Sobre a perda (por Rafael Rigaud)

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Amigos,

Também fiquei profundamente decepcionado com a derrota do Brasil para a Alemanha em Belo Horizonte na tarde de ontem, por gostar de futebol, por desejar ver o meu país campeão do mundo em casa e por ter percebido que isso não vai mais acontecer (em 1950 não aconteceu, em 2014 não vai acontecer e provavelmente nunca mais sediaremos outro mundial). Porém, acho pertinente que a gente já de cabeça fria não se permita levar pela maré e consiga não fazer desse acontecimento um flagelo maior do que ele realmente é.

Tenho visto por aí (em redes sociais em especial) cavaleiros do apocalipse de ocasião também acusando o golpe e apontando nessa derrota tudo que não presta, que não serve e que não se pode admitir no Brasil como se um fracasso esportivo fosse norteador de algo nesse sentido. Não podemos nos deixar levar por esse pensamento simplório e reducionista.

Também estou vendo muitos associarem o fato de o futebol alemão ser sistemático, organizado, eficiente e fruto de trabalho e planejamento com o fato de a própria Alemanha ser assim e sou obrigado a concordar com esses, da mesma forma que aqueles que afirmam que o Brasil valoriza o improviso e o lampejo individual (e até mesmo o cultua em certo ponto) dentro de campo fazem a mesma coisa também no seu cotidiano, deixando pra lá a organização e o planejamento, também então fazendo uma associação correta.

Acontece que a organização, a eficiência, o planejamento sistemático são marcas da sociedade alemã independente do que venha a acontecer dentro das quatro linhas e o “jeitinho” (fruto do personalismo onde a ação individual com alguma finalidade baseada nos contatos particulares vale mais do que contar com uma estrutura organizacional frágil ou inexistente), a improvisação e a solução fácil são traços da sociedade brasileira seja na derrota seja na vitória, até porque, quando vencemos o mundial em cinco ocasiões, não passamos a ser um primor em planejamento por causa disso.

Nos momentos de êxito, os brasileiros celebram o título e, nessas horas, o negócio é festejar sem qualquer tipo de exercício de reflexão; sempre foi assim, desde a longínqua marchinha “a taça do mundo é nossa/com brasileiro não há quem possa” passando pelo “todos juntos vamos/pra frente Brasil/salve a seleção” até a mais recente “eu sou brasileiro/com muito orgulho/com muito amor”. Mas quando o onze canarinho fracassa, então tudo que não funciona dentro das quatro linhas é porque somos do jeito que somos? Será que essa derrota de ontem é indicativo de que somos um fracasso enquanto civilização? SERÁ MESMO?

Se deixar levar por esse pensamento é permitir que a frustração e o desânimo pela surra tomem a dianteira e novamente deixar que se repita o tal complexo de vira-latas rodrigueano (que, aliás, segue mais vivo que nunca). Não existe relação diretamente proporcional entre o sucesso e o fracasso do Brasil (e da Alemanha e de qualquer outro país) dentro do futebol e em sua vida em sociedade com toda sua riqueza e complexidade, até porque se assim fosse, a lógica seria a Alemanha ser necessariamente mais vencedora que o Brasil em mundiais justamente por ser um país que está muitos passos na nossa frente em muitos aspectos e isso, no fim das contas, não acontece (quando o assunto é bola, somos pentacampeões e eles são tricampeões).

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, gente. Sejamos lúcidos o suficiente para enxergar essa surra de ontem como ela verdadeiramente foi, um revés esportivo. Doloroso e difícil de digerir, mas somente isso: um fracasso no campo esportivo.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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