A promessa (por Ernesto Xavier)

avião

Ele era daqueles torcedores que não perdiam um jogo do time seja lá onde fosse. Trabalhava para si, não tinha chefe e o bom dinheiro que ganhava, gastava acompanhando o Fluminense país (ou mundo) afora. Era fanático? Digamos que sim. Queria sentir o frio na barriga que o viciou  aos 12 anos de idade. A cada ingresso na mão, a cada “pré-jogo”, entrada de estádio e principalmente entrada do time, aquela sensação vinha tomar seu corpo desde a espinha até a nuca. Sensação que ele julgava ser incomparável. A esposa já sabia disso desde os tempos do primeiro beijo. Ou ela aceitaria aquela “amante” ou perderia de goleada. Desistiu do Vasco que herdou do pai e passou a trajar o verde-branco-grená do marido. Já nem lembrava da Cruz de Malta. Virara tricolor de carteirinha, literalmente.

Arnaldo lembrava com saudosismo e uma ponta de tristeza daquele 2008 onde conheceu a América do Sul. Equador, Argentina, Paraguai… O fim trágico com nuances rodrigueanas ficava martelando em sua mente. E ele entoava o mantra: “Ainda vamos ganhar a América, ainda vamos ganhar a América…”.

Veio 2009 e seu sonho parecia cada vez mais distante. Que time era aquele? Continuavam de ressaca pela derrota do ano anterior? O time virou o saco de pancadas, a chacota do país. O pesadelo dos anos 90 voltara?

29 de outubro: Fluminense e Atlético-MG. Lá estava ele entre os “loucos” debaixo de um temporal vendo Fred e Conca vencerem o até então líder do campeonato.

Acordou no dia seguinte com febre de 40 graus. Amanda, sua esposa, o proibiu de ir à Belo Horizonte no domingo.

-Como assim?

-Você não vai e pronto.

-Mas eles precisam de mim.

-Não vai ser um jogo que vai mudar o que já está escrito. Acorda! Esse ano não vai dar, entendeu?

Ele se manteve em silêncio e pela primeira vez teve realmente medo de que as palavras dela se tornassem realidade.

1 de novembro: Fluminense e Cruzeiro.

O primeiro tempo arrasador poderia ter sido ainda pior do que os 2 a 0 para a Raposa. A cada gol cruzeirense ele chorava por não estar lá para dar força. Sentia-se um desertor. Veio o segundo tempo e o que parecia impossível aconteceu: virada. Um gol do guerreiro Gum e mais dois de Fred, que se recusava a comemorar contra o ex-time. No terceiro gol ele viu o choro emocionado de Cuca, coisa que era difícil perceber quando estava nas arquibancadas.

Fim de jogo, vitória do Fluminense, mas uma sensação estranha. Percebeu que havia perdido um dos jogos mais emocionantes de todos os tempos. Seria ele pé-frio?, se perguntou. Olhou para a imagem de Nossa Senhora da Glória que ele tinha em um pequeno altar na sala e fez a promessa:

– Minha Nossa Senhora, caso seja eu o culpado por tudo isso estar acontecendo, eu prometo deixar de ir aos estádios até que o Fluminense se livre do rebaixamento e doarei todo o dinheiro que eu gastaria com esses jogos para uma instituição de caridade. Eu prometo!

Ele não viu Fred jogar corações para a torcida contra o Palmeiras em um dia de calor escaldante. Nem Maicon Bolt fazer uma linda assistência contra o Atlético Paranaense. A goleada contra o Sport também não. O golaço de Fred diante do Vitória só pela TV. Restava um jogo, um simples empate para que sua promessa fosse cumprida. Arnaldo estava quase em depressão. Estava convencido de que realmente o pé-frio era ele. Não queria nem assistir ao jogo pela televisão.

Acordou cedo naquele dia 6 de dezembro. Ao olhar para o lado percebeu que sua mulher não estava na cama. Apenas um envelope com seu nome escrito. Abriu. Duas passagens para Curitiba e dois ingressos. Junto um papel onde leu: “Se apresse senão vamos perder o voo. Eles precisam de você. Já falei com Nossa Senhora. Ela vai te entender.”

O resto da história vocês já sabem. Veio 2010 e assim como Conca, Arnaldo também esteve em todas as 38 rodadas. Fluminense tricampeão brasileiro, nada de pé-frio e menos um contribuinte para a ajuda humanitária…

Ernesto Xavier

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

2 Comments

  1. Amor pelo Fluzão é amor puro, amor verdadeiro. É paixão que merece ser respeitada. Muito feliz com o desfecho da história. Fluzãooooooo!

  2. Um texto delicioso! Por amor ao Flu, às vezes temos que nos privar do que mais amamos. É isso aí!

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