Agenda lotada (por Walace Cestari)

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Uma semana de trabalho, enfim. Ou será de repouso? Treinar ou descansar, eis a questão. O calendário do futebol brasileiro é implacável. O Fluminense terá feito, na temporada, 68 jogos. Há equipes que beiram 90 partidas ao longo de um ano. A média chega próximo aos dois jogos por semana. Isso traz um sério prejuízo em vários aspectos.

A primeira – e mais evidente – consequência é o cansaço dos atletas, fato perceptível em campo. Não quero justificar más atuações ou erros que possamos ter cometido, até porque não é só no Fluminense que se percebe a perda de desempenho. Em todas as partidas do campeonato brasileiro, a partir do meio do segundo tempo, as equipes começam a se arrastar em campo e o jogo passa a ser disputado em outra velocidade, com excesso de passes errados, faltas e expulsões. Boa parte dos gols do campeonato saiu nos minutos finais, normalmente fruto de falhas das equipes. Isso pode ser colocado na conta do desgaste dos jogadores.

Já ouvi o argumento de que os atletas “ganham muito bem para só jogar bola”. É verdade que os salários são inflacionados e completamente fora da realidade dos brasileiros em geral, mas ganhar muito dinheiro não faz a musculatura responder melhor a nenhum estímulo. Dinheiro, como se sabe, não compra saúde; em que pese o exército de médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e afins existentes nos clubes, o organismo do jogador de futebol não é uma máquina. A carne e o osso pesam. O que o cérebro comanda, os músculos teimam em não responder.

Obviamente isso afeta mais alguns que outros. Os mais jovens sofrem menos com a parte física, os mais experientes penam. O fato é que, com isso, o próprio nível técnico decai. Surgem derrotas, cobranças – a torcida quer o time vencendo, independentemente de qualquer coisa – e a equipe que vinha bem, entra em crise. O que era para ser uma simples oscilação na competição, transforma-se em uma gangorra de emoções.

O Fluminense vive um momento como esse. Não que estivéssemos bem – não fomos bem por todo o ano –, mas o calendário prejudica outro ponto importante de uma equipe: a parte tática. O Flu, por exemplo, não se acertou com as propostas táticas de Abel no começo do ano. Pagamos o preço até o meio do campeonato, pois nosso comandante não conseguia corrigir o esquema. Daí vem o Bruxo Luxemburgo, com a missão de mudar o esquema. Como? Somente agora, quase dois meses depois de sua contratação, que Luxa tem uma semana inteira para trabalhar com os jogadores. Será suficiente? Por certo não. O treinador que assume um clube no meio do campeonato é como um borracheiro tentando trocar o pneu com o carro em movimento.

Além de bagunçar a parte tática, o excesso de jogos aumenta os problemas em pouco tempo. Além de provocar mais lesões, aumenta o número de partidas em que o jogador desfalca o time. Jean, por exemplo, desfalcou o time por aproximadamente um mês. O que seria um desfalque para, no máximo quatro partidas, chegou a sete. Prejuízo para o clube que contrata, para o patrocinador que não vê o atleta em campo, para o treinador que fica sem opções, para a torcida que se ressente de melhores atuações.

Fora isso, a recuperação não é completa, pois, se já treinou com bola, já está escalado para a próxima partida. Dura vida, mas é o jogo. Um campeonato assim mata seu próprio brilhantismo, apresenta espetáculos aquém dos possíveis. Se já é difícil competir com os campeonatos europeus que levam os craques para o Velho Continente, aqui fazemos questão de piorar ainda mais a qualidade técnica do que se vê.

Estádios vazios pelo pouco brilhantismo dos times – o equilíbrio da tabela mais próximo do Z-4 que do G-4 mostra isso – e pelos preços exorbitantes. Com ingressos caros, quem pode ir sete ou oito vezes por mês ao estádio? Se o torcedor – metido a rico, é claro – ainda quiser desfrutar de um cachorro-quente e um refrigerante, vai gastar sozinho pelo pacote quase um salário mínimo por mês: R$ 637,00.

A solução passa pelas reivindicações dos jogadores, que devem ser apoiados pela torcida nesta justa briga. Passa também pela Confederação, que deve retirar a proposta absurda de ainda diminuir as férias dos atletas em 2014 e sentar para conversar seriamente com clubes, sindicato, patrocinadores e detentores dos direitos de transmissão para criar um modelo rentável para um produto facílimo de se vender: o futebol brasileiro.

Menos jogos, com o fim dos campeonatos estaduais – ou com, no máximo dez datas para sua realização –, maior tempo de pré-temporada, adequação do calendário ao calendário europeu, evitando as perdas de jogadores no meio do campeonato, posicionamento firme da CBF na Confederação Sul-Americana para adequar também as datas da Libertadores aos interesses do clube mais importante no cenário futebolístico da região. São propostas difíceis? Talvez. Mas sem que ninguém nem sequer pense sobre elas, jamais qualquer outra surgirá para dar solução ao enorme problema em que vive o futebol brasileiro de hoje.

E que o Bruxo Luxa possa fazer magia em sete dias pelo Fluzão.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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