Alguém me entende? (por Mauro Jácome)

 

18h15. Correria, pega filho aqui, esposa ali, engarrafamento acolá… 18h45, 19h00, 19h15, em casa. Roupa para um lado, mochila para outro, radinho no ouvido e pronto, no sofá. Na bucha! Jogo às 19h30 é assim: tumultua a vida da gente. Nem dá tempo de imaginar como será. Vamos ao “campo” sem traçar uma estratégia, a estratégia de torcedor. Tudo se embola num atropelo de fatos. Quem está ao lado não entende.

– Por que isso? Só por causa de um jogo de futebol? E nem é final! Contra a Portuguesa? De onde é?

– Ai…

– Rooooooolou a bola… – grita o radinho.

– Começa o jogo – fala a TV.

Os sons se misturam. Estou acostumado. Um ouvido na TV, outro no rádio. Treino, muito treino. 50 anos assim. E quando ainda tem o mosaico…  Adoro a tecnologia.

Logo de cara, dois sustos, duas chances para a Portuguesa. Cavalieri, para variar, sensacional. Que goleiraço! A zaga do Flu já deu seu recado: “hoje vamos dar muitas emoções. Para ambas as torcidas”.

Até os 15′, o Fluminense teve as rédeas do jogo. Poderia ter aberto o placar. Nem apareceu na cara do Dida. Chutou em cima do goleiro.

– Era para driblar, garoto. Em velocidade… – oriento.

– Caramba! Não pode perder um gol fácil assim – ralho.

Gum faz lambança. Cavalieri sai do gol no desespero. A bola passa, Gum corta.

– Hoje daremos emoção – lembra a zaga.

Depois desse lance, a Lusa cresce. Vai para cima. O Flu recua. São nove na área, dois na frente, ninguém nosso na intermediária. Um espaço preenchido pelos portugueses. Era a nossa Baía de Todos os Santos. Estamos novamente colonizados…

– Galera, sai da área, marca mais à frente – tento orientar.

Diguinho vai dando seu show particular. Um espetáculo de horrores. Passes errados, passes errados, passes errados. Abel tinha falado da dúvida entre o surfista e o roqueiro no lugar do Wagner. Foi de surfista.

– Era melhor ter entrado com o Sóbis, né, Abel?

Belo lançamento para Fred. O artilheiro mata no peito, escapa a bola, recupera e, quando vai virar e fuzilar, o zagueiro segura, derruba-o, segue o lance.

– O zagueiro e o Fred trombaram. Não foi nada. Lance normal – fala a TV.

Normal? O jogo da TV é diferente do real? Do de dentro do campo? Para os comentaristas parece ser. Os caras brigam com as imagens. Nós somos os sparrings.

– Eu tô vendo o jogo, camarada! Replay, replay, replay e o cara diz que não foi nada? Se aquilo não foi pênalti, o que é então? Rasgou as regras, infeliz!? – disparo contra a TV.

Passe errado do Diguinho. A bola volta, a defesa corta, Diguinho erra o passe. Bruno retoma, passa para Edinho, que passa para Diguinho, que erra o passe. Com exceção dos passes errados do Diguinho, nada mais se destaca. Jogo morno. A Portuguesa se sente melhor, mas respeita o líder. Tem medo de pagar o preço da ambição contra alguém que lhe é muito superior. Naquele dia, no papel, pelo menos.

Edinho paga geral para o Diguinho.

– Ô surfista! Preste atenção! Está comprometendo aqui atrás – esbraveja o “ex-pior” do time.

Diguinho tenta argumentar. Argumentar o quê?

– Cadê o Bruno?

– Bruno? Quem? – o além responde.

Como o mundo dá voltas! Aquele Wagner tão criticado por muitos, está fazendo uma falta enorme ao time. Não me incluo neste grupo. Falo, desde que chegou, que era preciso tempo para a adaptação. Aí está. Imprescindível agora. A agilidade, a saída certa da defesa para o ataque e, principalmente, o passe certo e rápido. O time está muito instável. Instável porque o Diguinho está em campo ou porque o Wagner não está? O ovo ou a galinha?

