Quando o silêncio fala na grandeza da dor (por Antonio Gonzalez)

Uma vitória maiúscula em todos os sentidos, na soma de pontos, no salto na tabela, na afirmação de jovens e novos valores, nos valores de um homem, Abel Braga, que renova o “ainda acreditar na humanidade”, numa torcida que não teve medo de ser feliz, menos ainda de homenagear um guerreiro.

Foi um sábado inacreditável… E vou começar pelo final: quando o árbitro da partida entre o Fluminense e o Atlético-GO, Paulo Roberto Alves Junior (PR – CBF) apitou o término da partida, para trás haviam ficado quase 100 minutos de um jogo interessante.

E sem essa de desqualificar o clube goiano: tem proposta de jogo, não tem medo dele, não lhe ofende a posição que ocupa na tabela, para nada é um time roto.

Mas o Fluminense fez o dever de casa e com gratas surpresas e uma delas podemos dizer que foi uma nova proposta nas duas laterais, mesmo sabendo que a princípio o Matheus Norton é volante.

O gol do Wendel, missing nos últimos tempos, foi feito na base da raça. Já os do Wellington e do Henrique Dourado, foram de belíssima feitura.

No cômputo geral, gostei muito do Marlon Freitas, apesar dos passes errados no final do jogo.  Mas foi o único jogador de meio de campo que realmente mordeu na marcação.  Os outros, em vício repetitivo ao longo da competição, apenas cercam.

Nem sempre o que mais corre é quem melhor corre, como dizia o meu Mestre Johan Cruijff ao definir o futebol do Deco quando este jogava no Barcelona, “faz mais aquele que se antecipa e corre antes”.  A marcação por zona tem que ser no máximo pontual, de certo que ninguém, nem nenhum time, consegue marcar ao homem 100% do tempo.  Fisicamente impossível que todos os jogadores de uma equipe tenham esse rendimento em plenitude.  Só correr não significa ser veloz, menos ainda te permite pensar com efetividade.

Nossos dois atacantes foram incisivos, sendo letais nas oportunidades que tiveram. Mas, dentro do gramado nem tudo foi festa: começando pela falha horrorosa do zagueiro Henrique no gol do adversário (lembrei do velho ditado do futebol de praia “ou asfalto ou água”, quando um bom bico isola para longe a bola que está chegando bem dentro, quase na delimitação  da tua pequena área…) e posteriormente as lesões do Marquinhos Calazans, no joelho e do Matheus Norton, que jogou todo o segundo tempo com a mão fraturada, todo um bravo.

E a nossa torcida? Comandada pela EXCELENTE Bravo 52, que deixou o sentimento coletivo imperar, deu um show. Primeiramente de civismo, civilidade Tricolor em essência no apoio máximo ao Mito Abel Braga. Depois, não deixando de incentivar um segundo sequer.  Pena que as organizadas ainda não consigam acompanhar o ritmo. O dia em que isso acontecer, todos a uma só voz, poderemos bater de frente em incentivo contra corintianos, são-paulinos e palmeirenses. Aqui no Rio, mesmo ainda sem uma arquibancada perfeitamente unida, nós os Tricolores somos o dono do pedaço. Mas ainda é pouco, podemos e devemos fazer muito mais.

Antes de falar do Abel, deixa eu contar um pouco da história que eu vivi.

Tenho 55 anos, acompanho fielmente desde o final 1968, com sete anos recém cumpridos.  Felix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antonio; Denilson e Lulinha; Wilton, Flavio, Samarone e Lula… esse foi o primeiro mantra que aprendi…  Em 1977 começou a minha militância em torcida organizada e comecei a participar da vida política do clube.

Ou seja, nesses 49 anos de profissão de fé, vi muita coisa…  Nada parecido a este último sábado.

Em 1972, durante o Campeonato Brasileiro, o Fluminense andava mal das pernas.  No domingo, dia 19 de novembro, saímos derrotados no Maracanã para o time de General Severiano.

BOTAFOGO (RJ) 2 x 1 FLUMINENSE (RJ)

Local: Maracanã 

Juiz: Carlos Floriano Vidal de Andrade

Renda: 349.322,00

Público: 52.474

Gols: Zequinha (B) aos 13′, Silveira (F) aos 59′ e Jairzinho (B) aos 61′.

