O que inspira? (por Juliana Rolhano)

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Na vida, poucas coisas têm o poder de trazer a felicidade plena. Na maioria dos casos, a tal felicidade completa tem sabor de nostalgia. Lembranças impagáveis. Memórias insolúveis. O ontem sempre trazendo a leveza dos melhores momentos já vividos.

O passado congelado na mente apenas com a melhor parte do que se viveu.

Talvez o ontem seja insuperável. Mas aquilo que o fez feliz no passado ainda existe nos dias atuais.

Talvez não com as mesmas pessoas. Talvez não exatamente do jeito que se desejava. Mas existe.

Os jogadores podem não ser os mesmos do passado de glória, mas os atuais dão conta do recado. O treinador com certeza não é mesmo, mas o que lá está e comanda o time, é capaz. Todos são.

O caminho até o palco mais lindo do futebol pode não ser o mesmo. As infinitas obras do Rio de Janeiro podem ter mudado um pouco o cenário, mas o destino ainda é o mesmo.

O campo pode não ser o mesmo. Pode estar de cara nova, mas seu nome de peso ainda é o mesmo. Maracanã de tantas alegrias.

A torcida lá presente com certeza não é a mesma de anos atrás, ao menos não com a mesma cara; afinal, o tempo passou. Mas com certeza ainda possui o mesmo espírito da que existia antigamente.

O Fluminense volta a campo hoje à noite como tantas e tantas vezes já entrou no passado.

Joga contra o Vitória, no Maracanã. Campo de tantos e tantos jogos do pretérito, sendo ainda palco de muitos e muitos jogos do presente.

Jogo que poderá manter acesa a chama da esperança que voltou a queimar recentemente nos corações tricolores.

Jogo importante (como todos são) que poderá garantir a permanência na liderança do campeonato.

Jogo que inspira.

Que faz a mente vagar entre os espaços atemporais. Que traz à memória os momentos mais incríveis da história deste time tão querido.

Torcedores que são estimulados desde sempre pelo Fluminense de ontem e de hoje.

Todos estarão misturados mais tarde num grande emaranhado de passado, presente e futuro que ainda será inspiração para a eternidade.

“Eu não sei o que é a inspiração. Mas também a verdade é que às vezes nós usamos conceitos que nunca paramos a examinar. Vamos lá a ver: imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do raciocínio sobre esse tema, até chegar a uma certa conclusão. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajecto, mas também pode acontecer que a razão, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser razão, avançar tão rapidamente que eu não me aperceba disso, ou só me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto a que, em circunstâncias diferentes, só chegaria depois de ter passado por todas essas fases.

Talvez, no fundo, isso seja inspiração, porque há algo que aparece subitamente; talvez isso possa chamar-se também intuição, qualquer coisa que não passa pelos pontos de apoio, que saltou de uma margem do rio para a outra, sem passar pelas pedrinhas que estão no meio e que ligam uma à outra. Que uma coisa a que nós chamamos razão funcione desta maneira ou daquela, que funcione com mais velocidade ou que funcione de forma mais lenta e que eu posso acompanhar o próprio processo, não deixa de ser um processo mental a que chamamos razão.”

José Saramago, Nobel de Literatura 1998, in “Diálogos com José Saramago”

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