– Digão, joga simples! – reclamo.

Digão se preocupa tanto em mostrar “catiguria”, que atrasa o movimento e sempre dá a impressão de que vai perder a bola. Numa dessas…

Toca a campainha.

– Galera, alguém atende! Quem é essa hora?

Olho no relógio e já está acabando o primeiro tempo. Ainda bem. 5 minutos para o fim do primeiro tempo.

– Oi, tudo bem.

– Bem…

– Assistindo ao jogo?.

– Óbvio – penso.

– Sim – respondo.

– Você é tão antipático quando está assistindo aos jogos do Fluminense! – escuto ao longe.

– A intimidade é uma m… – penso.

– Olhe a tabela do campeonato antes de vir – respondo assumindo a intimidade.

Olho no relógio: 44’. Dois de acréscimo.

– Daqui uns três minutos vou estar simpático.

– É contra o Flamengo? – sou obrigado a ouvir.

– Ahn? Ficou louca? – continuo na intimidade.

– Essa camisa é do Flamengo – típico comentário do pessoal alienado. Só faltava perguntar porque um jogador tinha camisa amarela no meio do campo…

– P… Q… P… É vermelho e verde! Portuguesa! – respondo calmo.

– De onde é esse time?

– Ai… – resigno.

Fim do primeiro.

– Pronto. Aproveite a minha simpatia por 15’ – dou uma canja.

Voltando ao jogo, em resumo, primeiro tempo horrível, Diguinho horrível, zaga horrível.

Vamos para o segundo tempo. Nem deu tempo para o xixi. Fazer sala logo, para adiantar as coisas. Abel troca o surfista pelo roqueiro. Entra o Sóbis. Abel manda a visita embora também. De volta à antipatia, mas, agora, sem ninguém para reclamar…

– Rooooooolou a bola… – Agora foi só imaginação. Desliguei o rádio no fim do primeiro tempo. O cara falava muito mal do Fluminense. Só eu posso criticar.

– Começa o jogo – fala a TV.

O começo é equilibrado. Bola pra lá, bola pra cá. Banho-maria.

– Estou achando o time cansado. A maratona… – comento comigo do outro sofá, também comigo na cadeira da mesa, comigo em pé e, ainda, comigo mesmo. Assistir jogo em casa, só, a gente pensa que está no estádio. Somos vários “eus” lado a lado. Imagina explicar isso a alguém? Ainda mais para quem não sabe de onde é a Portuguesa de Desportos!

Thiago Neves erra tudo. Passes de meio metro, passes longos, cruzamentos. Efeito Mano Menezes?

14’ e quase gol da Lusa. Flu completamente dominado. Um erro atrás do outro. Muita sorte de não estar perdendo. Os jogadores da Portuguesa pareciam em maior número. Pouco depois, quase gol do Flu. Belo chute do Carlinhos. Digão atrasa os movimentos para mostrar sua “catiguria”.

– Ainda vai perder essa bola – todos os “eus” pensam a mesma coisa.

– Sóbis? Cadê o Sóbis? Rock e surf combinam até no futebol.

O time continua não funcionando. Os passes são para o nada. Os jogadores correm para o nada.

– Hoje não sai nada. 25’ e nada. O Atlético vai passar a gente – desespero-me. A mão está molhada. A frequência cardíaca bate além dos 100. O juiz erra contra o Fluminense.

– Errar é natural, mas quando erra só contra a gente é o quê? Os “eus” sabem a resposta.

28’. A bola é cortada pela defesa lusa e… Ele, ele, ele: Jean. Que categoria! Isso é categoria! Que visão! Belo gol. Gol de quem sabe. Tiro o chapéu para ele novamente. Ainda abraçando os “eus”, quase gol de empate. Por pouco, muito pouco. A defesa havia prometido emoções. E está cumprindo.

– Agora vem sufoco. Bom jogador esse Luís Ricardo – falo.

– Perigosíssimo – “eus” respondem.

30’. Nem, Nem, Nem. Bobeira do zagueiro, esperteza do baixinho. Que drible!