BOTAFOGO (RJ): Cao; Mauro Cruz, Osmar Guarnelli, Valtencir e Marinho Chagas; Nei Conceição, Carlos Roberto, Ademir Vicente e Fischer; Zequinha e Jairzinho.

FLUMINENSE (RJ): Félix; Toninho, Silveira, Assis e Marco Antônio; Rubens Galaxe, Denilson e Jair; Cafuringa (Mickey) e Lula.

Na noite seguinte, segunda-feira 20 de novembro, começa a rolar a notícia nas rádios de que o Ari Ercílio, jogador que havia sido contratado no começo do ano junto com o Artime e o Gerson (trio de veteranos), que estava pescando na Gruta da Imprensa, na avenida Niemeyer, havia sido arrastado por uma onda.

Pelo visto, no final da tarde daquele dia de folga, quando já se preparava para voltar para casa, Ari escorregou nos rochedos e caiu no mar.

Num mundo então sem computadores, sem internet, sem redes sociais e ainda com televisão sem cores, a torcida do Fluminense ficou pendente das manchetes dos jornais, dos telejornais das TVs e dos informativos das rádios.

Enquanto o corpo não aparecesse não se poderia considerar que o Ari Ercílio estivesse realmente morto.  No fundo, só restava uma ponta de esperança.

Na quarta-feira, 23 de novembro, quase 30 mil Tricolores se dirigiram ao Maracanã…  No ar a incerteza reinante… assim como o resultado obtido por um time que fazia tempo que não se encontrava em campo.

No cômputo geral, as contratações de três jogadores veteranos não tinham resultado.

FLUMINENSE (RJ) 0 x 0 INTERNACIONAL (RS)

Local: Maracanã    

Juiz: Armando Marques

Renda: 73.129,00

Público: 29.595

FLUMINENSE (RJ): Félix; Toninho, Assis, Silveira e Marco Antônio; Denilson (Abel), Rubens Galaxe, Didi e Adílson; Jair e Lula.

INTERNACIONAL (RS): Schneider; Cláudio, Figueroa, Pontes e Jorge Andrade; Tovar, Carpegiani, Braúlio (Carbone) e Volmir; Valdomiro e Marciano (Árlem).

Inclusive podemos perceber que o Abel entra no segundo tempo dessa partida, no lugar do já veterano Denilson, com o Silveira passando da zaga para o meio de campo (sua posição original). A torcida compareceu, o clima era de tristeza. Restava uma ponta de esperança, quem sabe foi resgatado por um barco, etc…  Mas o time, mal escalado, não se encontrou em campo.

Os dias passaram na mesma velocidade que a desesperança crescia.  Na sexta-feira dia, 24 de novembro de 1972, seu corpo apareceu na praia do Pepino, em São Conrado, a exatos três quilômetros de onde havia ocorrido a tragédia.

No domingo, 26, o nosso time entrou em campo contra a equipe de São Januário.  Havia menos Tricolores no Maracanã do que no jogo passado

VASCO DA GAMA (RJ) 0 x 0 FLUMINENSE (RJ)

Local: Maracanã      

Juiz: José Marçal Filho

Renda: 239.997,00

Público: 34.934

VASCO DA GAMA (RJ): Andrada; Moisés, Gaúcho, Miguel e Joel; Alfinete, Alcir, Marco Antônio (Jaílson) e Jorginho Carvoeiro; Tostão e Silva (Roberto Dinamite).

FLUMINENSE (RJ): Félix; Toninho, Assis, Silveira e Marco Antônio; Denilson, Rubens Galaxe, Lula (Zé Roberto) e Jair; Sérgio Roberto (Adílson) e Adílton.

Naquele Brasileiro, o Fluminense terminou a primeira fase na quarta colocação no grupo D. Na fase seguinte foi também quarto, não se classificando para o quadrangular final.  No cômputo geral ficou na décima-quarta colocação, com o Palmeiras sendo o campeão.

Quanto aos minutos de silêncio pelo falecimento do Ari Ercílio, foram como tantos outros milhares que eu vi nesses quase 50 anos de futebol: apesar de respeitosos, existiram apenas para cumprir tabela.

