Feliz aniversário, Fluminense! (por Paulo-Roberto Andel)

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FELIZ ANIVERSÁRIO, FLU

Tudo começou há muito tempo atrás, quando Félix era nosso goleiro e adorei seu nome diferente num álbum de figurinhas do meu pai, com os campeões mundiais de 1970. Mais precisamente, quarenta e três anos.

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De lá para cá, o tempo passou veloz e caudalosamente. Das toneladas de pó de arroz aos jogos com cem mil pessoas a certa gourmetização, evangelização política e os públicos diminutos do football moderno. De supercraques e perebas a guerreiros e manchetáveis. De certa empáfia elitista trocada por outra. Céus e infernos, incertezas, dores, alegrias imensas, contestações. Jogos imortais e outros sofríveis, títulos memoráveis e campanhas pavorosas. Gente pobre, sofrida, mendiga. Ricaços, famosérrimos e “bem nascidos”. Tudo. O Fluminense não tem a vocação do mundo de Pollyanna, onde tudo é belo e perfeito. Que nada: é cheio de varizes e cicatrizes, mas também de um rosto da história lindo de morrer. O Fluminense não é água de bidet, fraquinha, mansa, mas rio de correnteza forte aconselhando os peixes novos a terem muito cuidado. História, meus amigos!

É claro que quero ver o Fluminense cada vez maior, fazendo jus a todas as previsões de eternidade do mestre Nelson Rodrigues. Mas é bom que se diga: enquanto isso não acontece, lá estou eu a torcer e vibrar. Foi assim em 1982, quando perdemos para o CSA de Marciano e a Portuguesa da Ilha de Rico, dentre outras pérolas – mas também vencemos o Flamengo no último minuto, com um gol de Amauri, depois de termos levado uma sova no primeiro turno. Das grandes finais e títulos, quase todo mundo se lembra e eu estava em quase todas elas: dos cariocas, só perdi ao vivo 1985 e 2012. Dos quatro Brasileiros, vi dois no campo, acompanhei tudo de três e, pela junção de sorte com destino e algum talento, pude escrever o primeiro livro no Brasil sobre 2009/2010, consagrado como o tempo do Time de Guerreiros.

Embora tenha lá minhas peculiaridades, pensando em quarenta e três anos, decorreram 15.695 dias. E eu não deixei de pensar no Fluminense em nenhum deles, navegando pelos passados e presentes, sonhando com o futuro, querendo o melhor, torcendo, torcendo, torcendo. Não para o sucesso pessoal de dirigentes e seus grupelhos, nem especificamente por um nome só, mas pelo Fluminense como um todo: sua história, sua gente, sua elite que pode desfilar em salões nobres e também em vielas das favelas. Aquele escudo que passa por todos os lugares e vai do peito de um general reacionário ao mais romântico dos comunistas – USURPADOR É O MEU CARALHO! Gatas lindas, rapazes sagazes, velhinhos que viram Valdo e Didi, gente que viu o Fla-Flu da Lagoa – Gávea porra nenhuma!; sobreviventes da final de 1950 que ficaram completamente vingados em 1952, campeões do mundo que foram. Era o Fluminense, meu senhor!

Gente que entendeu que a Máquina era poesia, jazz e muita doideira. Garotos que enlouqueceram com o timaço de 1980 comandado pela força jovem de Edinho, os golaços de Cláudio Adão – o melhor camisa 9 que vi no meu Fluminense –, a dedicação de ferro de Rubens Galaxe. Eu era uma dos meninos daquele tempo e passei a perseguir o Tricolor para sempre – ele foi meu Bob Dylan de uniforme, chuteiras e coração.

Pelas décadas, o meu Fluminense foi senhor dos tempos, invencível até na hora dos piores resultados e da morte anunciada – ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus, voltou à Terra e mostrou que ainda era fullgás demais. Bem disse o gênio Marcos Caetano: “Não há divisão capaz de tragar o Flu”. Não mesmo. E tenho saudade até dos tempos do time proletário, mesmo com aqueles nove anos sem títulos, que muitos definem como uma época pavorosa, provavelmente desconhecendo que, no período em questão, disputamos várias decisões cariocas e chegamos imensamente perto das nacionais. Explico o meu sentimento: o time era humilde, mas tínhamos nosso Super Ézio e ele era um rigoroso Fluminense – elegante, humilde, simpático, o herói que todo jovem ou criança sonhava ser. Mais à frente, homens, mulheres e crianças se derreteram por Fred, seus gols imortais e sua lida.

Gente que chorou e sorriu, viveu e morreu com nossos gols nos últimos minutos, nossas conquistas que deixaram jornalistas com cara de torta de amendoim, manchetes rasgadas em cima da hora e os editores muito putos. Que chorou e sorriu com nossos quases, até que de 2007 a 2012, vivemos alguns dos mais espetaculares capítulos que um time de futebol poderia no mundo: matar ou morrer. Houve quem pensasse que o Fluminense estaria morto depois da final da Libertadores de 2008, sob santa ingenuidade. A derrota às vezes se aproveita da nossa imagem para curtir quinze minutos de fama, nada mais. Como pode ser mortal com aqueles golaços de Dodô contra o Arsenal e Washington contra o São Paulo? Nunca! Somos maiores do que a óbvia história nos momentos cruciais.

