1984 – V (por Mauro Jácome)

1984 – Capítulo 5 – Don Romero e números cruéis

Acaba a invencibilidade tricolor. O Santos derruba o Fluminense no domingo, dia 26 de fevereiro. Pela primeira vez, o tricolor mandava um jogo no Maracanã. Ambos já estavam classificados e, segundo o JB de 27/02/197, “fizeram um dos jogos mais melancólicos dos últimos tempos no Maracanã”:

FICHA TÉCNICA

FLUMINENSE 0 X 1 SANTOS

Árbitro: Rui da Silva Cañedo (RS); Renda: Cr$ 34.933.500,00; Público: 25.903
Gol: Gersinho, 7 do 2º Tempo.
Fluminense: Ricardo Lopes, Getúlio, Duílio, Ricardo e Branco; Jandir, Delei e Assis; Ronaldo (Paulinho Cascavel, intervalo), Washington e Tato (Paulinho, 15 do 2º). Técnico: Carbone.
Santos: Rodolfo Rodríguez, Betão, Davi (Pagani, intervalo), Toninho Carlos e Toninho Oliveira; Luís Gustavo, Lino e Pita; Gersinho (Serginho Dourado, 28 do 2º), Ronaldo e Márcio Fernandes. Técnico: Formiga.

Mas a torcida estava eufórica e não se preocupou com o resultado. Finalmente, Romerito era do Fluminense. Nem Sportivo Luqueño, nem Atlético de Madrid, nem Real Madrid. O presidente Manoel Schwartz voltou de Nova Iorque com a boa notícia:

Flu acaba com a novela e contrata Romerito

Terminaram as controvérsias, suspeitas e indefinições sobre Romerito. O presidente do Fluminense, Manoel Schwartz, chegou ontem pela manhã de Nova Iorque, onde, finalmente, concluiu as negociações com o Cosmos sobre a contratação do atacante paraguaio, que virá em troca da cessão de cotas de jogos do Fluminense no exterior (JB, 26/2/1984).

Com a exceção de 884 abnegados torcedores, os tricolores nem se lembraram de que teria jogo, às 21 horas do dia 29 de fevereiro, quarta-feira, em São Januário: viviam a expectativa da chegada de recém-contratado Romerito. O jogo contra o Ferroviário fecharia a primeira fase. Desde a rodada anterior, o Santos tomara a liderança do grupo:

FICHA TÉCNICA

FLUMINENSE 2  X  0  FERROVIÁRIO

Árbitro: Manuel Serapião Filho (BA); Renda: Cr$ 1.469.500,00
Gols: Wilsinho 21 do 1º Tempo; Wilsinho 19 do 2º Tempo.
Fluminense: Paulo Victor, Getúlio, Duílio, Ricardo e Branco; Leomir, Delei e Assis; Wilsinho, Washington (Daíco) e Tato (Paulinho). Técnico: Carbone.
Ferroviário: Dário, Birungueta, Israel, Nilo e Fraga; Doca, Edmo e Betinho; Sussu, Dario (Jorge Veras) e Esquerdinha. Técnico: Antonino.

Diferentemente dos dias atuais, os elencos dos times brasileiros eram construídos ao longo das competições. Na mesma semana da definição sobre Romerito, o Fluminense contrataria Renê, que teria participação importante ao longo do ano de 1984:

Renê acerta hoje com Schwartz

O apoiador Renê, do Internacional, está arrumando as malas para ir para o Fluminense (…). “Estou com muita vontade de ir para o Fluminense, que é um grande clube e pode me projetar até em termos de Seleção. Amanhã (hoje) vou conversar com o presidente Manoel Schwartz e definir minha situação”, disse Renê (JB, 1/3/1984).

No campo político-social, a censura e o medo ainda rondavam os países sul-americanos. As ditaduras e seus feitos eram denunciados, basicamente, por documentos enviados, clandestinamente, ao exterior ou por exilados:

Argentino denuncia execuções em massa

A maior parte dos milhares de desaparecidos argentinos jamais será encontrada porque foi lançada no Atlântico Sul em contêineres ou soterrada sob uma montanha dinamitada. A revelação foi feita ao jornal boliviano “Hoy” pelo exilado argentino José Francisco Salpietro, que disse ter trabalhado como secretário do coronel Ricardo Lopez, comandante de uma brigada de explosivos durante a repressão.

Segundo Salpietro, muitos eram colocados vivos nos contêineres e esse “método satânico” foi utilizado em larga escala no campo de concentração de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, que chegou a ter 10 mil prisioneiros. “Foi assim; é tão terrível que parece fantasia, mas é a única verdade”, declarou (Folha de São Paulo, 28/01/1984).

