A Mulher-Gorila nos porões da Ditadura (por Rogério Skylab)

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Ela se aconchegou no espaço restrito que lhe fora reservado. Havia uma mansidão no seu olhar, uma languidez nos seus movimentos. O torturador, já postado, parecia um lutador de MMA. E, sem demora, chutou com todas as forças a sua cabeça. Ela chegou a murmurar um lamento que foi logo suplantado por um grito seco porque o dedo indicador do carrasco havia sido introduzido com violência em suas partes intimas.

Enquanto era tripudiada, não esboçou gesto algum. Todos os expedientes foram tentados no sentido de lhe extrair a informação. E à medida que o tempo passava, o torturador era pressionado por seu chefe imediato, o qual, por sua vez, também o era por seu superior, numa espiral infinita. Na base, estendida sobre o cimento, a infeliz era apenas um corpo, um objeto de manipulação coberto de hematomas. Havia um mal estar na situação. Não pelos sofrimentos aos quais estava exposta a guerrilheira, mas pela sensação de inoperância do torturador. Sua cabeça estava a prêmio. A sessão já passava de seis horas e ele dava mostras de cansaço. A noite anterior, mal pregara os olhos: sua filha de seis meses ardia em febre.

Torcia pro Botafogo, que, naquele instante, disputava uma partida importante no Maracanã com o Fluminense. Clássico Vovô. Tivesse estudado um pouco mais, não sofreria a humilhação de torturar. Seus dedos começaram a tremer e teve uma ligeira falta de ar. Vez por outra ligava o radinho de pilha. Jogo duro. O Botafogo tinha Jairzinho e Paulo Cézar Caju. O Fluminense, Lula e Marco Antônio. Não poderia sair dali desprovido de informações. Seu emprego corria perigo. Sentia um peso nas costas e chegou a vislumbrar um sorriso infame na guerrilheira.

Estava com os dentes quebrados e um fio de sangue escorria dos lábios. Ainda assim sorria. Principalmente quando Waldir Amaral narrou com sua elegância natural, o gol tricolor que, àquela altura, dava o título de campeão carioca ao clube das Laranjeiras.  A terrorista tricolor sorria. Toda fodida, mas sorria. Aquele riso perverso de Monalisa.

Não era um elemento importante. Sua função dentro da célula era apenas burocrática. Mantinha os arquivos atualizados e raramente pegava em arma. Estava longe de qualquer ato de heroísmo. Parecia uma funcionária de repartição, daí a sua fleuma. Caiu como todos caíam: delação à porrada.

O tempo fluía. Sua larga experiência como torturador lhe dizia que aquela empreitada não surtiria o efeito desejado. Conviveu com três tipos de guerrilheiros: os sensíveis; os estóicos; os fleumáticos. Se com os primeiros o sistema conseguia obter informações valiosas, com os dois últimos era praticamente impossível. Mas os fleumáticos para ele eram ainda piores. Era quando a passividade se transformava em resistência.

Num dado instante, caiu com todo o peso do seu corpo. Um torturador também sofre, adoece, morre. Tentou se reerguer, mas não conseguiu. Ela compreendeu e parecia plena, apesar de toda machucada. Continuou quieta, receptiva a todas as dores que nunca a levavam ao desespero.

Ele já estrebuchava. Estava nas últimas.

Foi quando teve a ideia de colocar no colo o algoz. Tinha sobrevivido a todos os companheiros mortos nos porões da ditadura justamente por sua mansidão. Sempre havia sido passiva, inclusive no amor. No aparelho, ninguém a respeitava. Chamavam-na de Mulher-Gorila. Era quase uma idiota. Foi por mero acaso que se transformou em inimiga do Estado.

Por fim, sentiu o corpo gelado do carrasco. E sorriu. Eu ia dizer que, dessa vez, sorriu com a sensação do dever cumprido. Mas, pensando bem, sorriu apenas como uma símia.

Fim

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @rogerioskylab

Imagem: rs/pra

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3 Comments

  1. Vibrei como se fosse um gol do Fluminense ao ler o seu texto. E ainda tem uns imbecis que querem a volta da ditadura. ST

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