A Mulher-Gorila e o Colégio Pedro II (por Rogerio Skylab)

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Não é fácil explicar certas relações. Quando o Verdadeiro Espírito Sorumbático conheceu a Mulher-Gorila, o mundo já não era mais o mesmo. Algo tinha mudado em sua configuração. O Verdadeiro Espírito Sorumbático viveu na carne essa transmutação. Os termos perdiam a estabilidade como se lhes tivessem inoculado o vírus da incerteza. Era uma nova virada lingüística. Até Arnaldo Antunes, o Verdadeiro Espírito Sorumbático ia bem. Depois, não. Homem de letras, passou por revoluções: o modernismo de 22, o concretismo, o tropicalismo, a vanguarda paulistana. Até com o Rock Brasil, o Verdadeiro Espírito Sorumbático conviveu bem. Mas com Los Hermanos tudo começou a mudar.

Ele veio a conhecê-la numa situação sui-generis. O nosso aristocrata (não seria um impropério identificá-lo assim, por mais que estivesse a par das teorias mais modernas no campo psicanalítico, filosófico e lingüístico), de repente se viu em meio aos movimentos de rua, em julho de 2013. Estava, por um mero acaso, entre os baderneiros que depredavam a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Tentou fugir em vão. O Verdadeiro Espírito Sorumbático se misturava aos novos rebeldes e pisava em vidros estraçalhados. Fugia da polícia e cheirava gás de pimenta. Não via a hora de chegar em casa. Em meio às ruínas, foi que viu a Mulher-Gorila.

Uma besta-fera. Ao vê-la em ação, sentiu medo. Não era propriamente uma Black Bloc, nem uma integrante da Mídia Ninja. A símia suava. Diante de suas investidas, as caixas-eletrônicas se desmoronavam.

Pensou a princípio que se tratasse de uma lutadora de MMA (tivesse um celular a teria filmado em ação). Depois, cogitou a possibilidade de pertencer à população de rua. Nada atinava. Membro de um
partido político, devidamente disfarçada. Policial infiltrada.

A Mulher-Gorila fugia às classificações. Era a nova habitante de um mundo em desmoronamento. Não obedecia nem às divisões de gênero, nem às divisões de espécie. Bufava como um cavalo.

Mas o que o Verdadeiro Espírito Sorumbático não poderia imaginar é que a Mulher-Gorila não era propriamente um ser político. Logo compreendeu seu âmago. Movida a sexo e comida, a praça pública lhe era propícia à caça. E desde quando a viu em ação, pela primeira vez, nunca mais pôde esquecê-la.

Estava sempre em fluxo. Lia muito pouco, quase analfabeta. Gostava mesmo era de botequim e brodagem. Marcha da maconha, marcha das vadias, movimento dos sem teto e dos sem terra, ocupação das escolas, parada gay, movimento passe livre, PEC 37, improvisação na música, críticas impressionistas, canção expandida, candomblé, curadoria, música negra, afrobeat, manguebeat, orgulho LGBT, sociedade protetora dos animais, no wave, noise, ruídos, timbres, desterritorialização… a Mulher-Gorila abrangia tudo isso e o que mais pudesse advir num horizonte de possibilidades. Dormia pouco. Mas dormia pesado e de barriga pra cima. Roncava pra caralho.

Nova versão de Eduardo e Mônica, um dia o Verdadeiro Espírito Sorumbático e a Mulher-Gorila juntaram seus trapos e foram morar numa quitinete vagabunda no coração do Largo do Machado. O McDonald’s era o quartel general deles. Às quartas, a gorila se mandava para a Áudio Rebel e o nosso Dom Casmurro, finalmente, podia ouvir seus discos, ler seus livros. Um mundo em dissonância.

Mas a macaca não parava. À primeira vista poderia dar a impressão que era lúcida e lutava pelos seus direitos. Mas por que foi trabalhar como inspetora do colégio Pedro II ? Quais eram suas reais motivações? O que a levava a tomar certos caminhos em detrimento a outros?

Seu desejo cego era o que a tornava tão pragmática.

Se fosse humana seria psicótica.

Certa feita, se engraçou pro lado de uma estudante na flor dos seus dezesseis anos. Sabia usar o poder que o cargo lhe concedia: carrasco com os meninos, melíflua com as meninas. Mas o Verdadeiro Espírito Sorumbático conhecia seu jogo e alertou-a sobre os perigos.

Dias difíceis. O país pegando fogo. E a Mulher-Gorila mandando ver.

Não havia mesmo muito a fazer, pensou o Verdadeiro Espírito Sorumbático. Via sua companheira em órbita suicida. Temeu pela jovem estudante e tentou alertá-la. Mas já era tarde. Um dia, a jovem estudante do colégio Pedro II, na flor dos seus dezesseis anos (coxas de quem faz jazz), foi encontrada morta num terreno baldio. E a Mulher-Gorila, sobre quem recaíam todas as suspeitas, desaparecida.

“Eu vim a conhecê-la nos movimentos de rua em 2013”, começava assim o depoimento dado à Justiça pelo Verdadeiro Espírito Sorumbático. Mas essa história não fecha.

Onde está a Mulher-Gorila?

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @rogerioskylab

Imagem: rs/pra

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