Lucro por quê – V (por Luiz Alberto Couceiro)

LUCRE

Final (mas não conclusão) – Parte I

Desorganização em todos os sentidos no Campeonato Carioca? Alguma novidade nisso? Acho que, para os que o acompanham e têm mais de 30 anos de idade, dizer isso é enxugar gelo, é exercício de pura ranhetice, é dar uma de hamster na rodinha, ou seja, é não sair do lugar, deixar de ir além. Bacana é fazer perguntas, ao menos pra mim, pensar em situações que possam explicar nossas angústias, entendendo-as como signo de alguma coisa que nos incomoda.

Fico muito triste em ser maltratado em qualquer situação, e não penso que, em breve, no Rio de Janeiro, o consumidor de todos e quaisquer tipos de produto, em sentido amplo, possa vir a ser bem tratado por comerciantes das mais variadas envergaduras. Pessimismo ou conhecimento do funcionamento de algumas formas de pensamento e ação (sem dualismos, por favor!) no Rio? Não sei… Talvez a tradição do “personal-garçom”, digamos assim em termos mais atuais, reforce às avessas o que estou falando. Há, do lado do cliente, a certeza de ter atendida a expectativa pelo serviço, e, do do trabalhador, de que receberá gestos de valorização pelo bom trabalho desempenhado. O tamanho da gorjeta é a forma mais frequente de sua materialização. Ninguém ali está bancando de bonzinho e nem sendo hipócrita. Daí a idéia do freguês, que sempre vai lá, no bar/restaurante, é bem tratado, troca palavras de carinho, faz algumas piadas, deixa gorjeta, e sai satisfeito. As regras de interação estão bem claras pros dois lados.

Dizia-se isso no futebol, quando um time perdia muitas vezes para o outro, em curto espaço de tempo. Há outras exceções. Alguns gerentes de lojas de roupas mais caras, de grifes famosas, também conseguem reconhecimento de sua clientela, assim como balconistas de casas de suco – marca, ainda, até não sei quando, registrada nesse Rio com grupos sociais cheios de ânsia de modernizá-lo de cima pra baixo, na marra, na truculência.

Aqui em São Luís percebo claramente essa relação nas negociações, nas feiras livres, entre os feirantes e os clientes que vão direto do trabalho se reabastecer porque aquelas ocorrem do final da tarde para o início da noite devido ao calor em meses subsequentes, e não mais forte do que o dos dias quentes cariocas. Há muito que pensar sobre isso…

Contudo, em alguns anos comecei a ver o preço que o torcedor paga por essa desorganização aumentar estratosfericamente. Pra mim, aí está o problema em termos simbólicos. Aí esta a novidade, ou, melhor, a materialização econômica da desordem de quem tem o poder de mando no futebol carioca. O fenômeno é amplo, porque sabemos, caros leitores, que o futebol, composto por vários mundos sociais que se interligam, não é “apenas” um jogo em si. É uma das formas mais fortes de socialização no Brasil, e de começar relações, de se fazer metaforicamente um caminhão de comentários e conferir significado às experiências individuais e coletivas de várias ordens de interação.

As explicações, de modo geral, a meu ver, estão ligadas por uma onda de modernizar tudo – sempre com termos estrangeiros colocados com pouca precisão. Sei que canibalizamos muitos desses termos desde muitas décadas, como gari, cachimbo etc. Mas não é esse o caso. Não estou pontificando aqui qualquer tipo de purismo ou essencialismo linguístico, por favor! Da boca de Luciano do Vale, nas transmissões da NBA na época anterior à formação do Dream Team – estou falando grego aos mais novos? Aconselho, modernamente, buscar lindas imagens no Youtube – a palavra “assistência” passou para as suas transmissões do Campeonato Paulista e, depois, para as mesas-redondas da TV à cabo. O canal que se chamava “Bandeirantes” passou a ser “Band”, talvez por ser mais rápido de se pronunciar e comunicar supostamente a mesma ideia.
Isso tudo para substituir os termos “passe preciso” para a “entrada em facão”, o “lançamento”, a “trivela”, a “enfiada de bola”. Durante os anos 1990 e início do século XXI, certa mentalidade dominou a esfera política federal apregoando e aplicando a tal “reengenharia” de tudo e a financeirização das relações de trabalho. O faxineiro não teve o salário aumentado, mas seu nome ficou mais bonito como “auxiliar de serviços gerais”, assim como os office boys. Os mais jovens que vierem a escutar a música de Kid Vinyl talvez não entendam nada do que ele disse sobre o cotidiano desse trabalhador. (Nossa, estou falando como ancião!) O colunista Zé Simão chamou, de maneira precisa, essa forma de comportamento de “tucanada”.

É comum ler e ver nos noticiários administradores do esporte, os tais menagers, não mais os folclóricos cartolas, defenderem o argumento de que é preciso cobrar mais caro pelos ingressos porque eles oferecem estádios reformados e novos e… Até um deles mal localizado, no caso o Engenhão, e outro morto, no caso o Maracanã. Típicos casos de business à carioca. Se pudessem, essas figuras do mercado financeiro que empresariam de tudo um pouco, mandariam os times do Rio, ao menos os quatro grandes, jogarem com as cores mais vistas na elegância de Wall-Street, em Manhattan, New York: preto, cinza claro, cinza médio, e, até, se for o caso, forçando uma barra, azul escuro, o chamado “dark blue”. Fico imaginando se o próximo estádio não será no meio do Grajaú, na subida da Grajaú-Jacarepaguá, ou até no meio do mar. Ao menos seria ao estilo capitalismo carioca modernizador.

Luiz Alberto Couceiro

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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