No dia em que eu apanhei da minha mãe (por Rogerio Skylab)

SKYLAB DESENHO AZUL

O código de proteção à infância condena a palmada.

Eu também condeno.

A palmada é um eufemismo moderno, um gesto vazio, uma mímica patética. Foi no que nos transformamos. A mão de quem bate é vergonhosamente poupada. E a criança fala pra si mesma, cheia de melancolia: um tapinha não dói.

Quanta saudade das surras homéricas.

Morava ao lado de uma casa de cômodos na rua Conselheiro Barros, Rio Comprido, Rio de Janeiro. Uma rua de paralelepípedos, entre a Barão de Sertório e a rua do Bispo. Lembro-me, inclusive, dos números: minha casa era a dezoito; a do lado, a vinte e dois.

Os moradores dessa última casa eram de classe baixa, em sua maioria, negros e trabalhadores. Uma espécie de cortiço. Como esquecer dos gritos?

A surra era uma instituição. A gente ouvia o grito, o choro, o gemido. As mães batiam com gosto porque tinham esse direito. E era um direito intransferível, inalienável.

Ai de quem, não sendo pai, se sentisse no dever de reclamar.

E um dia fui premiado. O motivo, reles: já era noite; minha mãe me chamou para entrar várias vezes e não atendi (a pelada na rua tinha mais apelo); quando entrei em casa já era tarde.

Foi uma surra espetacular. Quase uma curra.

A única que levei na minha vida. Minha mãe valorosa fechou à chave a porta do quarto e começou a sessão. Nas pernas, na bunda. A força da minha mãe não apelava para utensílios. Os tapas retinem até hoje: tapa de mão cheia, tapa de mãe.

As minhas pernas magrinhas ficaram vermelhinhas. O bumbum também.

Hoje, na internet, passo horas a fio vendo porrada entre mulheres – se for porrada de rua, melhor. Mas a internet tem o mesmo efeito da palmada.

Numa ocasião, vi, ao vivo, duas mulheres se atracando, ou quase isso. Naturalmente, parei meus afazeres e fiquei olhando. É como se eu perseguisse uma certa imagem. Acho que fiquei de boca aberta contemplando, como se estivesse diante de uma obra de arte. Uma delas se impôs sobre a outra, empurrou, sacudiu. Podia ter interferido, mas fiquei paradinho, hipnotizado.

Na minha adolescência, era só porrada. Chegava em casa todo estropiado. Era um horror. Se visse a possibilidade de levar uma surra, caía dentro, brigava com vontade, brigava com prazer.

E quando assistia aos jogos do Fluminense no Maracanã, me postava sempre atrás do gol tricolor. Vocês podem compreender. Como era muito magrinho, não cruzava as pernas, eu enroscava uma na outra. Nessa época, nós tínhamos o melhor goleiro do Brasil: Castilho. E quando jogávamos contra o Botafogo de Gerson, Jairzinho, Rogerio e Paulo César, eu chegava a gemer.

Cresci, casei, envelheci. Amo muito a minha mulher, sem a qual eu não sou ninguém. Mas busco a cada minuto, a cada segundo, a Mulher-Gorila.

Aonde está a Mulher-Gorila?

Quero a Mulher-Gorila em carne e osso.

E sei que um dia ela vai chegar. E quando isso acontecer, ela vai me deitar no seu colo, vou fechar os olhos, e aí eu não quero nem saber.

Visite Godard City, o blog do Skylab. E também o site do artista. 

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @rogerioskylab

Imagem: pra yt/ divulgação

CAPA O FLUMINENSE QUE EU VIVI AUTÓGRAFOS

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