Meu pai, que me levou a trinta jogos e me soltou pelo mundo das três cores imortais. O Luizinho, meu amigo desaparecido que me acompanhava nos jogos mais estapafúrdios e vazios. O outro Luizinho, meu amigo de sempre, agora também meu parceiro literário. Minha mãe, que virou Fluminense para me ver feliz. Ver jogos do lado da Fôrça Flu, no alto da Young Flu, na Fiel e tantas outras mais.

O meu Fluminense mora nos meus queridos times de botão, nas saudades de um Maracanã assassinado, em grandes tardes na arquibancada íngreme das Laranjeiras – que espero um dia vê-la de volta, rediviva -, em páginas e páginas que escrevi, nos abraços que pude trocar com alguns dos meus maiores ídolos conhecidos: Pinheiro, Castilho, Gilberto Gil, Ítalo Rossi, Ivan Lins. E os próceres dos estádios, os líderes da massa e mesmo qualquer garotinho humilde e pobre como eu era, sonhando com um cachorro quente Geneal e um copo de espuma de Coca-Cola vendido pelos astronautas, todos de branco, caminhando por cima do invencível concreto do Mário Filho.

Debaixo daquela tempestade contra o Náutico na terceira divisão, eu me senti tricolor pacas. Éramos nós contra o mundo. Nisso, pioramos: agora somos nós contra nós mesmos. Este ser humano que destrói suas melhores coisas…

Por causa do Flu, tenho tido inúmeros momentos felizes. Conheci centenas de pessoas muito legais, vivi experiências sociais fantásticas e, embora noutro curso, consolidei minha carreira de escritor. Rodei o mundo e finalmente montei esse cafofo chamado PANORAMA, onde você, sendo fanático(a) pela leitura, pode se deliciar com quase dez mil páginas sobre o Tricolor das Laranjeiras. Assim sendo, sou imensamente grato a você que nos lê.

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Para finalizar: eu procuro o Fluminense no jazz, no Concretismo, na poesia marginal, nos livros cult que quase ninguém leu, nas notas de jornais velhos, sem um arranhão da caridade de quem me detesta, sem recíproca, pois tenho apreço aos animais irracionais, até mesmo aos ladrões de oxigênio da Terra. Nestes palcos inesperados é onde o nosso escudo se agiganta e me remete ao velho Batsinal nos céus de Gotham City. Pode ser também numa tampinha de garrafa, numa folha de papel recortada por um garotinho feliz, num leito de hospital à beira da morte ou debaixo de um viaduto. Também na bela bandeira à janela de um apartamento da Avenida Atlântica, no Leme, coração do Brasil. Na porta da Vila Aliança. O Fluminense está em todos os lugares e não tem dono – é uma pátria livre, a ser entendida por alguns amadores da empáfia que se julgam profissionais.

Dois bebuns sentados também na Atlântica, à beira-mar, enquanto as garotas de programa procuram trabalho e o mercado da cocaína corre solto. Um, de camisa das três cores, se lembra dos tempos de Ézio; o outro diz que que 2010 foi demais; os dois querem ver mais negros nas fotos de campanha das redes sociais. Um dá um trago num baseado modesto, o outro ri, os dois se abraçam e riem muito quando um ciclista da madrugada, praticamente doidão, vem do sentido Leme-Posto Seis e passa gritando: “Que se foda tudo: eu quero ver é o Fluzão campeão nessa porra! Vai, Ceifador!”

Aquele gol do Barthô em 1912, o empate em 2 a 2 na Lagoa em 1941, o Mundial de 1952, o 3 a 2 de 1969, Assis, Assis, Renato, Fred, tudo. Partidas no subúrbio às três da tarde (os refletores não funcionavam com a inflação a 47% a.m.), partidas esvaziadíssimas no Maracanã quase tenebroso – em 1994, contra a Portuguesa, eu e meu amigo Flávio Souza, o “Assustado”, vimos a vitória por 2 a 1 com outros 600 torcedores depois de um dia de dilúvio – e ali nasceu o grande campeão de 1995, mas nenhum de nós sabia.

Por isso e tudo mais, sem cortes nem edições inglórias ou espúrias, feliz aniversário, Fluminense do meu amor. O Fluminense do meu coração, que não confundo com flubabacas de ocasião.

SEISCENTAS COLUNAS E AGRADECIMENTOS

Mil e duzentas páginas. Ou quase. Ou mais. Dá uma antologia. Uau! Mas, no fim, é apenas um número, que não serve de detestável autobustificação. Nada pode ser mais ridículo do que um autopromotor das qualidades – Chiquinho Zanzibar que o diga.

É apenas a celebração de um trabalho voluntário, feito com todo prazer numa casa de literatura com velhos amigos, outros novos e gente de talento.