O Fluminense prestou toda assistência aos familiares do jogador, comprometendo-se no pagamento integral dos salários (160.000 cruzeiros), até o final do contrato, em maio de 1974.

Papo Reto:

– Parabéns à iniciativa da Fiel Tricolor que fez uma camisa homenageando ao Abel;

– Sensacional é como eu defino o acordo de intenções assinado ontem nas Laranjeiras. É fundamental a abertura do mercado para o Fluminense nesse gigante asiático chamado China.  Os meus parabéns ao Vice Presidente de Finanças, Diogo Bueno, pela pujança e visionarismo, sem esquecer de agradecer o interface do também Tricolor Wagner Victer;

– O que os detratores da camisa branca fabricada pela Under Armour têm a dizer agora.  Simplesmente estamos diante de uma das camisas mais bonitas dos últimos tempos;

– Só ocorreu um porém no sábado passado no Maracanã: um desalmado que, em pleno minuto de silêncio, sem escrúpulos, gritou “fora Abad”.  Realmente, defino esse cara como um “sem educação porque nunca teve exemplo em casa”;

– Minha coluna passada deu o que falar. Para bem ou para mal agradeço a audiência, que aumenta cada vez mais. E isso que eu não preciso mentir sobre ninguém, muito menos me tornar cavaleiro do apocalipse, menos ainda dependo de likes de bazófias ambulantes e mal amados;

– O clube está dando um grande salto de qualidade: Álvaro Chaves 41 sofreu seis anos de abandonos na gestão Peter.  A chegada do CEO Marcus Vinicius Freire, assim como a de outros profissionais, começa a dar outro tom à casa;

– Insisto: o Fluminense necessita rever os seus conceitos para com a nossa torcida, não só a curto, como a médio e longo prazo. É fundamental que se coloque para os mais jovens qual é a verdadeira história do Fluminense. É preciso que o clube se sensibilize e atue em todas as áreas necessárias para que a renovação entre os nossos torcedores seja constante;

– Torcedores do Fluminense foram severamente agredidos e roubados ao término do jogo contra o Sport de Recife, nos arredores da Ilha do Retiro. É fundamental que o Fluminense peça as devidas providências;

– É urgente que abaixem os custos do Maracanã: é fácil ver, como no portão 9, quatro ou cinco pessoas desempenhando a mesma função.  Sem falar no descalabro da empresa de seguranças (segurança?) e das grades / currais… basta colocar o MP na jogada e procurar saber a que sobrenomes políticos da sociedade carioca estão ligadas essas empresas.

– A torcida do Fluminense foi justa nas homenagens para o Abel? Foi grande!  Enorme, esteve à altura.  Momentos tristes, porém mágicos e inesquecíveis.

Nelson Rodrigues, se vivo, estaria escrevendo a seguinte crônica: “O maior minuto de silêncio da história”.

Simples assim?

Não!

Nós torcedores é que temos que agradecer a você, Abel Braga. O que você estava fazendo este ano, sendo obrigado a jogar praticamente com uma equipe Sub-20. Puro milagre, qualquer outro treinador haveria sucumbido, principalmente por causa da intranqüilidade provocada pela histeria política ocasionada pelos que perderam o último pleito eleitoral no clube.

Mas o Abelão foi além ao viver a sua tragédia familiar. Quando o correto seria pedir uns dias de afastamento e até mesmo deixar de trabalhar, eis que ele nos surpreende e sem se fazer de vítima, pelo contrário, nos deu e nos dá lições de vida.

Portanto meu caro Abel Braga: MUITO OBRIGADO!

Nessa música do Titãs, a minha singela homenagem para esse homem que está nos dando uma VERDADEIRA LIÇÃO DE VIDA:

“Queria ter aceitado… As pessoas como elas são… Cada um sabe a alegria… E a dor que traz no coração”

À torcida do Fluminense eu só peço uma coisa: que reflita e aprenda de todos os momentos e movimentos da história. Que essa dor da família Braga e a forma como eles a encaram nos sirvam de inspiração para a construção verdadeira de um Fluminense novamente campeão tanto dentro como fora das quatro linhas.

Portanto, caro Abel, eu só poderia terminar essas palavras repetindo a mensagem que o teu JonJon deixou para se despedir:

“PRESENTE EM PENSAMENTO”… Sempre!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: Tarde de Pacaembu

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