A nova queda é uma queda nova (por João Leonardo Medeiros)

João2Imagino que nos próximos dias o humor da maior parte dos tricolores esteja como o meu: com o ânimo de um frequentador do velório da mãe. Imagino que, como eu, muitos estejam atravessados por uma mistura de sentimentos, todos amargos: ódio, frustração, vergonha e sensação de impotência, entre outros. Imagino que, nestas condições, ninguém esteja disposto a aturar grandes raciocínios, jogos de palavra, pensamentos de alta abstração. Digo isso porque comecei o texto com um título que chama à reflexão, parecendo, à primeira vista, um anagrama jocoso. Explico-me logo, para manter os leitores.
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O que quero dizer simplesmente é que caímos, mas não como antes. Há um aspecto mais sombrio e pavoroso em nossa queda, mas também outro, mais importante, decididamente promissor. Para compreender a dupla implicação da queda, basta recordar brevemente a sequência de tragédias do final da década de 1990.
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Quando tivemos uma queda serial àquela ocasião, sejamos sinceros, o clube tal como existira no passado havia acabado. Lembro-me da chegada de Parreira, no começo da reconstrução. Sua primeira exigência foi uma obra no vestiário dos jogadores, obra essa que deveria, entre outras coisas, colocar um chuveiro elétrico onde não havia nenhum. A água brotava da parede em um buraco, sem cano ou chuveiro, diretamente para o corpo do atleta, que se alinhava à parede cheia de musgo.
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É claro que, naquelas condições, não se ganha nada. Pois bem, nosso clube estava morto e o efeito positivo que o rebaixamento poderia provocar seria muito limitado: trazer o defunto de volta à vida. Isso realmente ocorreu, mas durou mais de uma década do primeiro rebaixamento até que conseguíssemos disputar um título nacional e vencer. Entre 1996 e 2007, o Fluminense ganhou dois estaduais. Sobrevivemos, nos ajustamos, nos endividamos, nos reformamos, vencemos finalmente. Onde tinha um defunto, voltou um clube. Não o clube do passado, mas algum. Um clube mal administrado, mal organizado, mal arrumado, mas vivo.

Justamente porque apenas sobrevivemos e recriamos condições mínimas de existência, passamos os últimos anos num transe bipolar: ora sonhando com a conquista do mundo; ora rezando para não cair. Entre um auge e um fundo do poço, ganhamos alguma coisa. Muito pouco considerando que o clube em questão ainda é o eterno Fluminense.

Agora, caímos de novo. A diferença está aí: desta vez, caímos vivos e não mortos. Isso tem duplo caráter, como disse. Por um lado, assusta que um clube campeão brasileiro, com um dos maiores patrocínios do país, com um elenco caríssimo e profissionais – todos – respeitados no meio (gostemos deles ou não) ainda consiga cair. Como nós fomos capazes disso? Que tanta insensibilidade e incompetência nos levou a um desfecho como esse? Por que profissionais experimentados não souberam lidar com carências do elenco, estrangulamento financeiro, humores de estrelas da equipe, e boicotes ao treinador, entre outros problemas relativamente corriqueiros no futebol? Este é o lado sombrio da história e temos de reconhecê-lo, se queremos deixá-lo no passado.

Felizmente, há outro lado. Toda queda de um time grande provoca mudanças. Estas podem ser para melhor ou não. De todo modo, a queda abre a ferida e, com ela, uma janela de oportunidades. Desta vez, a oportunidade que está aberta para nós não é a do final da década de 1990: ressuscitar. Como disse, agora estamos vivos, o ponto de partida é outro, bem superior, apesar dos pesares.

Que aproveitemos a oportunidade para provocar mudanças, algumas óbvias, que me permito aqui enumerar: montar um time que jogue, em lugar de se arrastar, ora em campo, ora no departamento médico; contratar um treinador ousado, que goste e entenda de futebol e não de retranca; fazer o patrocinador patrocinar e não mandar; ajustar nosso departamento médico; dar corpo físico de profissional aos nossos garotos magrelos da divisão de base; erguer o CT; mudar a relação com a imprensa, para deixar de ser crucificado todo dia; não fazer da profissionalização do clube um veículo para a perda da paixão; trazer craques de verdade para jogar a série B, com a esperança de ganhar também a Copa do Brasil e já voltar à série A jogando a Libertadores; apostar que a torcida pagará o time de craques, indo ao estádio e lotando nossos 43 mil lugares todos os jogos. Este último ponto é importante: um jogo com Maracanã lotado gera mais de 1 milhão de receita aos nosso cofres.

Mandamos cerca de 30 jogos por ano. Só aí são 30 milhões, o que é quase o que nos paga a Unimed.

Nada disso era possível no final da década de 1990. Agora é possível e imaginável. Que os tricolores tenham paciência e humildade para fazer isso acontecer, em lugar de ficar remoendo a dor de 2013 numa série de discussões infundadas sobre questões menores. Que as decisões tomadas em dezembro de 2013 façam deste ano não o ano da queda, mas o ano a partir do qual arrancamos para outra condição: aquela em que se torna impossível cair e possível ser campeão mundial.

