Lembranças, saudade e uma triste conclusão (por Paulo-Roberto Andel)

LIVRO – A ESSÊNCIA DO FDP BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO 2 – POCKET FINAL

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Fluminense versus São Paulo sempre foi um jogo especial para mim. Meu pai era paulista e, por conta da terrível perda de meus avós (no intervalo de uma semana), foi posto pelos parentes num colégio interno nas imediações do Morumbi, também perto da famosa fábrica de pão Pullman. Daí, ficou ainda mais são-paulino, até que veio para o Rio e passou a ser Fluminense – naquele tempo, caso mudasse de cidade, ou você se apega a outro time ou abandonava o futebol, nao havia os recursos de hoje. A triste história do internato mudou sua vida para sempre e, consequentemente, a minha também. Pelo amor juvenil de meu pai ao time paulista, também lhe dei uma simpatia especial.

Na última vez em que nos vimos no Maracanã, não fomos ao jogo juntos, em 1986. Eu estava com dois amigos, e ele com outros dois, nos encontrarmos na saída. O Flu havia tomado uma virada da garotada do São Paulo, 2 a 1. Saímos revoltados. Os dois times ainda disputariam as quartas de final do Brasileirão daquele ano, eles passaram, Careca fez um golaço, os maqueiros agrediram o Romerito e tal.

Pouco mais de vinte anos depois, não deu tempo para o último jogo: meu pai morreu subitamente a uma hora do maior jogo entre Flu e São Paulo, pela Libertadores de 2008, logo dos dois clubes que lhe ocuparam como o primeiro amor e o definitivo, que atravessa os tempos. Assim, toda vez que o meu Tricolor encara o time do Morumbi, a figura de meu pai está sempre presente. Aquela partida monumental vai fazer dez anos dentro de um mês, assim como o enterro do Hélio, mas tudo parece que foi ontem: o drama, a dor infinita, a glória, o destino. Esteja onde estiver, ele me guia por aqui pelos caminhos da vida estreita, torta e coberta pela opressão diária.

Hoje tem jogo. A aplicação precisará ser dobrada. É um domingo à tarde no que sobrou do Maracanã. Eu queria mesmo era encontrar o meu pai, dar-lhe um abraço e então vermos o jogo juntos, na leste, num botequim ou em casa mesmo. Na impossibilidade do ato, ficam a saudade, as lembranças e uma gratidão infinita, cuja recíproca pode ser encontrada na Wikipedia do Flu com o sobrenome Andel.

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Ao mesmo tempo em que parece viver dias menos intranquilos no campo, a cada dia que passa o Fluminense é mais sacaneado e escrotizado pelos próprios tricolores – clippings da Flapress (e reprodução sem crédito) contra o próprio clube, vaidades idiotas, um bando de zés ninguém em busca de fama, likes, boquinhas, ódio, incompetência e uma disputa que pode ter de tudo, menos de política na essência da palavra, ancorada na palavra oca de senhores da verdade sem currículo algum. Já soube de gente que se gabava de… ter dado autógrafo…

Se Roniquito, o famoso personagem de Ipanema, acompanhasse o dia a dia dessa porradaria escrota, é certo que diria “Esse clube e seu entorno estão cheios de ninguém!”.

Poderia contar histórias maravilhosas de alguns desses sujeitos – convivi com alguns, até que os removi com vassoura de pó e pá da minha vida. Se você tirar o assunto “Fluminense” da pauta, muitos deles caem de quatro e não se levantam nunca mais. Um deles se gabava de dizer “Eu só entendo de futebol (sic), do resto sou muito ignorante”. Até hoje calça ferraduras, mas sonha trabalhar no clube…

Cansei dessas porcarias todas, dessa bostalhada parasita que usa o nome do clube para autopromoção. Meu compromisso pessoal e intransferível é com o Fluminense, o meu trabalho e os meus amigos – alguns deles ainda na atual gestão e outros, contra – cuja eleição apoiei contra o mal maior, mas com senso muito crítico. Daria pra escrever um livro sobre o que penso, e não seria de poesia leve, tenham certeza.

Mas, por mais que o atual governo tricolor mereça todas as críticas – e merece muito mesmo! – o problema do Flu vai além disso. Mais além.

Não acredito mais nessa maneira de conduzir as coisas, seja ela de que grupo for – e não adianta vir com conversa fiada de “mudança” com pós-Abad, Celso (a quem sempre respeitarei), Mário, Capacete e o diabo a quatro que o modelo medíocre de “nós contra eles” não muda nem vai mudar por causa de nomes. O modelo é viciado. O personalismo fica sempre acima dos interesses do clube.

O Fluminense não vai morrer, o Fluminense não vai acabar, mas ele nunca terá o tamanho que queremos enquanto o ódio, a pequenez, a vaidade, as decisões monocráticas e o submundo da candinhagem prevalecerem. E de vaidade inútil, o cemitério está cheio… Enquanto depois da eleição, as pessoas que realmente trabalharam por quem se elegeu são jogadas no lixo, para serem bajuladas um ano antes da próxima…

O modelo é viciado e tem que mudar. Às vezes me assusto e acho que o Chiquinho Zanzibar realmente existe.

Sem diálogo e os melhores nos melhores postos, o máximo que o Fluminense conseguirá é um momento de alta ali, outro acolá e mais nada. Fala-se muito, mas em mais de trinta anos o que ganhamos? Quatro estaduais, uma Copa do Brasil, dois Brasileiros e um vice da Libertadores. Já repararam que é, com todo respeito, quase o mesmo saldo do Atlético Paranaense? E eles ainda reformaram seu estádio, enquanto na nossa turma tem gente que sonha com o fim das Laranjeiras para… ter um trambolhão vazio no quinto dos infernos, enquanto não botamos quinze mil no ex-Maracanã (com trem, metrô, ônibus, táxi, uber etc).

A única coisa que foi construída à base de ódio e deu certo no mundo foi o Black Sabbath. Mas nem isso podemos imitar por ora – não temos nenhum Ozzy Osbourne nem um Tony Iommi, é bom que se diga.

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Desculpem o saco cheio. Que venha uma boa vitória logo mais. O resto quissifo.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

Imagem: rap

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