Num mundo dicotômico desde o fim da segunda guerra, à América do Sul coube o domínio norte-americano e do seu capitalismo. No entanto, a experiência comunista em Cuba inquietava os EUA, assim como, a possibilidade de mudanças de lado dentro da sua área de influência. Injeção de recursos nas economias sul-americanas, propagandas positivas de si e negativas do inimigo não estavam sendo suficientes para conter o crescimento das ideias de esquerda. O caminho mais seguro seria o uso da força, não intervindo diretamente, mas com recursos financeiros, materiais e de logística a todos os países que estivessem ameaçados pelo fantasma vermelho.

Somou-se ao incentivo externo a inquietude interna. As elites estavam preocupadas com as políticas trabalhistas e desenvolvimentistas dos anos 50/60 e desesperadas com o crescimento dos movimentos de esquerda. Como resultado, houve uma sequência de golpes e a instituição de ditaduras militares na América do Sul: Paraguai (1954), Brasil (1964), Bolívia (1964), Peru (1968), Uruguai (1973), Equador (1972), Chile (1973), Argentina (1976).

As ditaduras da América do Sul tiveram números absurdos de vítimas dos regimes. Desde a prisão para interrogatório a sequestro de bebês. De empurrões ao pau-de-arara; ainda, choques elétricos, afogamentos, queimaduras, estupros. Da execução sumária ao espancamento até à morte. Só do que se tem conhecimento dos mortos e dos desaparecidos, foram mais de 45 mil, ou seja, um Engenhão lotado:

Brasil – 500, entre mortos e desaparecidos;
Argentina – 30 mil, entre mortos e desaparecidos;
Paraguai – 2 mil, entre mortos e desaparecidos;
Bolívia – 200 mortos;
Peru – 13 mil, entre mortos e desaparecidos;
Uruguai – 34 mortos e 38 desaparecidos;
Chile – 3.225, entre mortos e desaparecidos.

No próximo capítulo, o carnaval e o início da segunda fase.

Até lá.

Mauro Jácome

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Revisão preliminar: Rosa Jácome

Capítulo 4: http://www.panoramatricolor.com/1984-iv-por-mauro-jacome/

Demais fontes:
www.futebol80.com.br
sob-letras.blogspot.com.br
uol.com.br

14 Comments

    1. Nem lembre. Naquele dia, acho que antevéspera do Fla x Flu decisivo do Carioca de 1984, ou seja, depois do título do Brasileiro, eu e meu pai espumávamos de raiva daquela ideia extremamente infeliz. Só porque o Flamengo correu no Tancredo, o Flu achou que deveria ir para o outro lado. Ficasse quieto, então, mas nunca ir atrás de Maluf.

  1. Parabéns só podemos entender tudo o que se passo em nosso de hoje através da historia.

    1. Obrigado, Roberta. É bom saber (mais novos) ou relembrar (mais velhos) como as coisas aconteciam. Muito do que se lê hoje está contaminado. Outro dia, um cara escreve que não entende o porquê de tanta histeria com relação à ditadura brasileira (acho que era sobre a Comissão da Verdade), afinal, aqui não chegou aos pés da Argentina, que matou 30 mil. E essa asneira rodou o Brasil inteiro. Nessa lógica, poderíamos pegar o cara, torturar e matar, afinal, é só um em meio de milhares assassinados diariamente no mundo inteiro. Por isso que, checo qualquer notícia que chega hoje em dia. O que se publica de mentiras e coisas maquiadas é uma grandeza.

  2. Mais um excelente texto, da saga tricolor rumo ao
    inesquecível bi-campeonato brasileiro!
    Recordar é viver!
    ST4!

    1. Obrigado. Estou procurando contar de uma forma diferente. Há muitas histórias excelentes sobre o título de 1984 e queria algo mais contextualizado, mostrando dois mundos paralelos: o do futebol e o outro.

  3. Oi Mauro,
    estou gostando muito da série de postagens sobre o Brasileiro de 1984. Acabei de ler um bom livro sobre o tema, chamado A Verdadeira Máquina Tricolor, em que o autor aborda esse período da mesma forma, trazendo informações históricas deste período e todos os acontecimentos relacionados ao Fluminense, incluindo o tricampeonato carioca e o brasileiro. Muito bom mesmo. Recomendo muito a leitura do livro, assim como recomendo a coluna para todos os meus amigos. Parabéns!

    1. Ah, desculpas. O autor se chama Sérgio Trigo e o livro é da Editora Iventura (com i mesmo… )

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