A todos os amigos, cronistas, colaboradores, leitores e fãs deste PANORAMA, e também a Gustavo Albuquerque e Dedé Moreira (Globoesporte-Flupress); Fagner Torres (ESPN); Leandro Dias e Paulo Brito (NetFlu), Nelson Ferreira e Antonio Gonzalez (Observatório do Fluminense); Dhaniel Cohen e Heitor D’Alincourt (Flu Memória) Ricardo Mazella (TV Brasil); Gabriel Peres (TV Flu); Claudio Kote (Rádio Flu); Beto Meyer, Gustavo Valladares e Sergio Duarte (Torcida Tricolor/Rock Flu), mais Marcelo Savioli (O’Tricolor) e Hugo Ottati (Central Tricolor), um grande abraço e meu apreço.

Há muitos outros nomes. Que todos se sintam representados por Zeh Augusto Catalano, certamente o melhor vascaíno que poderia construir um grande blog sobre o Fluminense, tendo feito isso por ser meu amigo há 26 anos – e este final serve para exaltar o bem mais precioso dessa vida: a amizade.

Mágoas, arrogâncias, invejas, constrangimentos, autopromoção, tudo isso soa pequeno demais, insignificante demais quando o assunto é amizade. AMIZADE.

A vida é isso. As grandes histórias ficam, os homens de pequeno espírito fenecem e o Fluminense, essa ideia fantástica de 114 anos, aí está. E vai continuar. Amanhã há de ser outro dia, mas a paixão é permanente.

Se a saúde permitir, serão duas mil e quatrocentas.

CENSURA AO NETFLU

Uma covardia. E a história é implacável com os covardes. Aí estão 2013/2014 que não me deixam mentir.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: rap

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11 Comments

  1. BOA NOITE MEU NOBRE AMIGO PAULO ROBERTO ANDEL, COMO SEMPRE VOCÊ NOS EMOCIONANDO A CADA PALAVRA DE SEUS BELOS TEXTOS, REALMENTE SER TRICOLOR É ALGO DIFERENTE, QUE VEM DE DENTRO DO NOSSO EU, QUE NOS FAZ ENXERGAR A BELEZA DE TODA ARTE ESCRITA NA POESIA DO FUTEBOL, QUE A CADA FRASE A PAIXÃO POR ESTE CLUBE SÓ FAZ AUMENTAR, POIS AQUI NÃO SE FALA SOMENTE NO TRICOLOR, POIS JÁ SOMOS A VERDADEIRA HISTÓRIA DO FUTEBOL, MAIS O VERDE, BRACO E GRENÁ NÃO SÃO SOMENTE DETALHES, E SIM UM SENTIMENTO SEM IGUAL !!

  2. Excelente texto como todos do panorama e obrigado pela homenagem meu nobre amigo Andel pessoa a qual tenho um orgulho enorme de fazer parte do ciclo de amizade!!

    A torcida tricolor agradece a vcs do panorama por todas as obras literárias tricolores.

  3. Excelente texto, só quem realmente entende de Fluminense pode escrever desta maneira.
    Só não concordo com o último parágrafo. Como apoiar um site que quer prejudicar a instituição Fluminense por uma questao pessoal ?
    A imagem do clube arranhada por um vídeo ridículo, rodando o Brasil, o mundo.
    Devemos preservar a imagem do clube
    Problemas internos se resolvem internamente. Lamentavel

    1. Andel: Caro Euzébio, há uma diferença entre resolver problemas internamente e fazer o papel de imprensa oficial do clubel, a popular “chapa branca”. Todos sabemos que o problema com o NetFlu não foi provocado por um vídeo de mosquitos. Abraçaço.

  4. Paulo, como sempre brilhante. Claro que um dia o melhor livro sobre o nosso Fluminense será a edição de suas crônica numa coletânea especial. Vá, o caminho é de seu gênio, já não lhe pertence fisicamente mas a uma causa tricolor.

  5. Que venha a milésima ducentésima crônica.

    Quando ao NetFlu covarde, o tempo dará cabo dele… Não se faz jornalismo com o fígado. Aos caças mosquitos tricolores que curtam o Centro de Treinamento do Fluminense, puta legado dessa gestão, da mesma forma que eu curti o t[itulo da Primeira Liga.

    Política não se faz assim.

    A baixaria começou.

    Vida longa a você e ao Panorama Tricolor.

  6. O que aquele mané pretende ao levar cinegrafista para filmar insetos nas paredes do clube.
    Aliás, são apenas insetos inofensivos e não mosquitos.
    Sabem por quê?
    Reparem que eles se locomovem pelas paredes e mosquitos não andam; apenas voam e pousam.
    É muita sacanagem com a administração atual e, por isso, sou a favor da proibição quanto a equipe tendenciosa do NETFLU fazer suas reportagens, que, a propósito, não são reportagens, e sim, uma tremenda de uma putaria.

  7. Testemunha presencial de algumas de nossas grandes conquistas do passado (Fla 2 x 3 Flu de 69, Taça de Prata de 1970, Flu 1 x 0 Bota em 71, …) sou leitor assíduo do PANORAMA, e neste dia do aniversário do nosso Fluminense, dou também meu parabéns ao Andel (legítimo discípulo do nosso grande Nelson Rodrigues), ao Caldeira a todos os participantes desse nosso site.

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