Aquela barra pesada… (por Paulo-Roberto Andel)

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I

Não está fácil para ninguém, exceto uma meia dúzia por aí.

No futebol, nem pensar.

Quanto ao Fluminense, menos ainda, por tudo que já se sabe tanto de verdade quanto de mentira, num clube duro de grana, cercado por ódios e com uma lida política que, inevitavelmente, remete boa parte de seus dirigentes ao mitológico Odorico Paraguaçu, o lendário protagonista da novela “O bem-amado” vivido por Paulo Gracindo, prefeito da fictícia(?) Sucupira.

Fato é que este (importante) jogo de logo mais me lembrou de outro, também numa quarta-feira fria à noite de Maracanã vazio, Fluminense e Corinthians pelo Brasileiro de 2009.

“Campeão da Copa do Brasil e já classificado para a Libertadores da América 2010, o Corinthians não tem mais o que fazer no Campeonato Brasileiro. Porém, na noite desta quarta-feira, pela 28ª rodada, o Timão “atrapalhou” a vida do Fluminense ao empatar com o Tricolor em 1 a 1, no Maracanã. Alan marcou para os cariocas, enquanto Dentinho anotou para os paulistas.

Com o resultado, o Corinthians, que não vence há cinco jogos, chegou aos 39 pontos, na décima posição, enquanto o Fluminense, com apenas 22, segue na lanterna e virtualmente rebaixado à Série B. Esta foi a quarta partida entre ambos na temporada, com duas vitórias para os paulistas e dois empates.

“Foi um bom resultado o empate. Claro que estamos há cinco partidas sem vencer, mas não podemos descartar o resultado. O Fluminense vive um momento ruim no campeonato e jogou para vencer”, destacou o zagueiro William.

Na próxima rodada, o Fluminense vai até o ABC Paulista enfrentar o Santo André. Já Corinthians recebe o Grêmio, no Pacaembu. As duas partidas serão realizadas neste sábado, às 16h10.

“Tem que lutar até o fim e continuaremos fazendo isso. É o que eu posso dizer para a torcida. A situação está ficando cada vez mais complicada”, disse o goleiro Rafael.”

Barra pesada, irmão.

II

Chegamos ao Maracanã eu e o folclórico jornalista Alvaro Doria. Fomos comprar os ingressos numa bilheteria da Radial Oeste, vazia que ela só, mas tinha cambista também. Eu tratei de ir logo ao guichê enquanto um jovem cambista abordava o Doria, enquanto seu gerente comercial espiava de longe.

“Ingresso baratinho aqui também, senhor.”

“Vai lá e fala pro teu chefe que ano retrasado eu não pude entrar na estreia do Engenhão porque ele queria 70 reais pelo ingresso, e o mínimo que ele pode fazer agora é me dar um por cinco reais” (falando alto e rápido, de um jeito que pouca gente entenderia).

“Sim, senhor” (o garoto com os olhos arregalados, assustado com o cliente”.

Ele vai, fala alguma coisa e, de longe, o chefe mostra o sinal positivo com o polegar. Volta o garoto, entrega o ingresso e Doria sai feliz com a negociação.

“Assim não dá, né? Me fudeu uma vez, tem que compensar agora”.

Rimos e fomos para a rampa da UERJ, naquele tempo em que já não havia mais a querida geral, mas arquibancada ainda era arquibancada.

II

Maracanã tão vazio e, nas cadeiras azuis, estava a Gaviões e adjacentes, só eles, mas migrar para depois das cadeiras brancas era permitido. Ainda me permiti uma molecagem: fui para o outro lado numa boa. Desci os degraus, cheguei perto do último e soltei um berrão: “Corinthians…”. Uns cem olharam pra cima, crentes que era uma saudação. Continuando: “… vá se fuder, o São Paulo é bem melhor do que você!”.

Imediatamente fui xingado e urrado pelos cem, enquanto dois policiais do meu lado riam para valer. Ao voltar para o nosso lado, os trinta que lá estavam riram muito, deu pra ouvir direitinho.

III

Jogo ruim, tenso, complicado, já tínhamos nossa certidão de óbito publicada nos jornais.

Voltei para casa e fui escrever no meu blog para três pessoas, quase chorando: o Fluminense não ia cair, não ia morrer, não era nada daquilo.

A gente mal sabia, mas depois daquela noite triste no Maracanã o Flu logo arrancaria para uma das maiores façanhas de toda a sua história.

E eu nem imaginava que escrever minhas loucuras para três pessoas era o primeiro passo para finalmente me tornar um escritor publicado, o que aconteceria pouco mais de um ano depois.

