Amor de Flu, língua de trapo (por Paulo-Roberto Andel)

ANDEL RED NEW

PARTEUM

Não carrego mágoas de ninguém. Mesmo. Tirando assassinos e estupradores, acho que o resto da humanidade ainda tem jeito. Posso fazer piadas, sacanear, mas o rancor não tem espaço no meu coração. Deve ser por isso que meus ex-inimigos me adoram: já testemunharam o fato in loco.

Passada a raiva do jogo contra o Coritiba e de tudo que tinge o Fluminense com as cores da mediocridade, aí está a primeira segunda-feira do segundo semestre. Tempo de renovar esperanças, por mais que a realidade insista em negar esse tal direito de sonhar.

Hoje eu vou falar de amor. É sério. E para fazê-lo, é preciso limpar qualquer resquício de mágoa.

Que se danem o presidente pinóquio, o ex-vice deslumbrado, o ex-patrocinador caloteiro e fascista, o jogador traíra, o pedante da politicagem, o ex-craque falso, o lambe-lambe de merda, o empresário picareta, o blogueiro amante do Chiquinho, o pseudo-dono do clube, o pseudo-dono da torcida, o treinador língua de trapo, o candidato almofada, o sócio feudalista, a turma da boquinha, o puxa-saco garantindo empreguinho, o mecenas enrustido, o assessor analfabeto, o maior torcedor de todos, o menor de todos e gente insignificante – mas sensata – feito eu. Danem-se de verde, amarelo e panelinha na mão. De mãos dadas, pois. São apenas gente na mesma arquibancada, se arquibancada houver. Nunca vão entender o que é uma torcida de verdade.

Tudo é transitório. Não somos donos nem das nossas vidas, dos corpos – que vão apodrecer ou virar cinzas um dia -, de nada. Para que ter empáfia, peito de pombo, soberba, se o único futuro garantido é a morte?

Quem disse que ter dinheiro e poder significa assegurar a propriedade do Fluminense?

Ou quem realmente acredita nessa idiotice de se sentir “mais tricolor do que o outro”?

É tudo uma estupidez.

Hoje é uma segunda-feira e meu coração celebra o outro Fluminense, incapaz de ser compreendido pelos pernósticos, arrogantes e limitados mentais. Também não entendido pelos boçais que resumem tudo a dinheiro. Do decantado Fluminense da elite, nada preciso dizer porque os papagaios repetem os causos há décadas. Já está escrito.

Tudo bem: uma concessão ao chacoalhar de joias e sobrenomes no Salão Nobre. Certa vez, entrei lá como intruso social, peguei um diploma e, sabe-se lá por que, fui aplaudido de pé. Outras palavras, outro Tricolor então.

Aquele Fluminense, rapaz, espalhado pelos vagões antes de chegar à Central do Brasil em corações guardados entre pacotes de biscoitos e balas, em caixas de engraxates, em camisas não oficiais.

O Fluminense do quarto do porteiro no playground. E do radinho de pilha do vigia da madrugada. Do escudo de plástico na banca de jornais e revistas.

O Fluminense do velho Fusca numa avenida suburbana, no peito de uma pipa, na porta de uma birosca mesmo com o escudo torto.

Que sua em conduções lotadas e tem c. c. Que é abrigado em tatuagens de um milhão de corpos, do marombeiro à linda garota de programa, passando pela cafetina que o carrega na panturrilha nas imediações da rua do Senado.

Eternizado numa camisa tricolor rota vestida por um mendigo encostado num coqueiro na praia de Copacabana.

Deitado num leito, desenganado, esperando as horas que antecedem o êxtase da morte. Chorado numa capela de cemitério.

Publicado em livros que poucos vão ler, alguns vão ver e quase ninguém vai entender. Impresso em mil arquivos mortos de redações que deram adeus.

Tricolor em toda terra, a começar pela porta da Vila Aliança, com direito a registro autorizado pelo sentinela do tráfico, nosso torcedor, é claro!

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O Fluminense dos negros, dos favelados, dos homossexuais perseguidos, das vítimas da cidade partida e estuprada. Dos menininhos pretos que esmolavam no Maracanã em algum lugar de 1975 ou 1981. Da geral, a velha geral, onde torcer era muito mais do que viver.

O “horripilante” Fluminense da esquerda, com seus Chicos Buarques, Gregórios, Chacais, Fagners, Dedés e companhia limitada.

O Fluminense do Nordeste, das noites do Norte, da Baixada Fluminense que o respira em seu próprio nome. Dos torcedores das minúsculas cidades brasileiras que jamais verão o time do coração num campo local.

O Fluminense cheio de varizes, rugas, cicatrizes e sorrisos com dentes falhados, até banguelas, não importa.

Isso tudo compõe também uma verdadeira elite. Da vida. Da rua dos amores. Familiar a milhões.

Quem não entender que o Fluminense é muito mais do que um feudinho, talvez possa até arruiná-lo temporariamente, mas seu pior crime será contra sua própria pessoa, garantindo lugar no submundo da história tricolor. E perdendo o VLT da história.

Ele, o Flu, é muito grande para caber nas mãos de elitezinhas, grupelhos, senhores da verdade oca e recalcados que veem na plataforma do ódio a única realização de suas vidas opacas.

Enfim, falei de amor.

O peito já bate forte para o jogo contra o Ypiranga.

Pensei no meu radinho de 1979, dado de presente pela minha amada mãe, ouvindo Toinzinho e Carlos Roberto. Eles jogavam demais. Eu acredito nisso e estou aqui.

O Fluminense é a casa dos amores e não o palácio dos rancores. Aos ridículos tiranos da intriga, um sorriso de réquiem.

