Peter Barros (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

Os últimos dias foram repletos de boas notícias. Primeiro e acima de tudo, ganhamos três de quatro partidas disputadas, nos classificamos para as oitavas da Copa do Brasil e acumulamos pontos importantes no Brasileirão. Segundo, vimos o belo retorno de uma antiga promessa do clube e, nos deliciamos com o calor suburbano de Edson Passos. Por fim, mas não menos importante, novas contratações marcaram o fim da política de austeridade do clube, algo que deve ser bem-recebido, senão celebrado. Vou explorar aqui essa última nova, realmente importante.

Desde 2013, o Fluminense foi dirigido numa linha tipicamente neoliberal, a linha da austeridade máxima justificada de formas diversas. Primeiro, a justificativa era o aperto do patrocínio da Unimed, depois sua saída, depois o Profut. São justificativas pertinentes? Talvez sejam, mas se forem, deveriam servir de tesoura para o que não importa (gastos perdulários) e não para o que importa (investimento). Isso deve estar claro, a austeridade é máxima, mas seletiva, e atende a critérios muito esquisitos.

Como nos governos neoliberais, teve dinheiro para muita coisa, menos para o que realmente importa. A austeridade deveria conter o desperdício de dinheiro, como pagamentos milionários a dirigentes, comissionamentos (por dentro dos contratos, que fique claro) injustificáveis, aportes de recursos em um timeco da Europa, contratações de “jogadores” encalhados nos portfólio de empresários. Mas a austeridade não pode ser justificativa para conter o investimento na área-fim do clube, o time de futebol aqui do Rio de Janeiro (hoje temos de dizer), o elenco, a comissão técnica, sob a pena de arrasar receitas e desmoralizar esportivamente a instituição.

Mas temos uma boa notícia também nesse campo: como disse, acabou a austeridade. O clube gastou um caminhão de dinheiro esse ano para montar o elenco atual e para reforçar previamente o time do ano que vem. Como nem tudo tem sido flores no mundo das Laranjeiras, a boa nova se reduz a isso mesmo, ao fato de a gestão ter finalmente resolvido abrir o cofre para reforçar o time e o elenco, de ter demonstrado cabalmente que não havia razão para o chilique financeiro dos últimos anos, de ter adotado outra mentalidade, mesmo que isso tenha sido o fruto de uma decisão eleitoreira. Uma das boas coisas da democracia é essa: fazer os que estão no poder lembrar que existe povo debaixo deles, um povo que vota.

Sim, a boa nova é o fim da austeridade, porque o investimento em si foi uma porcaria. Creio que desacostumada a gastar, a direção do clube agiu como apostador de turfe que ganhou uma bolada depois de muitos insucessos. Saiu gastando sem qualquer critério, sem orientação profissional discernível, sem nexo mesmo. O retrato disso é a relação das contratações com as carências de nosso atual elenco.

Contratou-se, entre meias e atacantes, os seguintes jogadores: Maranhão, Dudu, Marquinho, Danilinho, Wellington, Aquino, Henrique Dourado, Rojas e tivemos a volta de Robert. Ainda foram contratados para o ano que vem Sornoza (excelente) e, ao que parece, Orejuela (excelente). Parece que o Flu também fez proposta pelo outro volante do Del Valle, o tal do Rizotto. Se confirmarem os dois últimos, teremos contratado mais do que um time de meias e atacantes, doze jogadores. Contemos agora Cícero, Edson, Douglas, Scarpa, Pierre, Osvaldo, Samuel, Pedro, Richarlison, Marcos Jr., Magno Alves, Marlon Freitas, e chegamos a inacreditáveis 24 jogadores entre meias e atacantes, deixando de lado os que voltam de empréstimo, como Wellington Paulista.

Entre os 24, há poucos nomes realmente confiáveis. Há nomes piores (Dudu é o campeão da lista) e melhores (Sornoza e Scarpa), mas de todo modo parece ser possível montar um meio-campo competitivo, embora com um ataque fraco, impotente. Agora, se a gente escolher os doze melhores, sobrarão doze. O que serão feitos desses doze, já que quase ninguém ali tem contrato curto e salário baixo?

Olhando para as laterais, o absurdo da contratação hipertrofiada de meias e atacantes fica ainda mais clara. O Fluminense tem seis laterais no elenco: Ayrton, Giovanni, William Matheus, Jonathan, Wellington Silva e Julião. Três para a direita e três para a esquerda, tudo aparentemente bem distribuído, organizado, não fosse a verdade insofismável de que nenhum dos seis tem a mínima condição de jogar no Fluminense. O único que poderia jogar alguma coisa parecida com futebol, Jonathan, visivelmente tem algum problema físico, parece estar sempre com o freio de mão puxado.

O Fluminense contratou mais que uma dúzia de jogadores, trouxe outros tantos, retornarão ainda outros. Mas não contratou nenhum lateral. É isso mesmo? A gente vai ficar esse ano e o próximo sem laterais? Ou alguém acha que Wellington Silva e William Matheus servem para o Flu? Eu tenho conversado com muita gente e todo mundo diz a mesma coisa: sem laterais e com atacantes fracos, a gente não vai a lugar nenhum.

Honestamente, a “política” de contratações da atual gestão traz à memória o Celso Barros de 2004. Foi mais ou menos por ali que Celso Barros começou a despejar dinheiro de verdade no patrocínio do clube, mas sem muito critério, ao menos no início. Contratava mil atacantes e deixava o time sem laterais, sem goleiro, sem técnico. O elenco de 2004, por exemplo, tinha Romário, Ramon, Roger e Edmundo, mas era dirigido por Alexandre Gama – quem? O tal da janelinha. O mesmo elenco que tinha os quatro fora de série tinha também jogadores como Juca, Arílson e Marciel, entre muitos outros.

A era Celso Barros se foi e agora estamos no período Peter Barros. Peter Barros segue a cartilha do dirigente anterior no início de sua trajetória: o importante é gastar, trazer nomes, vender e comprar, negociar – e os técnicos que se virem para arrumar um time selecionando jogadores num elenco troncho, desbalanceado. O time não acertou, demite o técnico e traz um motivador para tocar adiante a coisa.

O problema maior é que Peter Barros foi aparecer no último ano da atual gestão e está engessando a grana do ano que vem. Ou vocês acham que vai acontecer o quê? Depois de contratar uma penca de jogadores com contrato de três anos, Peter Barros vai deixar o pepino para o próximo presidente: para montar um elenco razoável, vai ter de desfazer contratos, com um óbvio prejuízo para o clube. Vejam, isso independe de quem venha a ser o presidente, se Abad, Trengrouse, Cacá ou, sei lá, eu. Quem entrar lá vai ter pouca margem de manobra para ajeitar o elenco de Peter Barros. Que tenha sorte e inteligência, porque o legado parece aquele do Pan de 2007. Peter e Pan, tudo a ver!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jole

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