“Deixa os garotos brincar” (por Gustavo Coelho)

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Sempre que se adentra um lugar pela primeira vez, especialmente quando tal entrada se dá por convite direto do anfitrião, a escola da malandragem ensina que é preciso pisar de mansinho, pedir licença, sentir o solo a fim de perceber os caminhos de possíveis. Com licença, Panorama, tô entrando. Em todo caso, a pisada mansa que aqui convoco como ethos de entrada nos diversos mundos que entramos, não tem nada que ver com neutralidade, com pacifismos conservadores, com a paz dos senhores, tem que ver sim com astúcia, com esquiva, com boa temporalidade, pois só a rasteira dada no tempo certo é que faz derrubar a perna de pau, fincada, imóvel, firme, nada flexível dos bem estabelecidos, dos convictos, dos esclarecidos. Chego, então, desta forma, ao Panorama Tricolor, espaço que, dada sua já conhecida virtude, não é lugar que convida para seu território nenhum perna-de-pau, mas sim gente que faz da clivagem das letras um traçado de ginga, um rastro de incaptura, portanto que não vê nas demandas atuais pelos conservadorismos de neutralidade, nem um desejo, tão pouco uma possibilidade, dado que onde há o traçar das letras como aqui, há marcação, há vinco, há justamente um esconjuro contra as ameaças do neutro. Façamos, então, dessas páginas, uma quinzenal trincheira contra as demandas pelo desencantamento, contra o fim da poética, o fim da linguagem, o fim das escolas, das universidades, dos estádios populares, dos rojões, dos bambus, dos sinalizadores, das fumaças, dos surdos, do mano a mano, da vida em tudo que ela tem de vigoroso, e de cuja efervescência depende não o esporte do futebol, mas o seu estatuto de sofisticada filosofia popular anti-regime. Futebol como base de defesa contra o maquinário imobilizador da neutralidade, da imparcialidade, espaço-tempo em escape a todo esse apanágio do sonambulismo de ocasião que vem, paradoxalmente, alimentando o fervor na tentativa de projeção de um impossível e esquizofrênico mundo sem fervor. Escola sem partido, estádio sem torcida, escola sem poética, estádio sem tambor, escola sem linguagem, estádio sob a ditatura da cadeira, escola sem crítica, estádio sem um sapeca iaiá. Que façamos desse humilde espaço uma série de amarrações outras, desatando nós, abrindo fincos, linhas de fugas de nossa existência, esquivando de toda covardia, de toda judaria que anda se elevando como autoridade. No mais, há décadas nossas torcidas organizadas já cantam “Deixa os Ga… Deixa os Ga… Deixa os Garotos Brincar!”

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: guc

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