Ali eram dias muito tristes para mim: perdi meus pais, meu irmão foi embora, meu grande amigo Fredão falecera, o Flu estava numa draga de doer.

Ninguém imaginava o que Conca e Fred ainda iriam jogar com a camisa tricolor.

Muita gente não sabe o que rolou nas internas, é natural.

IV

Fluminense 1 x 1 Corinthians

Data: 07/10/2009 (quarta-feira)
Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Árbitro: Wilton Pereira Sampaio (DF)
Auxiliares: Ênio Ferreira de Carvalho (DF) e Marrubson Freitas (DF)
Público: 8.775
Cartões amarelos: Diguinho e Mariano (Fluminense). Balbuena, Dentinho, Marcelo Mattos, Souza e Paulo André (Corinthians).
Gols: Alan, aos 3 minutos; e Dentinho, aos 23 minutos do primeiro tempo.

Fluminense – Rafael; Mariano, Gum, Luiz Alberto e Dieguinho (Roni); Diogo, Diguinho, Fábio Neves (Equi González) e Darío Conca; Alan e Adeílson (Tartá). Técnico: Cuca

Corinthians – Felipe; Alessandro, William, Paulo André e Balbuena; Marcelo Mattos (Edu), Jucilei, Elias e Defederico (Souza); Jorge Henrique e Dentinho (Edno). Técnico: Mano Menezes

V

Quanta coisa já passou de lá para cá nestes quase nove anos. De boa, de ruim e de que não chegou a mudar.

O Fluminense foi céu, inferno, solidão, milagre, alegria, dor, vitória.

O Maracanã acabou, nasceu outra coisa em seu lugar. A vida segue.

Estamos novamente tensos, precisando loucamente vencer e lutar contra os riscos da zona de rebaixamento, mesmo caso de 2003, 2006, 2008, este 2009 mencionado, 2013 e 2015. Agora ocupamos o nono lugar, mas a apenas quatro pontos da ZR.

Assim como agora, o que chamam de “política do clube” fervilhava com mais de um ano de antecedência. À época, os opositores prometiam um futuro cheio de sonhos e esperança, contra a corrupção em nome de uma gestão moderna e eficiente. Menos mal que não havia essa babaquice de ódio entre tricolores, muito menos espaço para nanocelebridades “pone”.

O Flu não tinha um tostão na conta, mas sim a Unimed que trazia craques e, às vezes, dava um tiro ou outro n’água. Vários, né?

VI

“Na base do abafa, o Fluminense ainda tentou pressionar, abusou do chuveirinho, mas teve em chute torto de Roni aos 48 minutos a prova do desespero da equipe, que deixou o gramado vaiado pelos quase nove mil torcedores que estiveram no Maracanã.”

No ano anterior, Cuca havia saído do Fluminense com o time em situação desesperadora. Disse: “Cheguei ao meu limite de realização, não consigo mais do que isso”.

Ele nem desconfiava…

VII

Estamos aí de volta em mais uma batalha. Pensamento positivo. O time é evidentemente fraco, mas menos fraco do que vários outros abaixo da tabela, na verdade quase todos.

Uma coisa é ver tudo de errado e sentir que muito pouca gente tem condições de mudar o quadro em que nos metemos. Para mudar mesmo, não para se autopromover ou usar o Fluminense para outras finalidades que não as da sua grandeza.

Outra é não torcer, não deixar aquele calor subir ao peito para pensar que tudo vai dar certo.

VIII

Quando estiver vendo o jogo logo mais, eu vou torcer como nunca e chorar algumas vezes.

É que nove anos passam rápido demais, estou inevitavelmente mais perto da morte do que do nascimento, as pessoas estão cada vez mais hostis e primitivas, o ódio está espalhado feito poeira no asfalto.

O Maracanã morreu, o Fluminense mudou muito, sua torcida também. Mas as cores, a camisa branca, o escudo, aquele pó de arroz infinito que mora dentro das minhas lembranças, os meus botões, os abraços de gol, tudo isso permanece intocado.

Outra noite (quase) fria de quarta-feira contra o Corinthians, outra necessidade de vitória, tudo super outro de novo. Vamos encarar, a vida é isso.

A barra de hoje é pesada, mas menos do que a que lembrei por aqui.

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O livro a 30 pratas. Quem comprar ingresso para o Tributo a John Coltrane, que acontecerá no local com o quinteto de jazz do baterista  Roberto Rutigliano, paga apenas 20 merréis. Tudo em espécie.

Quem não tiver grana, depois me deposita. É tudo criado junto.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel 

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