Perpetuum immobile? (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

No dia 08 de dezembro de 2013, o Fluminense foi rebaixado à segunda divisão. Todos sabem que escapamos por causa de um erro infantil cometido pelo Flamengo, reflexo de sua gestão amadora do futebol, mas o fato é que, naquele dia 08 de dezembro (e por muitos dias depois dele), o Fluminense estava na segunda divisão. Nunca é demais lembrar que o Fluminense contava ainda com um elenco milionário, com muitos remanescentes do grande campeão estadual e brasileiro do ano anterior.

No dia 08 de julho de 2014, a seleção brasileira sofreu a maior humilhação de sua história. Foi simplesmente arrasada em casa, numa semifinal de Copa do Mundo, com uma goleada cujos números são conhecidos de todos. O pior é que o 7 a 1 do placar foi comedido diante do que se viu em campo. Tivesse forçado um pouco o jogo no segundo tempo, a seleção alemã poderia ter chegado a 10 ou mais, sem exagero.

Há muitas semelhanças nos dois casos, tanto em termos de causas quanto de consequências. Os dois episódios são o produto de uma administração não apenas incompetente, mas incapaz de sensibilizar-se com o efeito de sua própria incompetência. Em ambos os casos, há muitos indícios de que o jogo tenha sido relegado ao segundo plano em favor do business. Não surpreende que os dois vexames não tenham sido suficientes para provocar mudanças realmente representativas, ao menos até agora.

A seleção brasileira continuou sendo gerida como se fosse patrimônio exclusivo dos engravatados da CBF, acusados de participação em esquemas fraudulentos milionários, e dos meios de comunicação. A mídia empresarial, Globo à frente, Galvão Bueno no comando, engajou-se desde sempre em campanhas apologéticas e ufanistas, a despeito do absurdo gerenciamento do futebol brasileiro e, particularmente, da seleção. Há denúncias de uma interseção entre os esquemas alegadamente corruptos da CBF e a conduta cúmplice dos meios de comunicação. A derrocada atual tem feito alguns ratos pularem do barco, mas sempre haverá alguém para lembrá-los que, até pouquíssimo tempo, todos comiam farelos do mesmo banquete.

Depois de 2013, o Fluminense continuou rebaixando a gestão do futebol profissional ao plano secundário. Isso na prática, porque na teoria há empáfia, gestão e número para todo lado. A realidade por detrás do discurso da modernização sonoramente difundido pela atual gestão é a formação de elencos muito abaixo da qualidade mínima exigida pela história do clube, a contratação e demissão de treinadores sem qualquer critério razoável, as negociações opacas e, por diversas razões, suspeitas de jogadores e contratos em geral.

Parece, à primeira vista, inacreditável que tragédias como as do 7 a 1 e a do rebaixamento de 2013 não tenham suscitado transformações realmente importantes na concepção e no gerenciamento do futebol brasileiro e do Fluminense. A hipótese mais imediatamente disponível para explicar essa ausência de mudança é a incompetência, o mau entendimento, a incapacidade de perceber a profundidade do fosso representado por aqueles episódios singulares. Há outra possibilidade, no entanto: que, na verdade, aquelas tragédias e seus efeitos perniciosos de longa duração sejam irrelevantes para os que estão no comando das respectivas instituições, a CBF e o Fluminense. Esse seria evidentemente o caso de um desvio de finalidade, que é, em geral, provocado por interesses escusos. É possível ainda haver uma mistura das duas coisas, porque a incompetência, no longo prazo, mata a galinha dos ovos de ouro, minguando contratos e, portanto, comissões.

Isso tudo me veio à cabeça neste último domingo, por razões relativamente óbvias: o desperdício em que consistiu o empate do Fluminense e o jogo patético do Brasil. Focando no Fluminense, fiquei mais uma vez estarrecido assistindo jogadores absolutamente incapazes de fazer jus à camisa que vestem. William Matheus e Henrique Dourado, por exemplo, foram contratados com base em que análise, em que avaliação? O que esperavam desses jogadores? E Giovanni, Dudu, Maranhão, Aquino, Osvaldo, entre muitos outros? Como e por que vieram para o Fluminense? Vieram fazer o que no clube, pela mão de quem? Como se montou esse elenco, qual a concepção de futebol por detrás dele? Levir Culpi é o técnico adequado para essa concepção de futebol? Já está claro que vai dar errado, a não ser por um milagre (por exemplo, na Copa do Brasil). Quem vai ser responsabilizado?

O Fluminense tem uma eleição esse ano. Não sei quem vai ganhar, mas já declarei aqui que apoiarei o candidato que demonstrar força para vencer a atual situação do clube e a inércia do clube, fazendo-o respirar novos ares. Ou seja, estou com a oposição, embora não com toda ela, que fique claro. Agora, independentemente de quem venha a vencer a eleição, o que gostaria mesmo de ver é uma guinada na concepção do futebol do Fluminense. Não sei se o a questão é o não profissionalizar a gestão. Mas, se é para ter uma gestão profissional, que assim seja de fato. Façam a sério essa tal profissionalização, tragam gente inquestionavelmente competente, com resultados já consolidados, gente bem remunerada para pensar o jogo, o elenco, a relação com a divisão de base. Tragam essa gente, paguem essa gente e cobrem essa gente. Cobrem resultados imediatos, porque não é verdade que não é possível obtê-los. Cobrem planejamento de médio e longo prazo. Mudem o estatuto do clube, se necessário, mas façam. Não é possível que o Fluminense, como o futebol brasileiro, tenha atingido a condição de um perpetuum immobile.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jole

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