– Tinha que ter sido assim no primeiro tempo – lembrei.

Gol da Lusa. Impedido. Gol anulado, 2 x 0 ainda. Impedido, mas, mesmo assim, vacilo da defesa. Sempre ela…

– Os caras estão se criando em cima do Bruno – reclamo.

– Bruno? Quem? – respondem.

– Acorda, TN10! – reclamamos.

Sai TN10 e entra o Fábio. Por que não o Higor? Jogo para ele. Ganhando o jogo, a Portuguesa toda se mandando, espaços, bom para quem está começando a vida. Jogo à feição para ampliar a vantagem. Mas a Lusa não desiste. Vai para cima.

– Se tomar um gol agora… Em Florianópolis foi assim – lembro e me irrito.

39’. Cavalieri sensacional. Que goleiraço! Na trave do Flu. Que sorte! Sóbis entra sozinho, é a chance do terceiro, é só fazer, é só passar…

– Brincadeira! Não pode perder um gol assim. Displicência.

Os lances vão se sucedendo. Agora é lá e cá, e cá e cá. 41’. Que jogada linda! Nem, Jean, Quase-Fred, quase gol. Ia ser de placa. Lá vem a Lusa. A nossa defesa está cheia de buracos.

– Sorte que a Lusa teve azar – penso alto. Rio de mim mesmo.

– Ai… – pensam os “eus-outros”.

43’. Higor bate de fora.

– Isso, garoto! – grito para o projeto de ídolo tricolor.

– Anotem aí. Esse menino vai nos dar muitas alegrias… – eu falo alto.

– Em todo jogo você fala isso – repetem os demais “eus”.

Fim de jogo. Fim de sufoco. O time não jogou bem. Penso na frase de meu amigo Luciano, pernambucano roxo, Santa Cruz fanático:

– Meu time tem que ganhar. Quem tem que jogar bem são os outros.

Mauro Jácome

Panorama Tricolor/ FluNews

@PanoramaTri

Imagem: Extra

Contato: Vitor Franklin

Revisão: Rosa Jácome

11 Comments

  1. Sensacional !!! Muito, muito bom ri demais da conta, muita identificação !!! Parabéns !!!

  2. Fiquei angustiado lendo seu comentário do jogo. É como estar assistindo. O Flu mostra a cada jogo que está com a sorte dos campeões. Porém, mais do que isso, está encardido na liderança, não larga de jeito nenhum e vai mostrando que o time é forte mesmo quando dominado.
    Parabéns pela matéria, mas da próxima vez não me angustie tanto.

    1. Obrigado. Angústia mesmo é ver o Fluminense nesta situação. Quando o Fluminense está enganando no campeonato, fico tranquilo, assisto aos jogos na boa. Agora, quando está disputando o título para valer, fico com muita ansiedade. Cada jogo é um martírio. Medo de perder, sei lá. Enquanto estava 0x0, ficava imaginando o Galo ganhando do SP e assumindo a liderança. A Rosa mesmo fala: prefiro quando o Flu não está tão bem. Você fica muito mais tranquilo. Atualmente, estou um saco. Minha vida está girando em torno do Fluminense.

  3. Fica tranquilo, Mauro!

    Eu falo isso do Higor desde o começo do ano e dane-se quem não quiser ouvir…hehehehe!

    ST!

  4. Grande Mauro,

    Espetacular. Abusou na “catiguria”. Há muito eu não me divertia tanto lendo um texto.

    Sobre o Higor, pode contar que você não é o único. Nós saberíamos que ele é craque mesmo sem nunca o termos visto jogar antes.

    Mas isso só a gente entende. rs

    St

    1. Obrigado. Estou gostando da política do Abel com a garotada. Aos poucos, vai ambientando-os. Um entra aqui, outro ali. Sem desespero, sem pressão. Parece que, de bobo, o Abel só tem a cara, o andado e o jeito.

  5. Ao que tudo indica sim, Higor está escalado para amanhã.

    Pode ser que de última hora o Abel escale o Sóbis, mas vamos torcer pelo garoto!

    ST!

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