La dolce vita (ou o café du rôle) (por Alva Benigno)

Numa cafeteria em Udine, o conde Di Zanzibar sorve um delicioso capuccino. Observa a paisagem enquanto ri com o canto da boca.

Acabava de conferir o saldo da conta nas Ilhas Gayman. Contracheque e sua gangue de cretinos de todas as laias haviam lhe dado o calote no caminhão de perebas.

O velho Chiquinho Zanzibar sempre ri por último e articulava o derrubadão lentamente. “Para que matar se podemos torturar?”, diz a bela canção do funk proibidão.

Através de laranjas internacionais, cretinos que lhe deviam favor, arquitetou uma improvável negociação de um potro cheio de potencial pra alazão.

O nome de Chiquinho Zanzibar jamais foi citado em etapa alguma.

Lá nos anos 1970, perto de Curionópolis, onde tratava de negócios de garimpo, CZ conheceu falsificadores de toda a sorte de documentos. Era preciso que Chiquinho Zanzibar reinventasse sua história. Tinha um sonho de menino dos filmes de Hollywood: queria ser um nobre.

De filho de motorista de táxi com cafetina de casa de divertimentos de ricos e famosos, da noite pro dia virou filho de italianos e suíços, com toda a árvore genealógica comprovada desde o antigo regime. Era, finalmente, o Conde Francisco Di Zanzibar! Com facilidades em diversas partes do Velho Mundo.

Decidiu usar novamente o título para humilhar Contracheque, um homem que não pode ser respeitado por Chiquinho Zanzibar pelo simples fato de usar sapatos da Di Santini em queima de estoque. Isso diz muito da pessoa…

Chiquinho Zanzibar pede um café especial com uísque. Olha seus sapatos de cromo alemão, seu terno Versace, ajeita o lenço Chanel em seu pescoço, e observa, cinicamente, uma caixa garbosa na cadeira ao seu lado.

Chiquinho é fino, muito tricolor e escroto, vingativo como Odete Roitman, até sua última molécula.

Toma um Viagra, antes da chegada do café.

Olha a linda paisagem.

Pede ao garçom um cartão com o nome da cafeteria prestigiosa, onde sujeitos empregados públicos não entram.

Escreve, com sua caneta, recordação dada pelo grande líder nacional, Ernesto Geisel:

“Eu sou o maestro da orquestra que toca no salão nobre do club. Agora, veja se você não dança tão fora do ritmo e sem tropeçar nos próprios passos. Udine, 12, setembro, 2018. Conde Di Zanzibar. ”

Discretamente, abre as calças embaixo da mesa, e retira seu falos erectus do elegante tecido de centenas de euros. Apoia o cartão no membro rígido e bate uma fotografia. Imediatamente, envia pro zap zap particular de Contracheque.

Esfrega o cartão no pênis, limpando a queijada de dois dias de intensa orgia em Capri, a ponto do elegante papel ficar amarelado, roto, fedido.

Suspira de prazer. Sorri, logo assim que chega o caríssimo café.

Abre a caixa onde um par de sapatos de dança prá lá de chique repousa à espera dos pés de Fred Astaire. Coloca o cartão batizado sobre ele e fecha a caixa.

Chama o garçom e pede que entregue ao mensageiro que já aguardava na porta do estabelecimento.

Chiquinho Zanzibar lentamente coloca seus lábios novamente ricos e cheios de volúpia na beira da xícara, aproveitando cada gota da incrível bebida.

Não quer mais saber de “Minha Luta”, após o vergonhoso fato envolvendo a mestiçagem brasileira com o consulado alemão. Só quer saber de amar através de sua nova literatura-guia: “O universo em desencanto”.

Recebe um telefonema onde uma voz grossa, em italiano, confirma a senha pra festança na Sicília. De agora em diante, só o Conde Di Zanzibar existirá, até mesmo para seu lamentável papagaio, Garrastazu, e seu gato angorá, Moreira.

Sorri novamente, e volta os olhos para o livro, que lhe aguardava, ao lado do café.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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