A noite ainda não acabou (por Paulo-Roberto Andel)

Segunda-feira no coração de Gotham City, talvez sete e meia da manhã.

Ninguém é Fluminense impunemente, que fique explícito. A noite de ontem ainda não acabou.

Ok, precisamos voltar à realidade. Afora nosso próprio cotidiano pessoal, o do Flu inspira os maiores cuidados.

O que não falta é problema, dívida, ganância de homens maus, equívoco.

Ok.

Mas sabe quando você vem numa de horror e numa noite beija a garota dos seus sonhos? É por aí. Ou o garoto. É de cada um.

A noite de ontem ainda não acabou. Aliás, ela já está condenada à eternidade. Daqui a dez ou vinte anos vão falar desses 5 a 4 como se fala dos outros 5 a 4 de 2011 (os de ontem foram uma façanha maior), ou daqueles 7 a 1 ou do imortal 3 a 2 e por aí vai.

Não é preciso fingir que não temos defeitos no Fluminense – e são muitos – para se orgulhar do jogo de ontem. Ele foi Fluminense às vísceras e tremores do corpo: drama, paixão, incredulidade, desafio e êxtase.

Aliás, os problemas são muitos e, conforme já escrevi antes, vão piorar a partir de junho, qualquer que seja o novo presidente. Sobram problemas, faltam propostas, tudo é muito raso e oportunista para enganar quem tenha um mínimo de vivência e bom caráter. Cheio de bichos escrotos em volta.

Mas, afinal, para que serve o futebol?

Dentre outras coisas, para tirar algum peso da vida sofrida. Dar um pouco de sentido a cada semana ou grupo de três dias. Já temos problemas demais, que tal uma boa cachacinha para a alma? Um gole só.

Esse Fluminense que a gente ama, que tropeça e se levanta, que já ganhou títulos impossíveis e já deixou escapar as vitórias mais fáceis do mundo. Que conta histórias semanalmente há quase 120 anos num país que nem se lembra do que aconteceu nos últimos 15 dias.

A noite de ontem ainda não acabou. Ela ainda vive nos trens lotados, nos cafés pingados, na boa e velha zoação das esquinas e bancas. Todos nós vamos passar por algum lugar e alguém dirá “E o Fluminense, hein? Que vitória!”.

Estamos tão longe dos nossos grandes dias de títulos que esta mesma noite é ainda maior. Talvez fosse muito mais fácil fazê-la com Tim, Romeu e Russo, ou com Rivellino, Paulo Cézar e Pintinho, ou com Assis, Washington e Romerito. Que tal Deco, Fred e Thiago Neves? Mas não. Ela foi feita com Bruno Silva, Allan e Luciano. E com a irreverência de González. E com Diniz. Claro, tem o maravilhoso Pedro. Mas foi isso.

Ao contrário do que rezam os Malazartes de plantão, talvez o time do Fluminense de hoje seja mais fraco até do que os dos anos de rebaixamento. Posição por posição, talvez poucos se salvem. Mas nenhuma comparação dessas vai diminuir o tamanho do feito de ontem. É por isso que a torcida foi à loucura, é por isso que a noite ainda não acabou. Porque ontem, mesmo combalido, mesmo longe (por ora) de grandes conquistas nessa temporada, o Fluminense conseguiu uma vitória de supercampeão. A noite em que fizemos cinco gols no tricampeão da Libertadores, comandado por um dos nossos maiores ídolos.

Quem tiver dúvidas sobre o que foi este domingo, é só ver por aí o vídeo do Thiago Silva, aquele que foi o Monstro quando jogou na nossa zaga.

A noite ainda não acabou e deve durar o dia inteiro nesta segunda-feira. Vamos celebrar, almoçar rindo, assobiar o hino no trabalho, fazer a eterna piada com os flamenguistas – que já levaram de seis do Grêmio lá certa vez. Vamos viver a essência do futebol.

Amanhã a gente volta à realidade, cobra, reclama (com justiça) e até denuncia. O que não falta é problema. Os escrotos de sempre vão tentar capitalizar o máximo para seus objetivos escrotos idem. Já conhecemos isso de longe. Que se danem.

Nas próximas horas, o grande barato é deixar o coração livre para a grande alegria.

Foi uma vitória épica e eterna. Nada vai tirar a importância disso.

Agora mesmo a Ana Paula começa o jornal e nem disfarça a alegria ao anunciar o jogo de nove gols.

Eu não dormi direito. Parece aqueles 3 a 0 no Fla-Flu de 1979. Não tenho mais lancheira, nem recreio, nem escola, nem pai nem mãe, mas sigo acreditando. Eu sempre acredito, mesmo que a lógica seja adversária forte.

Para quem torce em VT esperando a reversão de eventuais derrotas, o sonho é permanente.

Oito horas e cinco minutos. Vamos ao café.

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Logo mais tem o programa Panorama Tricolor de volta na internet. A mais tradicional mesa de debates tricolores.

O TRICOLOR – informação relevante

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#credibilidade

4 Comments

  1. Eu e o meu filho quase fomos expulsos do nosso apartamento. A noite de ontem ainda não acabou e nem acabará. Ela será eterna nas nossas memórias.

  2. Hoje eu acordei mais otimista achando que até os piores temores que tenho na vida poderão ter solução. Obrigado Flu. Obrigado futebol!

  3. Boa tarde. Olha, meus 66 anos já me deram muito de Fluminense. Até meu “aparente” afastamento dele pelos constantes maus-tratos a ele dispensados. Mas, ontem, tive que recorrer a um comprimido de Frontal tamanha a emoção e intensidade que há muito, mas muito mesmo não havia passado. Mas o que me chamou a atenção foi o fato de, mesmo com os 3 x 0 contra, o time não se deixou levar pelo desespero, rifando a bola e alçando bolas para a área, como o habitual de qlqr equipe. Esta foi a diferença…

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