Nossas insígnias (por Rafael Rigaud)

FLU
Amigos, ao recordar o fato de que no domingo passado tivemos o mais importante clássico do mundo do futebol (Fla x Flu); não tive como associar esse clássico mais recente com nosso assunto da coluna passada (identidade no futebol, mais precisamente a identidade tricolor no futebol). Fiquei pensando em como a gente reproduz sem pensar todos os estigmas que são construídos e que, aparentemente, são verdades verdadeiras e incontestes.

Nesse contexto do mundo da bola, a nós, coube receber o estigma de ‘time da elite’, ’minoria seleta’, ’time de riquinhos’, e mais pejorativamente ‘playboyzada’, ’filhinhos de papai’, ’torcida leite com pera’. O motivo disso? O fato de termos surgido no princípio do século passado num momento em que futebol era para poucos e esses poucos eram ricos que, ao voltar do exterior, traziam uma novidade da época – o futebol. Fomos os pioneiros e, logicamente, éramos poucos. Além disso, éramos poucos e de origem rica. Pronto, estava feito o estigma.

Num momento em que futebol era para poucos, ficamos sendo aqueles que eram a minoria numa cidade que exaltava o remo (sic) até que outros viessem dar a sua contribuição para o futebol, seja cedendo inúmeros jogadores para a seleção nacional mais bem-sucedida do futebol mundial (Botafogo),seja abrindo espaços para que todos passassem a jogar futebol (como Bangu e Vasco) gerando o rei do futebol (Santos). Nosso papel foi escrever os primeiríssimos parágrafos dessa história para que, posteriormente, esses pudessem escrever suas respectivas páginas.

Porém, como já havia afirmado anteriormente, esses estigmas podem, sim, ser desfeitos e refeitos (o rótulo ‘time de guerreiros’ está aí e está mais ligado a espírito de luta e superação do que de uma fleuma-blasé) como antigamente éramos caracterizados) e essa construção e reconstrução de identidade acontece não só conosco como também com outros clubes nacionais. Os exemplos do Palmeiras – que troca o papagaio pelo porco como mascote (por ter sido, ofensivamente chamado de “porco” e, ao aceitar o apelido, desfaz o sentido negativo) – e do Flamengo, que adota o apelido de “urubu” (por razões parecidas às dos palmeirenses) estão aí para nos mostrar isso.

O Flu se tornou conhecido por ser ‘time de elite’ por ter a maior parte da sua torcida nas camadas mais ricas da sociedade, mas não apenas nunca foi o único a ter ricos em sua composição como também não tem somente torcedores de um substrato da sociedade (eu mesmo sou tricolor e classe média, estou longe de ser um milionário, porém visto verde, branco e grená). Só a título de recordação, o Botafogo nasceu no bairro mais aristocrático do principio do século XX (Botafogo – muito mais aristocrático que Laranjeiras) que tinha mansões de barões e autoridades e o Flamengo nasceu no Flamengo (bairro também nobre) e hoje se encontra na Gávea (estando de frente pro exclusivíssimo Jockey Club e sendo vizinho do riquíssimo Leblon e do refinado bairro do Jardim Botânico) e concilia o fato de estar num dos m² mais caros do país e ser, ao mesmo tempo, o time de torcida mais numerosa, sobretudo nas camadas mais pobres.

O Tricolor continua sendo o time que tem maior concentração de sua torcida entre os mais ricos, sim, mas não se resume a isso; quem defende esta tese está sendo falacioso (da mesma forma que seria aquele que afirmasse que não há rubro-negros com alto poder aquisitivo ou que não há vascaínos sem ascendência portuguesa, por exemplo) que também o são quando dizem coisas referentes à sua história e sua mitologia (sim, mitologia… afinal, ninguém tira da minha cabeça – enquanto sociólogo – que clubes criam seus próprios ídolos, histórias e conquistas, dentro e fora de campo).

Esse pensamento (de que somos também de tudo um pouco, SIM, ao contrário do que dizem por aí) é meu, de muitos tricolores ilustres (inclusive nosso querido Paulo-Roberto Andel) e é também do próprio presidente (Peter Siemsen),que já entendeu que a gente está predominantemente entre os mais ricos (como foi dito acima), mas também em todas as partes – o plano de sócio-torcedor por 30 reais é uma estratégia de agregar rendimentos ao clube com pagamento fixo de mensalidades e assim conseguir fluxo de caixa e,ao mesmo tempo, trazer para dentro do clube o tricolor que não é abastado (que, sim, existem!) mas nem por isso é menos apaixonado.

Torço para ver o dia em que os quatro grandes do Rio com associados na casa dos milhares possam ter fluxo de caixa independente de televisão e consigam andar com as próprias pernas e, enfim, respirar. Hoje, os 4 grandes estão asfixiados por má gestões passadas e dependem desesperadamente de renda de TV pra viver, a ponto de adiantar cotas de anos futuros e, exatamente por dependerem dela, acabam acatando tudo o que a donatária quer (inclusive jogos as 22h pra estádios vazios, o que é bom só para a TV mas não para os clubes)…

Espero ver o futebol fluminense mais forte, sobretudo na figura dos 4 grandes da capital…e livre (ou quase isso) de estigmas limitadores e depreciativos.

Rafael Rigaud

Panorama Tricolor

@PanoramaTri