PARTEDOIS

Antes de qualquer coisa, é necessário dizer: Levir é dos bons treinadores que temos por aí. Conquistou títulos, montou bons times e certamente tem um desempenho bem melhor à beira do campo do que nos tempos de becão da roça (fato contestado pelo imponente Chiquinho Zanzibar). Não há dúvidas de que é o melhor dos treinadores do Fluminense desde a saída de Dorival Júnior em 2013 (basta ver a lista e, em especial, os dóceis treineiros que tiveram de se submeter aos caprichos do incontestável ídolo Fred).

Antes de vir para o Flu, era contestado (com justiça) por muitos tricolores em função de suas declarações no passado, impróprias para o time e a torcida. Mágoa superada, abraços fraternos e, diante de um excelente contrato, o crítico feroz deu lugar a um tricolor temporário de fé em riste. Ah, o amor…

Chegou ao clube e logo o time melhorou, a ponto de ter conquistado de forma improvável a Primeira Liga, desfalcado de seu jogador mais importante, pelo que o treinador merece todos os parabéns. Depois, por um, dois, cinco ou dezessete motivos, muitos sabidos e outros desconfiáveis, a coisa desandou no gramado e exige recuperação rápida.

Termina o insosso empate diante do Coritiba, respeitável clube que há anos só almeja a permanência na primeira divisão, e lá vai Levir para a entrevista. O bom humor às vezes excessivo dá lugar ao enfezado:

“Eu discordo completamente dessas pessoas. Porque tudo depende do resultado. Enquanto tivemos resultados, não se comentava nada. Alguém está esperando justamente uma oportunidade dessa para aproveitar o momento político do clube. Quem foi melhor do que nós nesse jogos? Um ou outro time que teve uma superioridade e venceu. Ninguém, praticamente, dominou o Fluminense. Tivemos oportunidades de vencer todos os jogos que disputamos. Então acredito no grupo que nós temos. Quer gastar 1 milhão por mês com um jogador? Tudo bem, para mim vai ser ótimo. Agora vai lá no Fluminense e administra o Fluminense e paga um milhão por mês para um jogador. O time do Fluminense, hoje, não tem a expressão individual que teve há algum tempo atrás. Mas não está falido. Não está falido por pouco. Por pouco. Temos bons jogadores, um time equilibrado. Precisamos é de apoio. Se não nos unirmos agora, vai ficar bem mais difícil. Se nos unirmos, será bem difícil, mas podemos fazer um grande campeonato ainda.”

Faltaram bom senso e timing ao treinador. Primeiro, é funcionário contratado do clube e não de seus dirigentes. Segundo, desviar o foco da queda de rendimento do time em direção a questões do jogo político parece, no mínimo, uma tremenda canelada: não é sua tarefa criticar política para agir como cabo eleitoral enrustido, involuntariamente ou não. E o pior de tudo: lições de moral na torcida, logo ela que vem de anos sendo sacaneada e, infelizmente, está desmobilizada no momento. A torcida é para ser cativada, atraída e não repelida. Desde 2012 ela tem comido o diabo que o pão amassou. União à base de esporro, treinador? E se o caso era palpitar sobre um milhão por mês a um jogador, que tal falar dos salários de seu milionário zagueiro nórdico?

Com mínima autocrítica, Levir teria entendido que só não tínhamos sido trucidados, mesmo, nos primeiros tempos dos jogos contra Flamengo e Santos, porque o primeiro finalizou muito mal e o segundo fez apenas dois. Isso explica a intolerância da massa tricolor, que não é obrigada a aplaudir egolatrias e desaforos.

É claro que o torcedor não reclama quando há bons resultados. É para isso que ele torce, pelo menos se o seu coração tem amor por um grande clube. E, mesmo enfraquecido, o Flu tem time para ficar várias posições à frente na tabela atual.

Não foi a torcida que fez desabar a outrora melhor defesa do campeonato. Ela também não contratou o Maranhão, escalou o Osvaldo, manteve Henrique e Giovanni, nem cedeu Marlon e Fred. Se o problema atende pelo nome de escassez de nomes, é algo que o treinador deveria ter avaliado antes de dar sim às Laranjeiras. Não está fazendo trabalho filantrópico, mas sim recebendo ótima remuneração.

Todo mundo erra no mundo, e no Fluminense não pode ser diferente. Quem não erra, mente. Você conhece alguém assim?

Levir é boa praça, bom treinador e ainda tem muita lenha para queimar, mas deixar o deslumbramento de lado será fundamental neste caminho do Fluminense. Quem não gosta de pressão da torcida por resultados, que trabalhe em clube pequeno. Uma breve espiadinha no passado recente de ufanismos estrambóticos e abraços eleitorais pode ser decisiva para o aprendizado do comandante, com menos estrelismo, fanfarronice e mais ação. Trocando em miúdos: sem língua de trapo.

Afinal, na hora em que os camundongos abandonam o navio, o papagaio de pirata é o primeiro a ter a garganta cortada.

PS: Gum também falou muita besteira, mas tem crédito. De toda forma, os sete anos de clube poderiam tê-lo ajudado a evitar o papel de Matraca Trica.

PARTETRÊS

#SkylabRules

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: rap

2 Comments

  1. Parabéns meu querido, pela analise sensata do momento vivido pelo tricolor.
    Infelizmente hj, temos que conviver com esse time ridículo, cujos jogadores, medíocres, precisam ao menos se entregar mais durante os jogos.
    O que fizeram com o Marlon, foi uma puta sacanagem, uma vez que tratava-se do melhor zagueiro do elenco, que acabou saindo desvalorizado.
    O mínimo que eles tem que fazer, é deixar o clube na divisão de elite do falido futebol brasileiro.
    Abraço.

  2. A marcha do enterro da Grande Cafetina ouve-se agora, mas suas exéquias serão celebradas em dezembro.

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