A crônica do título (por João Marcelo Garcez)

Foto Panorama

– O Fluminense vai ser o campeão.

– Você é louco!? O jogo será na Gávea. É óbvio que vai dar Flamengo.

– Quer apostar?

– O que você quiser.

A acalorada discussão aconteceu em 2002 na Redação do (infelizmente) extinto Jornal dos Sports, casa de Mário Filho e Nelson Rodrigues, na sede da Rua Pereira de Almeida, então cheirando a tinta. (Antes, o Cor-de-Rosa havia operado durante décadas na Rua Tenente Possolo.) O jornal passava por uma profunda reformulação, estava sob nova direção e investia pesado em profissionais e equipamentos.

Eram meus primeiros meses de carreira em jornalismo. Apesar de “foca”, como são chamados os jornalistas mais jovens, àquela altura, já me era possível listar as personalidades esportivas que havia entrevistado, entre elas Romário, Renato Gaúcho e Bernard Rajzman, um dos grandes nomes da chamada Geração de Prata.PintoMarcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esportes (foto acima), havia sido a mais difícil. Não propriamente pelo entrevistado, mas pelo chá de cadeira que levei ao esperá-lo por quase três horas, no braço esportivo da emissora, na Barra da Tijuca. Tal matéria produzi um ano antes ao ParaTodos, editor que era do jornal institucional da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), que promovia a II Semana de Marketing Esportivo, evento do qual Pinto, inclusive, participaria dias depois.

A cúpula da Redação do Jornal dos Sports, nos anos em que lá trabalhei, era composta por um trio botafoguense, formado por Washington Rope, Haroldo Habib e José Antônio Gerheim. A predominância nos cargos de chefia não se repetia, porém, entre os editores e repórteres, a maioria de tricolores, entre os quais, Milton Costa Carvalho.

Mas entre os não-alvinegros e não-tricolores estava Rafael Nicolay, espirituoso colega de redação, com quem fui cobrir a final do Campeonato Estadual de Juniores de 2002, ano do centenário do Fluminense.

Havíamos, Rafael e eu, combinado: o campeão voltaria à Redação. Sim, o campeão voltaria, o perdedor iria pra casa. Nenhum tipo de compensação, pois ambos estavam sedentos para escrever a reportagem do título, no calor da conquista, já que os envolvidos na grande final eram justamente nossos clubes de coração.

– Ah, mas repórter não tem clube de coração?

Quem proferiu tamanha heresia? Se não tivesse, estaria exercendo qualquer outra profissão, jamais a de jornalista esportivo. Desconfie de profissionais que dizem não torcer pra ninguém. O segredo está em exercer com correção e seriedade a sua atividade, o que fiz desde o meu primeiro dia, havendo eu sido setorista das quatro grandes agremiações cariocas, cujas matérias sempre escrevi com respeito e lisura. Como curiosidade, lembro até que cheguei a cobrir a posse de Bebeto de Freitas à presidência do Botafogo. Além de ver lavarem com sabão de coco a escadaria de General Severiano (um ritual contra o mau olhado), assisti ao ex-técnico de vôlei sambando ao lado de duas mulatas, o que, pelo seu jeito desengonçado, gerou graça entre todos.

Mas voltando ao duelo particular, Rafael e eu saímos da Praça da Bandeira a menos de uma hora do início do jogo. Em 15 minutos, o carro de reportagem já cruzava o portão da Gávea.

Carlos Alberto

Tinha convicção de que seríamos campeões. Antes daquele, vinha cobrindo diversos jogos decisivos do time de garotos do Fluminense – que tinha valores como Antônio Carlos, Marcelo e Carlos Alberto (foto) –, sempre com sucesso. Já era considerado um talismã pelo técnico Gilson Gênio, que sempre comemorava quando sabia ser eu o repórter escalado para cobrir o jogo. “Chegou o pé-quente”, dizia.

Na semifinal, por exemplo, disputada no Caio Martins, vi o Fluminense eliminar o Botafogo, nos pênaltis, com duas defesas de Fernando Henrique (hoje no Ceará). A metade tricolor de Niterói festejou, diferentemente da finalíssima, com o estádio rubro-negro ocupado por 80% de torcedores da casa – e em número até expressivo para uma tarde de segunda-feira.

Quando o Flamengo fez 1 a 0, ainda no primeiro tempo, Nicolay abriu um sorriso sarcástico, deliciando-se com a possibilidade do triunfo duplo. Tudo lhe era favorável: a vantagem no placar, o caldeirão da Gávea e a pressão emocional sobre os meninos do Flu, que não eram campeões estaduais da categoria desde 1988.

Acabariam tri em 2004, título que, para ser alcançado, necessitaria, antes, do bi, em 2003, e do primeiro da série, em 2002.

Sim, o Flu virou, com o ainda jovem e promissor Carlos Alberto, no meio do segundo tempo. O caldeirão esfriou e o brado rouco passara a ser dos tricolores, que compensaram a inferioridade numérica com gritos ensurdecedores.

Fluminense campeão. Como um raio, entrei em campo e corri em direção aos meninos de ouro, quase que me misturando a eles na comemoração do título. Durante a festa, lembro de ter esbarrado com o jornalista tricolor Ricardo Mazela, também dentro do gramado, exultante com a conquista. “Ganhar deles aqui dentro é uma delícia”.

Campeão, voltei à Redação do Jornal dos Sports para cumprir o combinado. Nunca houvera me dado tanta satisfação realizar o meu “dever profissional”. Escrevi num só golpe o texto da vitória e ainda o imprimi para que os colegas tricolores da pelada o lessem à noite, antes de sair publicado no dia seguinte.

Já Nicolay saltou pelo caminho. Ao menos chegaria em casa um pouco mais cedo naquele dia, ou melhor, naquele princípio de noite amarga. Assim como o do Fla, o sonho de Nicolay de ser campeão no centenário tricolor havia virado pó-de-arroz.

***

Animais do mundo - Copia

Não foi por acaso que escolhi este 9 de outubro para estrear nesta casa, tão bem dirigida pelo amigo escritor Paulo-Roberto Andel, a quem agradeço pelo texto caloroso de boas-vindas. Nesta data, nasceu minha filha Melissa, que hoje completa um aninho. Se a vida muitas vezes parece difícil para todos, com anjos como ela, torna-se bem menos complicada. Meu objetivo enquanto pai é ensiná-la a respeitar todos os seres que dividem o planeta conosco, como os animais, causa em que milito já há alguns anos.

Por sinal, fico feliz também de dar o pontapé inicial neste Panorama Tricolor no mês em que é comemorado o Dia Mundial dos Animais e de São Francisco de Assis (oficialmente, em 4 de outubro).

A casa é nobre, os amigos também. O prazer é todo meu.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

João Marcelo Garcez (joaogarcez@yahoo.com.br) é jornalista, publicitário e escritor. Autor de quatro livros, já trabalhou em empresas como TV Globo, Jornal dos Sports, Globoesporte.com e DM9DDB. Atualmente na Editora 5W, Garcez escreverá mensalmente ao site Panorama Tricolor.

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