Panorama Tricolor

Fluminense de verdade

@PanoramaTri 

Foto: Agência O Globo

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11 Comments

  1. Vamos fazer as mudanças propostas permanecendo na sérieA, pois a Portuguesa e o Flamengo escalaram jogadores irregulares na última rodada. As suas propostas são ótimas e, se implementadas, nós seríamos um clube que disputa sempre as primeiras colocações. Sds Tricolores

  2. A REDE GLOBO é grande interessada em criar uma oposição entre o interesse do Fluminense e o da Portuguesa. Colocou no site a imagem dos dois escudos dos times se comtrapondo (Flu X Portuguesa). Mas a verdade é a seguinte: o Fluminense nunca moveu qualquer de seus advogados para sustentar qualquer tese de perda de pontos da Portuguesa de Desportos.
    O principal interessado na perda dos pontos da Portuguesa não é o Fluminense mas sim as Organizações GLOBO

  3. Explico:
    1) FLAMENGO e PORTUGUESA escalaram jogadores irregularmente segundo o que determina o REGULAMENTO da competição e da CBF.
    2) Apesar das punições previstas para as situações de FLAMENGO e PORTUGUESA serem a da perda de 4 pontos no campeonato, os dois times não praticaram as mesma condutas irregulares, ou seja, são questões diferentes.

  4. 3) Existe a possibilidade bastante plausível de o STJD absolver um dos dois times e punir apenas um dos dois times, de acordo com cada situação particular.
    4) A irregularidade do jogador do Flamengo diz respeito à escalação de um jogador punido com suspensão automática por cartão vermelho ocorrida no jogo anterior do campeonato. O Flamengo alega que a suspensão automática já havia sido cumprida por conta de um jogo da Copa do Brasil (outra competição) no qual o jogador não foi relacionado para…

  5. 5) A irregularidade da Portuguesa é diferente, o jogador tinha sido punido com cartão vermelho e levou dois jogos de suspensão. Melhor dizendo, o jogador, além da suspensão automática do cartão vermelho, foi punido ainda por mais um jogo por questões disciplinares (em função de agressões ao árbitro), o que é o padrão dos julgamentos do STJD.
    6) A tese da defesa do flamengo é a de que o jogador já havia cumprido a suspensão automática em outra competição, mas o regulamento é bem claro, dizendo…

  6. 7) A Portuguesa alega que o jogador não deveria estar suspenso por dois jogos porque, segundo seu advogado, na leitura da sentença o tribunal teria dito 1 jogo apenas, apesar de estar escrito no papel que eram dois jogos de suspensão.
    8) O Flamengo seria rebaixado caso perca os 4 pontos prescritos no regulamento e a Portuguesa não seja igualmente punida pelo STJD com a perda dos 4 pontos.

  7. 9) Existe um risco, ainda que não muito alto, de apenas o flamengo ser punido e ser com isso rebaixado.
    10) A Rede Globo tem interesse que o Flamengo permaneça na série A do próximo ano e para que isso aconteça não faria qualquer questão que a Portuguesa fosse rebaixada no lugar do Flamengo.

  8. 11) Para que não fique parecendo uma virada de mesa do Flamengo a REDE GLOBO atribui a questão ao Fluminense, que sequer sabia dessa possibilidade de permanecer na primeira divisão, uma vez que foi o Procurador Geral do STJD quem se manifestou para que o regulamento fosse respeitado.
    12) O time a ser eventualmente beneficiado poderia ser o Curitiba, o Criciuma, ou o Vasco. Por obra do acaso é o Fluminense que está nessa situação de possibilidade de permanecer na 1a divisão, caso um dos dois…

  9. 12) O time a ser eventualmente beneficiado poderia ser o Curitiba, o Criciuma, ou o Vasco. Por obra do acaso é o Fluminense que está nessa situação de possibilidade de permanecer na 1a divisão, caso um dos dois times (FLAMENGO ou PORTUGUESA) sejam punidos, segundo o regulamento, com a perda dos 4 pontos.

  10. 13) Portanto, repito, o FLUMINENSE está sendo usado pela GLOBO para tirar de cena a principal contraposição que existe nessa questão. O conflito é entre os interesses de FLAMENGO X PORTUGUESA. Por favor, deixem o FLUMINENSE fora disso!! FLAMENGO, PORTUGUESA, GLOBO, CBF e STJD que decidam isso!!!
    Não cabe ao Fluminense qualquer papel nessa “nova novela da GLOBO”, que será mais uma campeã de audiência.

  11. Senhor Peter, seja homem e não aceite essa situação de voltar a serie A através da justiça, mesmo que a Portuguesa seja rebaixada não devemos jogar a Serie A, já basta tudo que escutamos durante todos esses anos, vamos pagar o que devemos, sou tricolor de coração, mas não podemos deixar essa oportunidade passar.

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