca.

– Gostei dele.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: fluminense.com.br

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