A última homenagem (por João Marcelo Garcez)

A última homenagem

No carro com minha esposa e filha, subia o Cosme Velho. Era domingo de manhã. Apesar do friozinho gostoso, fazia sol. No céu, azul, não havia uma só nuvem. O Rio de Janeiro ainda respirava Copa do Mundo, o que garantia a presença de muitos turistas na cidade. Por tabela, garantia também reforço no policiamento, o que representava uma excelente oportunidade para visitar lugares mais isolados.

Estava parado no sinal vermelho bem à frente da entrada para o Cristo, quando fui, porém, surpreendido com uma nota de pesar no rádio, então em volume moderado: “Uma notícia triste para o futebol brasileiro: morreu hoje o ex-jogador Assis”.

Aumentei-o imediatamente, e pedi licença à Chris.

“Não é possível”, pensei, estarrecido. “Assis nem estava doente” (ignorava que havia sido internado em Curitiba, e, creio, a maioria também). “Vai ver é o irmão do Ronaldinho Gaúcho”, cheguei a imaginar.

O locutor seguiu: “Jogando no Fluminense, Assis formou o Casal 20 com Washington nos anos 1980”.

– Meu Deus!

Ao fim da notícia, tornei a baixar o volume. Minha esposa desconhecia a relevância de Assis para qualquer tricolor. Nunca ligou muito para bola. Filha de pai rubro-negro (light), virou Fluminense, em 2000, dois anos depois que começamos a namorar.

Recomeçou a falar do ponto em que havia parado. Mas eu já não a ouvia. Estava paralisado, petrificado, só, em meus pensamentos.

– Como? Como? Ele estava tão bem!

Esforcei-me para não pensar tanto no assunto, para não estragar o clima familiar. Passamos por Santa Teresa e subimos até o Mirante Dona Marta, onde jamais havíamos ido.

Pão de Açúcar - Foto de João Marcelo Garcez

Lá do alto, o cenário era absolutamente deslumbrante. Tal como no Cristo ou no Pão de Açúcar, era possível ver, daquele lugar, todos os pontos turísticos (leia-se belezas) do Rio.

– Wow! Wonderful! – um turista não continha sua empolgação, ao olhar o conjunto de morros, cercado pela água, tomada de velas. O cenário era o mais perfeito acabamento de uma obra-prima lapidada pelos anjos.

De repente, tudo parou. Não havia qualquer ruído. Vento, insetos, pessoas… Tornou-se possível, naquele instante, experimentar uma das coisas mais difíceis da vida – ouvir o silêncio.

Tomados por uma enorme sensação de paz, fomos interrompidos somente quando uma ave solitária passou metros à nossa frente.

Urubu

Do mirante, ficamos a observá-la. Asas abertas, tal como um parapente, parecia flutuar, mansa, vagarosamente.

O fascínio exercido pelas maravilhas do Rio agora estava ali, representado pelo voo majestoso daquele urubu, ave-símbolo do Rubro-Negro.

Foi quando lembrei de novo de Assis, eternizado, sobretudo, pelos gols decisivos no Flamengo – um deles, o de 1983, no último segundo.

E pude então entender.

Daquela altura, bem pertinho do céu, onde já estava Assis, o urubu fazia, na verdade, uma reverência àquele por quem, mais até do que respeitar, ele soube se deixar cativar.

Assis no céu

Era o último adeus, a última homenagem.

Sob a égide de Deus, seu admirável algoz havia agora partido para sempre.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

João Marcelo Garcez (joaogarcez@yahoo.com.br) é jornalista, publicitário e escritor, havendo já publicado cinco livros. Há mais de uma década atuando na área de Comunicação, já trabalhou em empresas como TV Globo, Globosporte.com, Jornal dos Sports e DM9DDB. Bicampeão do Top Blog (2010 e 2013), espécie de Oscar da internet, Garcez escreve mensalmente a este Panorama Tricolor.

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