A insidiosa matemática da Flapress e a crueldade da torcida tricolor (por Marcelo Savioli)

Amigos, amigas, hoje é dia do bom e velho duelo de conceitos, valores e cores. Pela 13a vez na história, Flu e Fla decidem um Campeonato do Rio de Janeiro, outrora Campeonato Carioca, hoje Campeonato Fluminense.

E por que Campeonato Fluminense? Porque desde 1978, por determinação do CND (Conselho Nacional de Desportos), autoridade máxima do esporte brasileiro, está extinto o Campeonato Carioca, antigo campeonato da Guanabara, outrora capital da República Federativa do Brasil. O que temos, desde então, é o Campeonato Estadual do Rio de Janeiro, logo, Campeonato Fluminense, a forma correta como deveria ser chamado.

E não há nisso qualquer propósito de exaltar o Fluminense Football Club, mas apenas o bom senso de dar o nome certo aos bois. Eu até compreendo que, do ponto de vista de Marketing, continuar chamando a competição de Campeonato Carioca tem suas justificativas, pois preserva uma marca histórica. Só para situar as amigas e amigos, o Rio de Janeiro, antiga Guanabara, está, do ponto de vista histórico, para o futebol mundial como uma Inglaterra ou uma Alemanha.

O grande atrativo, segundo a Flapress, é o tira-teima entre os dois maiores vencedores da competição, para saber qual dos dois ganharam mais decisões. No presente momento, são cinco títulos conquistados em cima do rival para cada lado.

O Fluminense tem cinco títulos conquistados em cima do Flamengo: 1919, 1936, 1941, 1969, 1973, 1983, 1984 e 1995.

O Flamengo, por sua vez, tem os mesmos cinco títulos conquistados em cima do Prêmio Nobel do Esporte: 1963, 1972, 1991, 2017 e 2020.

É na semana em que a Flapress proclama sua insidiosa e exótica matemática esportiva que a torcida do Fluminense proclama ao mundo sua inigualável crueldade. Ou seja, não tem ninguém santo. Porque a torcida do Fluminense enfeita sua arquibancada com os seguintes dizeres:

“Orgulho de não ser como vocês”

Eu não sei se os autores dessa pérola cruel têm noção do tamanho do alcance desta sentença. Não sei se viveram a história do tri em dois anos, as famigeradas conquistas do início da década de 80, o caso das papeletas amarelas ou mesmo o midiaticamente inacreditável caso do Chororô.

Certo é que se lembram do caso Lusagate e do atropelamento de Rever em Henrique em 2017, o que já seria suficiente para reflexões pouco amistosas contra o rival, mas…

“Orgulho de não ser como vocês”

Isso é muito cruel, porque a ironia fina e cheia de significado é capaz de mutilar a alma de um ser humano. Imaginem o mal estar que isso causa em 400 milhões de pessoas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo na véspera de uma decisão, onde deveria prevalecer o espírito esportivo.

Eu imagino que esse episódio ficará marcado no futebol como o mais iníquo de todos. Mais iníquo que o Escândalo do Serra Dourada, mais iníquo que o tri em dois anos, mais iníquo que os assaltos do início da década de 80 contra Atlético MG, Sport, Grêmio, Atlético PR e Santos.

Deveriam lembrar os tricolores que o Fluminense foi o grande responsável por, em 1911, comandar o movimento que colocou o então incipiente futebol rubro-negro, pela janela, na primeira divisão do Campeonato Carioca. Deveriam lembrar que o Fluminense foi signatário da histórica maracutaia que foi a Copa União de 1987.

Observa-se que nós não somos tão inocentes assim, mas me ocorre que dois fatos presentes convergem para enriquecer o impacto da ironia: a própria ironia, em si, e a insidiosa matemática da Flapress. Nesse aspecto, parece-me ainda mais certeira a ironia da torcida tricolor. A cruel ironia, diga-se de passagem.

Em 1919, Fluminense e Flamengo chegaram à penúltima rodada do Campeonato Carioca como únicos postulantes ao título. Como o Fluminense liderava, a única alternativa do Flamengo era vencer, mas perderam de 4 a 0. Marcaram para o Fluminense Machado (2), Welfare e Bacchi, no primeiro Fla-Flu decisivo da história.

No dia 15 de junho de 1969 foi disputado o que para muitos é o maior Fla-Flu de todos os tempos. As duas equipes chegaram empatados à penúltima rodada da fase decisiva do campeonato. Na grande decisão, com mais de 160 mil pessoas no Maracanã, o Fluminense venceu por 3 a 2, numa partida antológica, que Nelson Rodrigues narrou assim, em sua mais triunfal crônica esportiva, provavelmente a maior de todos os tempos:

Partida decisiva só vale como partida decisiva se for a última, não valendo se ela decidiu o campeonato?

“Orgulho de não ser como vocês”

Em 1983, Fluminense, Flamengo e Bangu chegaram a um triangular decisivo. Flu e Bangu empataram o primeiro jogo em 1 a 1. No segundo jogo, Fla e Flu se enfrentaram num Maracanã lotado. O Fluminense venceu por 1 a 0 com o antológico gol de Assis aos 46 minutos do segundo tempo, eliminando o Flamengo, que, mesmo eliminado, honrosamente venceu a última partida contra o Bangu, por 2 a 0, eliminando a possibilidade de uma partida extra entre Fluminense e Bangu, que, em caso de vitória, somaria os mesmos três pontos do Tricolor.

Eu deixo a critério de cada um decidir se a grande partida decisiva foi o Fla-Flu ou Flamengo e Bangu, tendo sido o Fluminense o campeão.

Sabe por que?

“Orgulho de não ser como vocês”

Saudações Tricolores e que a decisão seja limpa, disputada com fidalguia e sem interferências externas!

4 Comments

  1. Nós tricolores, e amantes de futebol, nos mantemos sempre vivos e apaixonados pelos clássicos memoráveis.
    Fla x Flu é Fla x Flu, e tudo pode acontecer.
    Só quem viveu a década de 80 e 90 sabe o que realmente é um Fla x Flu.

  2. Não sou fla nem flu mas achei simplesmente FANTASTICO. Bjux Marcelo Savioli

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