Escancarando de vez! (por Alva Benigno)

Alguma coisa estava fora da nova ordem mundial. No país do golpismo, o reacionário mor cogitou procurar em si traços de vanguarda. Tudo bem, algumas pessoas mudam mas é difícil imaginar guinadas tão bruscas. Meus amigos e minhas amigas, o que pode estar a caminho é a maior virada da história de Chiquinho Zanzibar.

Acordei de madrugada com sede e fui à cozinha para matá-la. Na volta, resolvi espiar o smartphone e lá estava um áudio de um cidadão identificado com o apelido de “Faca na caveira”. Escutei. Dizia que eu teria uma surpresa em breve. Segundo o dito cujo, ao estar num churrasco de homoafetivos tricolores, ficou sabendo que um deles, conhecido pelo nickname “O blogayro”, estava sob profunda depressão porque o velho Chico optou por encerrar a bonita amizade entre os dois – em troca de ser mencionado e elogiado na coluna do rapaz, Chico dava agrados em momentos de intimidade dos dois. O argumento veio numa sentença que beira o inacreditável: “O que falam de mim são calúnias, meu bem. Eu parei. Chegou a hora de pendurar o esplendor. Morri”. Ainda Blogayro: “Eu estava com Happybath, o troquei pelo Zanzibar e agora ele mete o pé no meu rabo”. É.

Ouvi, não levei muito a sério, estava um calor, me senti suada e resolvi tomar um novo banho para dormir. Deu certo.

Mal acordo e logo recebo novos arquivos, dentre eles o do nosso admirável escroque da terceira idade.

Alguma coisa como “Vá, preciso marcar pra gente se ver. Estão acontecendo coisas muito estranhas comigo, como nunca imaginei. Acho que vivi coisas muito desafiadoras e tenho refletido sobre tudo. A verdade é que parece que mudei meus desejos. Outrora tão represados, eles se tornaram vividos mas o fato é que eu sou uma metamorfose ambulante. Quero viver coisas novas intensamente e sinto que é o momento. Chegou a hora de mostrar o meu valor. Tenho pensado em minha esposa e também noutras mulheres. Tenho pensado inclusive em você. Pensado coisas que nem sonharia um dia. Quero te ver.”

Em condições normais, uma fala dessas só seria palpável se fosse por algum interesse escuso, mas não era o que parecia no tom da voz de Chiquinho Zanzibar. Ele parecia sereno, sóbrio, direto e reto. Céus!

“Sempre serei um admirador do lutador careca, mesmo que ele nunca tenha me notado, mas agora eu não quero que ele me faça de fêmea. É só admiração, de verdade, não a que os puxa-sacos da torcida têm por ele, ou gente com medo de perder seu status. Como eu perdi tempo com esses idiotas que vivem 24 horas falando mal do clube. Se fazem isso, é porque não possuem mais nada de relevante a dizer. Eu tenho amor ao Tricolor, mas não quero saber de fissura no pezinho, unha encravada ou antidoping. Eu quero o Fluminense só pra mim, mas não a esse preço. E quero distância das minas do Agnaldo Happybath: quem anda com porco, farelo come. Chega desses Zés Cloaca doidos por supositório de carne. Depois eu volto”.

Estava feliz pela conquista da Taça Guanabara e a boa campanha na Copa do Brasil, de verdade. Não pensava em boquinha no clube, comissão de empresários, práticas fascistas, falcatruas e sacanagens de ocasião. Cansou das bichas fofoqueiras das redes sociais, dos caçadores de oportunidades, das patéticas subcelebridades em busca dos quinze minutos de fama. Que diabos aconteceu?

Por alguns instantes, parecia mesmo outra pessoa. A última fala desafiou definições: “Sei que já fiz mal a muita gente, que mergulhei nos piores subsolos. Eu fui um pecador. Mas agora sinto uma luz dentro de mim, iluminando todos os poros do meu corpo, e algo me diz que chegou a hora de novas direções. Tenho saúde, posses, vários anos de vida pela frente e pretendo fazer a diferença.”

Quando me dei conta, era quase onze da manhã. Recebo mais um áudio. Eu também já fui apaixonada por um lutador careca. Aperto um botão, ouço o novo áudio que chega e uma voz gutural, forte, máscula, daquelas que cativam mulheres e homens, invade os meus ouvidos:

“Quero te ver, porra!”

Agora estou mais confusa do que nunca. Estou perdida entre a realidade e a fantasia, a coragem e o medo, o desejo e a serenidade. Alguma coisa acontece em meu coração, dizendo que Francisco da Zanzibar y Zanzibar, o maior escroque tricolor de todos os tempos – superando respeitável concorrência – pode ter se tornado sim um outro homem, em todos os significados possíveis desta palavra.

No computador, clico no YouTube e escolho uma canção antiga, um grande hit que ajuda a explicar tudo o que estou a sentir.

(Continua)

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: chic

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